Capítulo 15 — A Notícia do Retorno

774 Words
O dia começou como qualquer outro. E, ainda assim… não terminou da mesma forma. Na escola, Sarah já não se movia como antes. Seus passos eram mais firmes, o olhar mais presente, e o silêncio que a acompanhava agora parecia escolhido, não imposto. Havia algo diferente na forma como ocupava o espaço, como se tivesse finalmente entendido que desaparecer não era mais uma opção. Durante a manhã, percebeu novamente os olhares. Mais frequentes. Mais atentos. Alguns curiosos. Outros avaliativos. Mas, dessa vez, um deles permaneceu. Davi. Ele estava encostado no armário, como de costume, mas não fez nenhum comentário quando ela passou. Apenas observou. Sem riso. Sem provocação. Sem aquela necessidade de chamar atenção que sempre o acompanhava. Aquilo foi o que mais chamou atenção. Porque Davi não ignorava. Ele reagia. Sempre. E, ainda assim… dessa vez, não. Sarah seguiu andando, mas sentiu o olhar dele acompanhando por alguns segundos a mais. Não virou. Não respondeu. Mas registrou. E isso bastou. Na sala, ele também estava diferente. Não falou nada alto. Não provocou. Mas, em mais de um momento, olhou para ela. Como se estivesse tentando entender. E aquilo… mexeu. Não como antes. Não como medo. Mas como consciência. Ela estava sendo percebida. De verdade. No intervalo, a mudança ficou mais evidente. Sarah caminhava pelo pátio quando percebeu Davi se aproximando. Não de forma agressiva, nem invasiva. Apenas se aproximando, como alguém que decidiu agir, mas ainda não tinha definido exatamente como. — Você tá diferente — disse ele, parando ao lado dela. A voz estava mais baixa do que o normal. Menos performática. Mais direta. Sarah virou o rosto devagar. Sustentou o olhar. — Sempre fui. A resposta saiu calma. Sem pressa. Sem necessidade de provar. Davi soltou um pequeno sorriso, mas não era o mesmo de antes. Havia menos ironia. Mais interesse. — Nunca tinha percebido— ele respondeu. O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Foi… carregado. Sarah poderia continuar. Poderia puxar assunto. Poderia tentar. Mas não fez. Virou. E saiu. Sem dar continuidade. Sem facilitar. E isso… foi o que mais prendeu a atenção dele. Porque pessoas fáceis são esquecidas rápido. Mistério… não. Durante o resto do dia, Sarah sentiu a presença dele mais de uma vez. Olhares rápidos. Atenção disfarçada. Um tipo de interesse que ainda não se transformava em ação, mas que claramente existia. E, pela primeira vez, ela entendeu algo importante: ela tinha controle sobre aquilo. Não controle total. Não ainda. Mas o suficiente para perceber que podia influenciar o que vinha depois. E isso… era novo. Na volta para casa, os pensamentos vieram. Mas não como dúvida. Como estratégia. Ela não pensava mais “por que isso acontece comigo”. Pensava: “o que eu faço com isso?” Quando chegou em casa, o ambiente estava… diferente. Mais organizado. Mais silencioso. Mais atento. Como se algo estivesse prestes a acontecer. Sarah fechou a porta atrás de si e ficou parada por um segundo, observando. A sala estava arrumada além do normal. Almofadas alinhadas. Mesa limpa. Nenhum objeto fora do lugar. Aquilo não era comum. — Cheguei — disse. A mãe apareceu na sala. E, dessa vez… olhou para ela. De verdade. — Sarah. O nome dela no tom direto fez algo dentro dela reagir. Ela virou. — O irmão do seu pai vai voltar — disse a mãe. O silêncio se instalou por um instante. Sarah franziu levemente a testa. — Irmão? — Gabriel — o pai respondeu, surgindo logo depois. O nome ficou no ar. Pesado. Diferente. Não por significado. Mas pela forma como foi dito. — Ele vai ficar um tempo aqui — continuou o pai. Simples. Direto. Como se fosse só mais uma informação. Mas não era. Sarah não lembrava muito dele. Apenas fragmentos. Presença distante. Rara. Nada relevante. E, ainda assim… algo naquela informação pareceu deslocar o ar ao redor. — Ele chega amanhã — completou a mãe. A frase finalizou. Sem explicações. Sem perguntas. Como sempre. Sarah assentiu levemente. — Entendi. E subiu. Sem prolongar. Sem questionar. Mas pensando. No quarto, fechou a porta e caminhou até o espelho. Parou diante dele. Se olhou. Mas não com foco em si. Com foco no que estava vindo. Gabriel. O nome ainda não tinha forma. Mas já tinha peso. Ela respirou fundo. Algo estava mudando. Não só dentro dela. Mas fora também. E, pela primeira vez… essas duas coisas estavam prestes a se encontrar. Sarah sustentou o próprio olhar por alguns segundos. E, sem perceber completamente o porquê… sentiu. Expectativa. Não leve. Não simples. Mas diferente de tudo que já tinha sentido até então. E isso… não era um bom sinal.
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