Capítulo 6

1310 Words
Capítulo 6 — Interrupção Narração: Lipe O problema de carregamento atrasado nunca é só atraso, porque quando a mercadoria não chega no tempo certo, começa a surgir pergunta demais, gente querendo saber o motivo, gente tentando entender se foi falha, se foi vacilo ou se tem coisa maior por trás, e naquele tipo de ambiente, qualquer dúvida vira risco, qualquer brecha vira oportunidade pra alguém testar limite, e eu não estava com paciência pra lidar com isso naquele dia. Eu tava no meio de uma cobrança que já tinha passado do ponto aceitável, encarando um dos caras responsáveis pela rota enquanto ele tentava me convencer de que tinha sido só um imprevisto, só uma falha de comunicação, só mais uma desculpa que não mudava o fato de que o prazo não tinha sido cumprido, e eu não sou de repetir regra, porque quem trabalha comigo já sabe que prazo não é sugestão, é ordem, e ordem que não é cumprida vira consequência. — Eu não quero saber p***a — falei, controlando o tom, mas deixando claro o peso das palavras. — Quero saber onde tá o que era pra já ter chegado. Ele tentou responder, mas eu levantei a mão antes, cortando qualquer tentativa de enrolação, porque aquilo já tinha ido longe demais pra conversa. — Resolve — completei, direto. — Ou eu resolvo por você. O silêncio que se formou foi suficiente pra deixar claro que ele entendeu, e naquele momento era tudo que importava, porque manter o funcionamento do morro não depende só de força, depende de ritmo, de respeito e de deixar claro que falha tem consequência. Antes que eu pudesse continuar, o rádio chiou preso na cintura de um dos vapores mais próximos, cortando o ambiente com aquele som que nunca vem à toa, e o cara já levou o aparelho à boca rápido, atento, porque ali ninguém ignora chamada. — Patrão? — a voz veio da barreira, meio carregada, meio tensa. — Temos um problema aqui. Eu fechei os olhos por um segundo, passando a mão pelo rosto devagar, sentindo a irritação subir porque não era hora, não era momento, não era tipo de coisa que eu queria interrompendo o que já tava complicado. — Tô ocupado, c*****o — respondi, seco, sem paciência pra detalhe. Mas antes que o vapor da barreira conseguisse continuar, antes que qualquer outra palavra viesse do outro lado, uma voz atravessou o rádio de um jeito que não combinava com aquele ambiente, não combinava com o tipo de gente que normalmente falava ali, e só isso já foi suficiente pra fazer todo mundo ao redor ficar em silêncio por um instante. — Se você não descer eu subo. Firme. Direta. Sem medo. Eu fiquei parado por meio segundo, processando aquilo, não pelo conteúdo, mas pelo absurdo da situação, porque não era comum, não era aceitável, não era nem perto de algo que acontecia no dia a dia. — Como é que é nesse c*****o? — falei, já irritado, já levantando o tom. — Eu vou descer e vou dar um tiro na sua cara. O silêncio voltou por um instante, mas não foi aquele silêncio de medo, foi um silêncio diferente, como se a pessoa do outro lado não tivesse entendido aquilo como ameaça de verdade. — Tô esperando — a mesma voz respondeu, sem mudar o tom, sem hesitar. Aquilo me tirou do eixo mais do que qualquer confronto armado conseguiria tirar, porque não era normal alguém sustentar aquilo daquele jeito, não naquele lugar, não falando comigo. — Mas que p***a é essa — soltei, mais baixo, mais irritado, já pegando a chave da moto. Olhei pro vapor que ainda segurava o rádio, com uma expressão que já dizia tudo antes mesmo de eu abrir a boca. — Eu vou matar quem deixou essa mina pegar esse rádio — falei, direto, sem esconder a irritação. Montei na moto sem esperar resposta, ligando e acelerando na mesma hora, subindo em direção à barreira com a cabeça já trabalhando mais rápido, tentando entender que tipo de situação eu tava indo encontrar, porque aquilo não era só alguém perdido, não era só curiosidade, tinha atitude ali, e atitude daquele tipo sempre vem acompanhada de problema. O caminho foi rápido, cortando as vielas com precisão, ignorando qualquer coisa que não fosse chegar logo, porque quanto mais tempo eu demorasse, mais aquilo podia sair do controle, e eu não gosto de coisa fora do meu controle. Quando eu parei na barreira, o clima já tava diferente, mais tenso, mais atento, como se todo mundo ali estivesse esperando a minha reação pra entender como aquilo ia acabar, e no meio deles, parada como se não tivesse nada acontecendo, estava ela. Primeira coisa que eu fiz foi olhar. Eu analisei. Postura firme, olhar direto, sem sinal de nervoso, sem sinal de arrependimento, sem nada que indicasse que ela tinha entendido o risco de fazer o que fez, ou pior, talvez tivesse entendido e simplesmente não se importou. E isso já era problema suficiente. Desci da moto devagar, sem tirar os olhos dela, deixando claro que a atenção ali tinha um único foco. — Quem c*****o é você? — perguntei, direto, sem paciência pra rodeio. Ela não respondeu na hora. Só inclinou a cabeça de leve, com um meio sorriso que não combinava com a situação, um sorriso que parecia mais provocação do que qualquer outra coisa. —— Sua filha… surpreso, papai? Aquilo não encaixou, não fez sentido. E por um segundo eu achei que tinha ouvido errado, que aquilo era algum tipo de brincadeira m*l feita, alguma tentativa de chamar atenção do jeito mais absurdo possível. — Que c*****o de brincadeira é essa? — retruquei, dando um passo à frente. — Tu tá me confundindo, p***a? Ela manteve o olhar firme, sem recuar, como se estivesse esperando exatamente aquela reação, como se aquilo fosse parte do plano dela desde o começo. — Então você não é o Carlos? — perguntou, direta. E ali a situação mudou. Não resolveu. Mas mudou. Carlos. Agora fazia sentido a marra. Agora fazia sentido a ousadia… sangue r**m do c*****o. . Passei a mão pelo rosto, respirando fundo, olhando ela de novo, agora com outro tipo de atenção, tentando encaixar detalhe, tentando encontrar ligação, tentando entender se aquilo era verdade ou só mais um problema que eu precisava resolver rápido. — Depende — falei, mais controlado agora. — Por que tu tá procurando ele? Ela demorou meio segundo pra responder, e aquele meio segundo disse mais do que qualquer palavra, porque até ali ela não tinha hesitado em nada, e quando alguém que não hesita começa a pensar antes de falar, é porque tem coisa ali. — Porque ele é meu pai. O silêncio que veio depois não foi leve. Foi pesado. Porque eu sabia exatamente o que aquilo significava, ou pelo menos o que podia significar, e isso puxou coisa que eu não tava com intenção nenhuma de lidar naquele momento. Olhei pra ela de novo, agora mais atento, mais cuidadoso, analisando cada detalhe como se aquilo pudesse me dar alguma resposta que ela ainda não tinha dado. Idade… batia. Postura… até demais. O jeito de encarar… não desviava, não quebrava. E isso não era comum. Mas ainda assim, não era suficiente. — Eu não sou seu pai — falei, direto, firme, cortando qualquer possibilidade antes mesmo dela crescer. Ela soltou um riso curto, sem humor, sem surpresa, como se já esperasse por aquilo. — Engraçado porque eu tenho um — respondeu. Aquilo veio afiado, e pela primeira vez desde que desci da moto, alguma coisa ali deixou de ser só irritação e começou a virar outra coisa, algo mais difícil de definir, algo que eu ainda não tinha nome. Mas uma coisa tava clara. Aquilo não ia acabar rápido. E eu já tava envolvido mais do que queria.
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