Capítulo 10 — A Falsa Normalidade

702 Words
Naquela manhã, tudo parecia igual. E, ainda assim… não estava. Sarah acordou antes do despertador. Ficou deitada por alguns segundos, olhando para o teto, como fazia todos os dias. Mas, dessa vez… não estava vazia. Havia pensamento. Havia intenção. Ela se levantou devagar. Caminhou até o espelho. Parou. Se olhou. Não como antes. Não buscando defeito. Não tentando desaparecer. Mas avaliando. Ela inclinou levemente o rosto. Observou os olhos. A postura. A forma como segurava o próprio corpo. Ainda havia algo ali. Algo que dizia: “não me note”. E isso… precisava mudar. Ela respirou fundo. Endireitou a coluna. Levantou o queixo. Pequeno ajuste. Mas não suficiente. Sarah abriu a gaveta. Escolheu uma roupa diferente. Não exagerada. Não chamativa. Mas pensada. Intencional. Colocou. Voltou ao espelho. Melhor. Ainda não era o suficiente. Mas já não era o mesmo. Pegou a necessaire. Passou maquiagem. Leve. Discreto. Mas presente. Quando terminou, ficou alguns segundos se encarando. O desconforto veio. Porque aquilo ainda não era natural. Mas também… não era errado. — Você consegue — murmurou. A frase saiu mais como teste do que como certeza. Ela pegou a mochila. E desceu. Na cozinha, o cenário era o mesmo. A mãe organizando. O pai no celular. A irmã falando. A rotina intacta. Sarah entrou. — Bom dia — disse. A mãe respondeu, sem olhar: — Bom dia. O pai não reagiu. A irmã continuou falando. Nada mudou. Mas Sarah não desviou imediatamente. Ficou ali. Um segundo a mais. Depois outro. Como se estivesse esperando… não uma reação. Mas registrando. Nada. Ela sentou. Pegou o pão. Mas, dessa vez… não se encolheu. Manteve a postura. O olhar neutro. Presente. Era estranho. Desconfortável. Como usar uma roupa que ainda não se ajustou ao corpo. Mas ela continuou. — Eu tenho prova hoje — disse. A frase saiu simples. Direta. Silêncio. O pai continuou no celular. A mãe mexeu no café. A irmã respondeu uma mensagem no telefone. Nenhuma reação. Nenhum interesse. Nenhuma mudança. Sarah segurou o copo com mais força do que o necessário. O velho impulso veio. Recuar. Se calar. Sumir. Mas ela segurou. Não falou de novo. Mas também não se apagou. Terminou de comer. Levantou. — Estou indo. Dessa vez, o pai fez um som qualquer. Quase automático. Mas foi mais do que antes. E, por algum motivo… Sarah percebeu. Pequeno. Ridículo. Mas perceptível. Ela saiu. No caminho para a escola, a mente dela repetia tudo. Cada movimento. Cada tentativa. Cada falha. Parecia pouco. Mas não era. Era início. Na escola, ela entrou com o mesmo cuidado de sempre. Mas não se escondeu. Passou pelo corredor. Olhou à frente. Sem acelerar. Sem desviar. Presente. Algumas pessoas olharam. Outras não. Mas, dessa vez… ela percebeu a diferença. Ela não estava tentando desaparecer. E isso mudava a forma como ocupava o espaço. Davi estava encostado no armário. Olhou para ela quando passou. Por um segundo. Sem comentário. Sem riso. Só observou. E isso foi novo. Muito novo. Sarah seguiu. Na sala, sentou no mesmo lugar. Mas não se encolheu. Manteve a postura. Durante a aula, levantou a mão. O movimento saiu hesitante. Mas saiu. O professor olhou. — Sim, Sarah? O nome dela foi dito. Em voz alta. Direcionado. Ela respondeu. Curto. Simples. Mas respondeu. O coração acelerou. Mas não travou. O professor assentiu. Continuou a aula. Nada grandioso. Mas real. E isso… foi suficiente. No intervalo, ela ficou de pé novamente. Não escondida. Não exposta demais. Presente. Duas meninas passaram. Olharam. Cochicharam. Sarah percebeu. Mas não reagiu. A diferença agora… era interna. Ela não estava mais tentando ser aceita. Estava testando. E testes… levam a erro. No fim das aulas, o cansaço veio. Não físico. Mental. Ser consciente era mais cansativo do que ser invisível. Mas também… mais vivo. Quando chegou em casa, tudo estava igual. — Cheguei. Nenhuma resposta. Mas, dessa vez… não doeu do mesmo jeito. Porque ela já não estava esperando. Subiu para o quarto. Foi até o espelho. Se olhou. Não perfeita. Não confiante. Mas diferente. — Ainda não — disse. Mas não como desistência. Como processo. Ela sentou na cama. Respirou fundo. Porque agora… ela sabia. Mudar não era um momento. Era repetição. E repetição… ela sabia fazer.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD