Capítulo 5 — Chegada
Narração: Maria
O avião tocou o chão com um impacto seco que fez meu corpo reagir antes mesmo da minha cabeça acompanhar, e naquele instante eu tive a confirmação de que não era mais plano, não era mais ideia, não era mais discussão jogada no meio da sala tentando arrancar resposta de alguém que nunca quis falar, porque agora era real, concreto, irreversível, e por mais que eu mantivesse a postura firme, por dentro eu sabia que estava cruzando uma linha que mudava tudo.
Olhei pela janela enquanto a aeronave diminuía a velocidade, observando as luzes espalhadas pela cidade que eu só conhecia de longe, tentando encaixar na minha cabeça o fato de que aquele lugar, que sempre foi só parte de uma história m*l contada, agora estava diante de mim de verdade, sem filtro, sem ninguém pra suavizar ou esconder o que eu estava prestes a encontrar.
Levantei assim que liberaram a saída, sem perder tempo com aquele movimento lento de gente que parecia não ter pressa pra chegar em lugar nenhum, porque eu não tinha vindo até ali pra ficar observando, eu tinha vindo pra resolver, e quanto mais rápido eu começasse, melhor.
Atravessei o aeroporto com passos firmes, puxando minha mala sem olhar muito ao redor, porque não era curiosidade que me movia, era foco, e eu não ia me distrair com detalhe que não importava naquele momento.
Do lado de fora, o ar parecia diferente, mais pesado, mais quente, carregado de um tipo de energia que eu não sabia explicar direito, mas que fazia sentido com tudo que eu já tinha imaginado, com tudo que minha mãe tentou esconder, com tudo que eu sabia que ainda estava por vir.
Chamei um carro sem pensar duas vezes, entrando no banco de trás e jogando o destino sem rodeio, porque naquele momento eu não precisava de confirmação, precisava de direção.
— Rocinha — falei, direta.
O motorista me olhou pelo retrovisor por um segundo a mais do que o normal, como se estivesse tentando entender se eu sabia mesmo o que estava pedindo, mas não disse nada, apenas deu partida, e eu me recostei no banco, observando a cidade passar pela janela enquanto cada minuto parecia me aproximar mais de algo que eu não tinha como prever.
As ruas foram mudando aos poucos, o cenário ficando mais apertado, mais vivo, mais intenso, até que o carro começou a subir, e eu soube, sem precisar perguntar, que estava chegando.
Paguei e desci sem hesitar, segurando a mala com firmeza enquanto meus olhos percorriam o lugar ao redor, absorvendo cada detalhe sem demonstrar surpresa, porque se tinha uma coisa que eu não ia fazer ali era parecer deslocada, mesmo sabendo que, no fundo, eu era exatamente isso.
O movimento era constante, gente indo e vindo, olhares cruzando comigo de forma rápida, avaliando, tentando entender quem eu era, de onde eu vinha, o que eu estava fazendo ali, e eu sustentei cada um deles sem baixar a cabeça, porque eu não tinha chegado até ali pra recuar no primeiro impacto.
Caminhei alguns passos até a barreira, onde alguns homens estavam posicionados observando tudo que entrava e saía, e antes mesmo que eu abrisse a boca, um deles já deu um passo à frente, bloqueando meu caminho com um olhar fechado que deixava claro que ali não era lugar de gente de fora ficar à vontade.
— Princesa, o shopping é pro outro lado — ele disse, sem paciência.
— Nossa, é mesmo, nem tinha percebido — respondi, com ironia.
Inclinei levemente a cabeça, soltando um riso curto, mais de provocação do que de humor, porque aquele tipo de abordagem não me assustava, só me dava ainda mais vontade de ir até o fim.
— Eu não vim passear — respondi, firme, mantendo o olhar nele.
Ele deu um passo mais próximo, agora claramente irritado com a minha postura, como se não estivesse acostumado a ser respondido daquele jeito.
—Vaza mina — retrucou, mais bruto. — O patrão não tá com bom humor hoje, então faz o favor de vazar antes que eu resolva te tirar daqui de outro jeito.
O jeito como ele falou deixou claro que não era aviso vazio, mas também deixou claro que ele estava acostumado a lidar com gente que recuava fácil, e esse nunca foi o meu caso.
— Quero falar com quem manda aqui. — falei, sem aumentar o tom, mas deixando claro o que eu queria.
Ele soltou um riso desacreditado, passando a mão no rosto como se estivesse perdendo a paciência.
— Tu tá surda ou só é s*******o mesmo? — rebateu. — Já falei que não vai rolar, então pega essa mala e some daqui.
Por um segundo eu pensei em insistir ali mesmo, bater de frente até onde desse, mas o movimento dele foi mais rápido. Antes que eu pudesse formular qualquer argumento, vi seus dedos se fecharem com força em volta do rádio preso ao cinto.
Ele ignorou minha presença e a surpresa estampada no rosto dos outros ao redor. Com um olhar firme que encerrou qualquer tentativa de debate, ele levou o aparelho à boca, apertou o botão lateral e a estática preencheu o silêncio tenso entre nós. Sem desviar os olhos dos meus, ele chamou:
— Patrão? Na escuta. Temos um problema aqui na barreira. E a resposta veio em seguida.
— To ocupado c*****o.
— Em um movimento rápido, eu já estava com o rádio na mão, apertando o botão sem hesitar.
— Se você não descer eu subo — falei, direta, sem nem saber exatamente como ele era — e aí você não vai gostar.
O silêncio que veio depois foi curto, mas pesado, como se todo mundo ao redor tivesse prendido a respiração ao mesmo tempo, esperando a resposta que ia vir do outro lado.
A voz surgiu carregada, impaciente, com um peso que deixava claro que aquele era o tipo de homem que não gostava de ser interrompido.
— Como é que é nesse c*****o — ele disse, seco. — Eu vou descer. E vou dar um tiro na sua cara.
Eu soltei um riso baixo, sentindo uma mistura estranha de irritação com curiosidade, porque aquela voz não tinha nada a ver com o que eu tinha imaginado durante anos, e ainda assim, alguma coisa ali me puxava mais fundo.
Aproximei o rádio da boca de novo, ignorando completamente os olhares ao meu redor.
— Estou esperando — respondi, firme. — Porque eu não vou sair daqui.
Do outro lado, houve uma pausa, curta, mas suficiente pra mostrar que eu tinha conseguido quebrar o ritmo esperado daquela situação.
— Mas que p***a é essa — a voz veio de novo, agora diferente, mais irritada, mais curiosa.
E então o rádio ficou em silêncio.
Devolvi o aparelho sem pedir desculpa, jogando de volta na mão do cara que ainda parecia processar o que tinha acabado de acontecer, e cruzei os braços, esperando, porque agora eu sabia que tinha conseguido o que queria.
Alguns minutos passaram, e o clima ao redor mudou de forma sutil, como se a atenção tivesse se concentrado em um único ponto, e então eu vi.
Ele descendo da moto.
Passos firmes, postura de quem não precisava provar nada, olhar atento analisando tudo ao redor antes mesmo de focar em mim, e por um instante eu fiquei parada, observando, tentando encaixar aquela imagem com tudo que eu tinha criado na minha cabeça ao longo dos anos.
Mas não encaixava.
E talvez fosse exatamente isso que me fez dar um passo à frente antes que ele falasse qualquer coisa.
Ele parou a poucos metros de mim, me olhando de cima a baixo com um tipo de atenção que não era curiosidade comum, era análise, era cálculo, como se estivesse tentando entender o que eu estava fazendo ali e por que tinha chegado daquele jeito.
— Quem c*****o é você? — ele perguntou, direto, a voz carregada de impaciência.
Eu sustentei o olhar dele, sentindo o peso daquele momento, sentindo a tensão crescendo ao redor, mas sem recuar, porque se tinha uma coisa que eu já tinha decidido, era que eu não ia demonstrar dúvida ali.
Inclinei levemente a cabeça, deixando um sorriso de lado aparecer, carregado de deboche, de provocação, de tudo que eu sempre fui quando me colocavam contra a parede.
— Surpreso, papai ou esqueceu que tem filha?
O silêncio que se seguiu não foi comum, não foi leve, não foi simples, foi carregado de uma confusão que eu mesma não consegui ignorar naquele instante, porque pela primeira vez desde que cheguei, eu não tinha certeza absoluta do que estava fazendo, mas ainda assim, não voltei atrás.
Ele ficou parado, me encarando, como se tentasse processar o que eu tinha acabado de dizer, como se aquilo não fizesse sentido nenhum dentro da lógica que ele estava acostumado a lidar.
— Que c*****o de brincadeira é essa? — ele retrucou, agora mais sério, mais pesado.
E ali, naquele ponto, eu percebi.
A reação dele não era de reconhecimento.
Era de estranhamento.
E isso abriu uma dúvida que eu não esperava sentir.
Mas eu não deixei transparecer.
Porque, mesmo com aquela confusão começando a se formar dentro da minha cabeça, uma coisa ainda era certa.
Eu não tinha ido até ali pra recuar.
E aquela história estava longe de ser o que eu imaginei.