Capítulo 25 — Algo Não Encaixa

947 Words
Nos dias seguintes, Sarah começou a perceber que não era apenas Gabriel que havia mudado o ambiente da casa. Era ela. No início, tentou ignorar essa sensação, como se fosse apenas mais uma fase passageira, um ajuste natural diante da presença de alguém novo. Mas, conforme os dias avançavam, ficou claro que não era algo externo que estava fora do lugar. Era interno. Algo não encaixava. A rotina seguia a mesma. Os horários, as conversas, os silêncios, tudo permanecia previsível. A mãe continuava ocupada demais para notar detalhes, o pai permanecia distante dentro das próprias preocupações, e a irmã ocupava o espaço com a mesma intensidade superficial de sempre. Nada disso mudou. E, ainda assim, Sarah já não se sentia exatamente igual dentro daquele cenário. Ela se observava mais. Pensava antes de reagir. Percebia pequenas variações no comportamento das pessoas ao redor. E, principalmente… percebia quando era percebida. Aquilo era novo. Naquela tarde, estava no quarto tentando estudar, mas a concentração não vinha. O caderno aberto à sua frente já tinha sido preenchido com anotações suficientes para parecer produtivo, mas a mente continuava dispersa, voltando sempre para o mesmo ponto: a sensação incômoda de que algo estava diferente nela. Não era apenas o fato de Gabriel observar. Era o efeito disso. Ela fechou o caderno e se levantou, caminhando até o espelho. Parou diante dele por alguns segundos, avaliando o próprio reflexo com mais atenção do que gostaria de admitir. Não havia mudança óbvia. O rosto era o mesmo. A expressão, em teoria, também. Mas havia algo nos olhos. Mais atentos. Mais conscientes. Menos… apagados. Sarah desviou o olhar primeiro, como se encarar aquilo por muito tempo fosse perigoso. Saiu do quarto e desceu as escadas sem pensar muito no que faria em seguida. Precisava sair daquele espaço mental que começava a se fechar demais. Quando chegou à sala, encontrou Gabriel sentado no sofá, com o mesmo caderno de dias anteriores, escrevendo com calma. Ele levantou o olhar quando ela apareceu. Sempre levantava. Aquilo já estava se tornando previsível. — Você parou de estudar — disse ele. Não foi uma pergunta. Sarah cruzou os braços, apoiando o peso em uma das pernas. — Você também observa isso? Gabriel fechou o caderno antes de responder, como se aquilo fosse mais importante do que o que estava fazendo. — Algumas coisas ficam claras. — Para você. — Para quem presta atenção. A resposta veio tranquila, mas não neutra. Havia um tipo de certeza ali que Sarah ainda não sabia como interpretar. Não parecia arrogância. Também não parecia tentativa de provocar. Era apenas… firme. Ela deu alguns passos pela sala, tentando organizar a própria reação. — Nem tudo que parece claro é — disse. Gabriel a observou por um segundo. — Nem tudo que parece confuso é. O silêncio que se seguiu foi curto, mas suficiente para que Sarah sentisse aquela leve pressão interna voltar. Aquela sensação de que a conversa estava indo para um lugar onde ela não tinha total controle. — Você sempre responde assim? — perguntou. — Assim como? — Como se estivesse… completando. Ele inclinou levemente a cabeça. — Talvez eu esteja ouvindo direito. A frase a atingiu de forma estranha. Porque implicava algo simples. E, ao mesmo tempo, raro. Sarah desviou o olhar e se aproximou da janela, observando a rua por alguns segundos. O movimento lá fora era comum, previsível, e isso trouxe um pequeno alívio momentâneo. — Não é comum — disse ela. — O quê? — As pessoas ouvirem. Gabriel não respondeu imediatamente. O silêncio que veio não parecia vazio, mas pensado. — Talvez não seja comum mesmo — disse, por fim. Sarah virou o rosto para ele. — Então por que você faz isso? A pergunta saiu mais direta do que ela pretendia. Gabriel sustentou o olhar dela sem hesitar. — Porque faz diferença. Simples. Sem explicação longa. Sem justificativa elaborada. Aquilo deveria ser suficiente para encerrar a conversa. Mas não foi. Porque a resposta criava mais perguntas do que resolvia. Sarah sentiu um desconforto crescente, não por causa do que ele dizia, mas por causa do efeito que aquilo tinha. Não era apenas uma conversa. Era como se, aos poucos, ele estivesse mudando a forma como ela percebia coisas que antes passavam despercebidas. E isso a deixava instável. — Nem sempre — disse ela, tentando recuperar o controle. Gabriel assentiu levemente. — Nem sempre. Mas não recuou. Não insistiu. Não explicou. Ele simplesmente deixou a frase existir entre eles. E isso, mais uma vez, foi o suficiente para desorganizar qualquer tentativa de encerramento. Sarah respirou fundo, sentindo a necessidade clara de sair daquela conversa antes que ela continuasse. Não porque estivesse desconfortável com ele, exatamente, mas porque estava desconfortável com o que aquilo estava provocando dentro dela. — Eu vou subir — disse. — Certo. Sem retenção. Sem comentário. Sem nada. Ela subiu as escadas mais rápido do que o necessário e entrou no quarto, fechando a porta com cuidado. Caminhou até o centro do espaço e parou, tentando recuperar a sensação de controle que parecia escorregar cada vez mais fácil. Algo não encaixava. Não nele. Nela. Era como se uma parte que sempre funcionou de forma automática tivesse começado a falhar. Como se respostas antigas já não servissem mais para as mesmas situações. Como se, pela primeira vez, ela estivesse sendo obrigada a prestar atenção em coisas que antes ignorava por necessidade. Sarah passou a mão pelo rosto e respirou fundo. Porque agora sabia. Não era apenas a presença de Gabriel que estava mudando o ambiente. Era a forma como ela começava a reagir ao fato de alguém enxergar o que sempre esteve escondido. E isso… não tinha volta.
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