O Olhar Que Nunca Vem

1519 Words
Na manhã seguinte, Sarah acordou com a sensação incômoda de que algo dentro dela ainda estava em movimento. Não era exatamente tristeza. Também não era raiva. Era uma espécie de inquietação silenciosa, como se alguma coisa tivesse sido despertada na noite anterior e agora se recusasse a voltar a dormir. Ela ficou alguns segundos deitada, olhando para o teto. O ventilador girava devagar. A luz da manhã atravessava a cortina em faixas claras, desenhando linhas no chão do quarto. Tudo parecia igual. Mas ela não estava igual. Ou talvez estivesse apenas cansada demais para continuar fingindo que estava. Sentou na cama e passou a mão pelo rosto. O sono ainda pesava um pouco, mas não o suficiente para apagar a lembrança do jantar da noite anterior. A conversa. As risadas. O instante em que tentou falar. O “depois você fala” do pai, seco e quase automático, como se fosse normal adiar a existência dela. Depois. Sarah apertou a mandíbula. Tinha alguma coisa naquela palavra que continuava machucando. Porque ela sabia o que “depois” queria dizer naquela casa. Queria dizer nunca. Queria dizer não agora, não importa, não é importante, não você. Ela levantou e foi até o banheiro. Lavou o rosto, escovou os dentes, prendeu o cabelo de qualquer jeito. Tudo no automático. Tudo como sempre. Mas, quando voltou ao quarto e passou diante do espelho, parou. Ficou olhando para o próprio reflexo por mais tempo do que o habitual. Cabelo preso sem cuidado. Camiseta larga. Olhos cansados. Postura recolhida. Ela parecia alguém tentando ocupar o menor espaço possível dentro do mundo. Talvez fosse esse o problema. Ou parte dele. Sarah se aproximou do espelho. Soltou o cabelo. Os fios escuros caíram sobre os ombros, um pouco desalinhados. Ela os ajeitou com as mãos, afastando-os do rosto. Depois inclinou levemente a cabeça para um lado. Era estranho se observar daquele jeito. Como se estivesse vendo outra pessoa. Ou talvez como se estivesse tentando encontrar, pela primeira vez, a pessoa que esteve ali o tempo todo. Abriu a gaveta da cômoda e ficou olhando para as roupas dobradas. A maioria era simples demais. Neutra demais. Segura demais. Escolheu uma blusa que quase nunca usava. Não era nada extravagante, mas marcava melhor a silhueta e tinha uma cor mais viva do que as camisetas apagadas que costumava vestir. Depois pegou uma calça que caía melhor no corpo. Experimentou. Voltou ao espelho. Parou outra vez. Não era uma grande mudança. Mas era… intenção. Pela primeira vez em muito tempo, Sarah não estava se vestindo apenas para passar despercebida. Estava se vestindo para ver o que aconteceria se ela deixasse de se esconder, nem que fosse um pouco. A ideia pareceu ridícula assim que surgiu. Quase infantil. Como se uma blusa diferente pudesse alterar anos de indiferença. Mas, ainda assim, ela não voltou atrás. Abriu uma pequena necessaire no fundo da gaveta. Havia ali alguns produtos que comprara meses antes por impulso e quase nunca usara. Um gloss. Um rímel. Um corretivo. Coisas simples. Coisas pequenas. Coisas que, em outra pessoa, talvez passassem despercebidas. Nela, pareciam um experimento. Passou o corretivo sob os olhos. Uma camada leve. Depois o rímel, devagar, tomando cuidado para não borrar. Por fim, o gloss. Quando terminou, ficou encarando o reflexo. Sarah continuava sendo Sarah. Mas parecia… mais desperta. Mais nítida. Mais presente. Isso a assustou mais do que deveria. Porque significava que talvez ela não estivesse condenada a desaparecer. Talvez tivesse passado tempo demais se adaptando ao papel que colocaram nela. Talvez tivesse aprendido a ser pequena para sobreviver àquele lugar. Respirou fundo. Pegou a mochila. E desceu. Cada degrau pareceu carregar um tipo diferente de expectativa. Não exatamente esperança — ela já tinha apanhado demais dela —, mas uma curiosidade amarga. Um teste silencioso. Na cozinha, a mãe estava colocando café em uma xícara. O pai folheava algo no celular. A irmã encostada na bancada falava sobre alguma amiga da escola. A cena de sempre. Sarah entrou. Ninguém olhou de imediato. Ela ficou em pé por um segundo a mais do que o normal, como se quisesse dar tempo ao mundo para percebê-la. — Bom dia — disse. A mãe respondeu primeiro, mas sem virar completamente: — Bom dia. Sarah esperou. Mais alguma coisa. Qualquer coisa. Nem que fosse um “você está diferente”. Mas nada veio. Sentou-se. Pegou uma fatia de pão. A irmã continuava falando. O pai continuava mexendo no celular. A mãe servia café. Nada. Absolutamente nada. Sarah levou a mão até o copo, tentando disfarçar o incômodo repentino que subiu pela garganta. Talvez ainda fosse cedo demais. Talvez estivessem distraídos. Talvez… — Você vai demorar hoje? — a mãe perguntou. Sarah ergueu o olhar imediatamente. O coração pulou. Mas a pergunta não era para ela. Era para a irmã. Claro. Sarah baixou os olhos de novo. A vontade de rir veio rápida, seca, amarga. Não um riso de humor. Um riso de exaustão. Como se alguma parte dela já soubesse exatamente como aquilo terminaria antes mesmo de começar. Ela comeu em silêncio. Dessa vez, porém, o silêncio não era o mesmo. Antes, ela se afundava nele. Agora, ele parecia mais cortante. Porque agora havia comparação. Havia tentativa. Havia expectativa frustrada. E nada machuca mais do que um esforço que morre sem ser notado. Quando terminou, levantou-se devagar. Pegou a mochila. Ficou parada por um segundo, perto da porta da cozinha. Queria dizer alguma coisa. Queria testar mais uma vez. — Estou indo. O pai fez um som qualquer, distraído, sem erguer os olhos. A mãe não respondeu. A irmã nem percebeu. Sarah saiu. Lá fora, o ar da manhã estava frio o suficiente para fazê-la puxar os braços para perto do corpo. Caminhou até a escola com passos rápidos, tentando não pensar muito, mas pensando mesmo assim. Tinha sido tolice. Era isso. Tentar ser vista naquela casa era como acender uma vela em um lugar onde ninguém nunca aprendeu a olhar para a luz. Ainda assim… não doía apenas pela falta de reação. Doía porque, por alguns segundos, ela realmente acreditou que poderia acontecer. Na escola, a mudança teve um efeito diferente. Assim que passou pelo portão, sentiu alguns olhares demorarem um pouco mais do que o comum. Nada intenso. Nada grandioso. Mas suficiente para ser notado por alguém que passou tanto tempo sendo ignorada. No corredor, uma menina do segundo ano olhou duas vezes. Dois garotos interromperam uma conversa por um segundo enquanto ela passava. Uma das colegas que costumava rir dela franziu a testa, como se tivesse identificado alguma mudança, mas não soubesse nomear qual. Sarah percebeu. E aquilo causou um estranho conflito interno. Por um lado, havia satisfação. Pequena, discreta, quase vergonhosa. Por outro, uma raiva funda. Então era isso? Bastava mudar a embalagem para o mundo notar que ela existia? A ideia a enojou. Mas também a fez pensar. No banheiro, na hora do intervalo, ela se olhou no espelho de novo. A luz branca era horrível, c***l, mas ainda assim mostrava claramente a diferença sutil. O rímel destacava os olhos. O cabelo solto deixava o rosto menos fechado. A roupa parecia dizer alguma coisa que ela nunca tinha dito antes. Ela não parecia mais bonita. Parecia mais visível. E aquilo mudou tudo. Porque se o problema nunca foi falta de existência, então talvez fosse só uma questão de presença. E presença… se constrói. Sarah tocou o próprio reflexo com a ponta dos dedos, como se estivesse confirmando que aquilo era real. Não, ela ainda não tinha mudado. Não de verdade. Mas alguma coisa havia começado. Na volta para casa, essa percepção ficou martelando na cabeça dela. Não como vaidade. Não como capricho. Como estratégia. Como defesa. Como resposta. Quando entrou em casa no fim da tarde, a sala estava vazia. O som da televisão vinha do cômodo ao lado. A mãe falava ao telefone. O pai ainda não tinha chegado. Sarah passou pelo espelho do corredor e diminuiu o passo. Olhou para si mesma outra vez. Ainda estava arrumada. O gloss quase tinha sumido. Alguns fios de cabelo tinham perdido o lugar. O cansaço já voltava a aparecer no rosto. Mas havia algo ali que não estava pela manhã. Uma dureza nova no olhar. Uma consciência diferente. Ela não tinha conseguido o que queria. Ninguém naquela casa realmente a viu. Mas, pela primeira vez, Sarah tinha se visto tentando. E isso importava. Mais do que deveria. Mais do que ela gostaria de admitir. Subiu as escadas devagar, entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Largou a mochila sobre a cadeira e ficou alguns segundos parada. Depois foi até o espelho pela última vez naquele dia. Não sorriu. Não havia motivo. Mas também não desviou o olhar. — Você não vai ficar assim para sempre — murmurou. A frase saiu baixa. Firme. Quase como uma promessa. Não para os outros. Para ela. E, naquele instante, Sarah entendeu uma coisa que talvez já soubesse, só ainda não tinha coragem de nomear: ninguém naquela casa viria resgatá-la da invisibilidade. Se ela quisesse deixar de ser esquecida… teria que começar sozinha.
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