Na manhã seguinte, Sarah acordou com a sensação de que precisava colocar alguma ordem dentro de si antes mesmo de sair da cama. O quarto ainda estava quieto, a luz entrando de maneira suave pelas frestas da cortina, e por alguns segundos tudo parecia simples demais.
Era quase irritante como o mundo podia continuar calmo por fora quando, por dentro, algo vinha se movendo de forma tão insistente.
Ela permaneceu sentada na cama por um momento, os pés no chão frio, os olhos parados em algum ponto entre a porta e o espelho.
A pergunta de Gabriel na noite anterior ainda girava em sua mente, não exatamente pelo conteúdo, mas pelo efeito. Havia sido uma pergunta simples, curta, sem dramatização. Mesmo assim, tinha atravessado uma camada que ninguém costumava alcançar.
E Sarah não gostava disso.
Não gostava de ser lida com tanta facilidade.
Levantou-se devagar e caminhou até o espelho, decidida a não repetir mentalmente a mesma cena mais uma vez.
Precisava controlar o próprio foco.
A solução parecia óbvia.
Distância.
Ela precisava de distância.
Não física, porque isso seria difícil enquanto Gabriel estivesse morando na mesma casa.
Mas emocional. Mental.
Ela precisava parar de reagir internamente a cada gesto simples vindo dele, como se qualquer olhar, qualquer pergunta ou qualquer silêncio carregasse uma importância que não deveria carregar.
Escolheu a roupa com cuidado, mas sem teatralidade.
Não queria parecer mais arrumada por causa dele, e o próprio pensamento a irritou assim que surgiu.
Como se tudo agora precisasse ser filtrado por essa presença nova dentro da casa. Como se, de repente, suas escolhas corressem o risco de deixar de ser apenas dela.
Desceu as escadas já com uma decisão silenciosa formada: naquele dia, manteria o controle.
A cozinha estava mais cheia do que o normal. A mãe colocava café nas xícaras, a irmã falava sobre a escola em tom exagerado, o pai lia alguma coisa no celular. Gabriel estava encostado na bancada, com uma mão apoiada na superfície e a outra segurando uma xícara.
Quando Sarah entrou, ele olhou para ela quase imediatamente, como se já esperasse sua presença.
Ela percebeu.
E, dessa vez, se recusou a reagir.
— Bom dia — disse, dirigindo o cumprimento ao ambiente, não a ele.
A mãe respondeu de forma automática. O pai ergueu os olhos apenas por um instante. A irmã murmurou algo curto. Gabriel foi o último.
— Bom dia, Sarah.
O nome dela, outra vez.
Na voz dele, soava simples demais para ser relevante.
Mesmo assim, o corpo dela registrou.
A conversa na mesa seguia banal.
O pai falava de compromissos, a mãe respondia, a irmã reclamava de uma colega.
Sarah se agarrou a essa banalidade como quem escolhe deliberadamente um terreno seguro.
O objetivo era claro: agir como se Gabriel fosse apenas mais uma pessoa dentro da casa. Nada além disso.
Funcionou por alguns minutos.
Até que a mãe comentou, casualmente, que precisava sair mais cedo naquela tarde, e o pai respondeu que também teria compromissos fora de casa.
Sarah não levantou a cabeça, mas percebeu o pequeno espaço de silêncio que se seguiu antes da conclusão óbvia se formar.
— Eu busco Sarah de novo — disse Gabriel.
A frase foi simples, natural, dita como quem resolve algo prático.
Sarah ergueu os olhos na mesma hora, antes mesmo de conseguir impedir o próprio reflexo.
— Não precisa — respondeu, rápido demais.
O silêncio que veio em seguida foi curto, mas perceptível.
A mãe olhou para ela com uma surpresa leve. O pai franziu a testa por um segundo, como se aquela resistência não fizesse sentido.
Gabriel, por outro lado, apenas sustentou o olhar nela, sem rigidez, sem ofensa.
— Não tem problema — disse ele, no mesmo tom calmo.
Era justamente esse tom que a desorganizava.
Não havia imposição.
Se houvesse, seria mais fácil recusar.
Sarah desviou os olhos primeiro e pegou a xícara de café, tentando recuperar a neutralidade. Não queria parecer afetada. Também não queria explicar uma recusa que nem ela sabia sustentar sem soar estranha.
— Eu posso voltar sozinha — disse, desta vez mais controlada.
— Eu sei — respondeu Gabriel. — Mas vou estar passando por perto.
Aquilo não era argumento. Era constatação. E, de forma irritante, encerrava a questão sem parecer que a estava encerrando.
O restante do café seguiu sem importância real, mas Sarah já não prestava atenção. Parte dela estava ocupada demais tentando entender por que aquele tipo de gentileza a deixava tão na defensiva.
Não era pena.
Não parecia controle.
Também não era excesso de cuidado.
Era apenas presença.
E talvez isso fosse o suficiente para deixá-la sem saber como reagir.
Na escola, ela fez o possível para se reorganizar.
Concentrou-se nas aulas, respondeu quando necessário, evitou pensar no fim do dia.
Davi apareceu no corredor uma vez, lançou um olhar mais demorado e um meio sorriso que ela fingiu não ver.
A atitude dele continuava estranha, mas Sarah não tinha energia para analisar duas mudanças ao mesmo tempo.
Gabriel já ocupava espaço demais nos pensamentos sem qualquer justificativa razoável.
A manhã inteira tinha sido uma tentativa de se manter firme, de não deixar que pequenas coisas deslizassem para dentro com peso maior do que mereciam.
E, ainda assim, bastava lembrar a forma como ele dizia seu nome para sentir novamente aquela atenção incômoda no peito.
O pior era que não se tratava de interesse.
Sarah ainda não queria nomear nada daquela forma. Era outra coisa.
Era perda de controle.
Era o fato de que ele parecia enxergar mais do que devia, e ela não estava acostumada a ser vista sem escolher quando ou como isso aconteceria.
No fim das aulas, saiu pelo portão já sabendo que ele estaria ali.
O pensamento a irritou imediatamente, porque vinha acompanhado da certeza de que ela tinha passado as últimas horas tentando não pensar nisso e falhado. O carro estava do outro lado da rua, discreto como no dia anterior. Gabriel encostado na porta, esperando, sem impaciência e sem pressa.
Sarah atravessou com passos firmes, determinada a sustentar a mesma postura da manhã.
— Você é insistente — disse, ao se aproximar.
Gabriel abriu a porta para ela com a mesma calma de sempre.
— Só quando acho necessário.
A resposta veio tão natural que Sarah não conseguiu retrucar na mesma velocidade.
Entrou no carro em silêncio, mais irritada consigo mesma do que com ele. Gabriel deu a volta, sentou-se ao volante e ligou o motor.
O trajeto começou quieto, e Sarah se concentrou na janela outra vez. Mas já não era a mesma estratégia de fuga do dia anterior.
Agora era contenção. Um esforço claro para manter tudo no lugar.
Depois de alguns minutos, Gabriel falou sem tirar os olhos da rua.
— Você não precisa ficar armada comigo.
A frase a fez virar o rosto imediatamente.
Ele continuou dirigindo como se não tivesse dito nada extraordinário. Talvez, para ele, não tivesse. Para Sarah, porém, foi como se alguém tivesse tocado diretamente no ponto que ela vinha tentando esconder o dia inteiro.
— Eu não estou armada — respondeu.
Gabriel assentiu levemente.
— Tudo bem.
E deixou o assunto morrer ali.
Aquilo deveria tranquilizá-la.
Em vez disso, só piorou.
Porque, mais uma vez, ele tinha percebido.
E Sarah começava a entender que manter o controle perto dele talvez fosse muito mais difícil do que parecia quando estava sozinha no quarto, prometendo a si mesma que conseguiria.