Capítulo 8 — Limites
Narração: Lipe
Eu já lidei com problema de todo tipo, desde os mais simples até os que viram guerra, já vi gente tentar crescer onde não tinha espaço, já vi traição nascer onde parecia lealdade, já vi situação sair do controle em questão de segundos, mas nada daquilo se comparava à sensação de ter alguém dentro do meu espaço que simplesmente não respeitava limite nenhum, como se regra não fosse com ela, como se o ambiente não tivesse peso, como se o risco não existisse.
E o pior não era isso.
O pior era que ela não parecia fazer esforço nenhum pra ser daquele jeito.
Era natural.
Ela estava parada no meio da sala, olhando ao redor com atenção, não com curiosidade de quem nunca viu nada parecido, mas com aquele tipo de observação calculada, como se estivesse registrando tudo, guardando detalhe, entendendo o lugar onde tinha acabado de entrar, e aquilo me incomodou mais do que alguém desesperado perguntando ou demonstrando medo.
— Não precisa ficar analisando — falei, direto, sem paciência.
Ela virou o rosto devagar na minha direção, cruzando os braços como se estivesse confortável demais pra quem tinha acabado de chegar.
— Relaxa — respondeu, com aquele tom que misturava ironia e despreocupação. — Já vi coisa pior.
Eu estreitei o olhar na mesma hora, não pela frase em si, mas pelo jeito que ela falou, porque aquilo não era só provocação, era afirmação, e eu não gostava de coisa que vinha sem explicação.
— Duvido — retruquei, seco.
Ela deu de ombros, como se não fizesse questão de provar nada, e aquilo só reforçou a sensação de que tinha mais coisa ali do que ela estava disposta a falar.
O silêncio caiu entre nós por alguns segundos, mas não foi um silêncio vazio, foi pesado, carregado de tensão, como se qualquer palavra errada pudesse acender algo maior, e mesmo assim, ela parecia confortável dentro dele, como se estivesse acostumada a sustentar aquele tipo de ambiente.
— Então — ela começou, quebrando o silêncio sem cerimônia — você vai me dizer onde ele tá ou eu vou ter que continuar procurando?
Soltei o ar devagar, passando a mão pelo rosto antes de responder, porque aquela insistência já estava começando a ultrapassar o limite da paciência, e eu não era homem de repetir coisa.
— Eu já falei o que tinha que falar — respondi, firme. — Tu apareceu aqui do nada, sem prova de p***a nenhuma, querendo resposta como se tivesse direito. Não funciona assim.
Ela inclinou a cabeça de leve, me olhando como se estivesse avaliando cada palavra, como se estivesse tentando decidir se valia a pena bater de frente ou mudar a abordagem, e eu já sabia qual seria a escolha dela antes mesmo dela abrir a boca.
— Eu não vou embora — disse, simples.
Sem espaço pra negociação.
Aquilo me arrancou um riso curto, sem humor, mais pela audácia do que pela situação.
— Tu acha que isso aqui é hotel? — retruquei, cruzando os braços. — Que é só decidir ficar e pronto?
Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância de novo, sem qualquer sinal de recuo, sustentando o olhar como se estivesse me desafiando a fazer alguma coisa a respeito.
— Eu só vou embora quando conhecer meu pai pessoalmente — afirmou, firme.
E foi aí que eu deixei escapar.
— p***a então você não vai embora nunca, né.
A frase saiu mais baixa do que deveria, mais pra mim do que pra ela, mas não passou despercebida.
— O que você falou? — ela perguntou na mesma hora, estreitando o olhar.
Balancei a cabeça de leve, cortando o assunto antes que fosse mais longe do que eu queria.
— Nada — respondi, seco.
Mas o estrago já tava feito.
Ela ficou me olhando por mais um segundo, como se soubesse que tinha mais ali do que eu estava disposto a falar, como se estivesse tentando puxar aquele fio até onde desse, e aquilo me irritou de um jeito que eu não demonstrava, mas que eu sentia.
— Você sabe — disse ela, com mais certeza agora. — Só não quer falar.
— E você fala demais — cortei, firme, dando um passo à frente dessa vez, invertendo a posição. — E isso costuma dar problema pra quem não entende onde tá pisando.
Ela não recuou.
Nem um centímetro.
Pelo contrário, manteve o olhar firme, como se estivesse esperando exatamente aquela reação.
— Problema eu já tenho faz tempo — respondeu. — Agora eu quero solução.
Aquilo não era só teimosia.
Era foco.
E gente com foco daquele tipo não vai embora fácil.
Passei a mão pelo rosto de novo, sentindo o cansaço bater junto com a irritação, porque aquela situação já tinha saído completamente do que eu planejava praquele dia, e mesmo assim, eu ainda não tinha decidido o que fazer com ela.
— Tu vai ficar aqui — falei por fim, mais por controle do que por decisão pensada. — Até eu entender quem tu é de verdade e o que tu quer com essa história.
Ela arqueou uma sobrancelha, como se aquilo fosse quase engraçado.
— Achei que já tinha ficado claro — provocou.
Ignorei.
Porque responder aquilo só ia alimentar mais ainda o que ela claramente estava tentando fazer desde o começo.
— Não sai sem falar comigo — continuei, firme. — Não mexe no que não é teu. E, principalmente, não testa minha paciência.
Ela soltou um riso baixo, desviando o olhar por um segundo antes de voltar pra mim, como se estivesse se segurando pra não falar algo pior.
— Vai ser difícil essa última parte — disse, sem esconder o deboche.
Eu balancei a cabeça devagar, já virando de costas antes que a situação virasse outra discussão sem fim, porque se tinha uma coisa que eu já tinha entendido, era que ela não ia parar, não ia recuar, não ia facilitar.
E aquilo, por algum motivo que eu ainda não conseguia explicar, não me fazia querer mandar ela embora.
Me fazia querer entender.
E isso era problema.
Grande problema.
Porque quanto mais eu olhava pra ela, mais aquela sensação estranha voltava, aquela impressão de que tinha alguma coisa ali que eu já conhecia, alguma coisa que não encaixava, mas que ao mesmo tempo fazia sentido de um jeito que eu não gostava.
E eu não trabalho bem com coisa que não faz sentido.
Mas também não ignoro.
Olhei de novo por cima do ombro, vendo ela ainda ali, parada no meio da sala, completamente à vontade num lugar onde qualquer outra pessoa estaria desconfortável, e isso só reforçou uma coisa.
Ela não era comum.
E, gostando ou não, ela não ia embora tão cedo.