Faltavam apenas alguns dias para o casamento que Beatriz nunca mais quis. Já se passava quase um mês desde que ela havia terminado com Caio, mas o peso da relação abusiva ainda estava presente.
A mãe dela chamou-a para conversar.
— Beatriz, que bom que você chegou. Preciso conversar com você.
— Pode falar, mãe — respondeu ela, tentando conter a ansiedade.
— Você terminou com Caio? Você está maluca? — a mãe exclamou. — Ele era tão bom, te oferecia um futuro…
Os olhos de Beatriz começaram a encher de água.
— Um homem bom, para senhora? — perguntou, a voz embargada. — O que é um homem bom?
— Você namorou ele por anos, Bia… — a mãe insistiu.
— E até agora eu vejo só controle e dor! — Beatriz respondeu, com lágrimas escorrendo pelo rosto — Ele virou um controlador. Se eu queria comer algo diferente, como um lanche ou um suco, ele não deixava. Só podia comer escondido. Suco sem açúcar, comida limitada… nada do que eu realmente queria.
A mãe suspirou:
— Mas sem açúcar é melhor, Bia…
— Para senhora, mãe — respondeu Beatriz — Não para mim! Eu não estou acima do peso. Pedi 20 quilos a menos… e vou manter meu corpo como ele é! Mas casar com ele? Eu não posso!
— Por favor, Bia… falta tão pouco, só alguns dias… — disse a mãe, tentando convencê-la.
Beatriz, chorando, finalmente disse a verdade que vinha guardando:
— Mãe… o Caio estava me batendo.
— Filha… — a mãe começou, hesitante — Isso acontece às vezes… no momento da raiva, eu já apanhei de namorados meus…
— Sim, mãe, mas eu não vou aceitar! — Bia respondeu, com firmeza — Ele quer me controlar, me machucar…
— Mas, filha… o pai dele vai me dar 200 mil se você casar com Caio — disse a mãe, com frieza, como se o dinheiro valesse mais do que a segurança da filha.
Beatriz engoliu em seco, sentindo o peso da realidade.
— Então é isso, mãe… eu valho 200 mil para ir para a mão de um homem controlador e agressivo? — perguntou, os olhos ardendo de raiva e medo.
— Filha… eu preciso do dinheiro, tá… — murmurou a mãe, resignada.
Beatriz não podia mais ficar ali. Subiu correndo para o quarto, trancou a porta e pegou o celular. Com lágrimas escorrendo, discou para Bruno.
— Bruno… eu posso dormir na sua casa? — perguntou, com a voz trêmula.
— Claro que pode — respondeu ele, firme — Vou te buscar já.
Beatriz encheu a mochila com roupas, tomou um banho rápido e vestiu um short e uma blusinha confortável, prendendo o cabelo de forma prática. Ela saiu do quarto, cuidadosamente. A mãe já não estava na sala; Beatriz foi até o quintal e esperou, o coração acelerado, pela chegada de Bruno.
Enquanto esperava, cada minuto parecia uma eternidade. Mas no fundo, ela sabia que ali, naquele instante, Bruno era o único porto seguro que podia confiar. E ele não a decepcionaria.
Bruno mandou uma mensagem rápida:
— Tô no portão, Bia.
Ela correu para fora, e lá estava ele, esperando pacientemente. Quando o viu, não conseguiu mais conter as lágrimas e correu para os braços dele, abraçando-o com força.
Bruno fechou os olhos, sentindo o peso da dor dela, e acariciou lentamente os cabelos de Beatriz.
— Ei… tô aqui, tá? — murmurou, com a voz firme e ao mesmo tempo suave, transmitindo toda a segurança que ela precisava.
Ela ergueu o rosto, limpou as lágrimas com o dorso da mão e disse, respirando fundo:
— Vem, vamos.
Bruno abriu a porta do carro, e ela se sentou rapidamente. Enquanto dirigia, ainda com os olhos marejados, ele colocou a mão sobre a dela, segurando com delicadeza, mas transmitindo proteção e apoio.
— Tô aqui, tá? — repetiu ele, como se precisasse que ela sentisse a presença dele mais do que qualquer palavra.
Ela apertou levemente a mão dele em resposta, e um silêncio confortável tomou o carro. Não havia necessidade de palavras; cada gesto dizia mais do que qualquer frase. Beatriz sentia-se segura, acolhida, protegida — algo que há muito tempo não sentia.
Bruno observava cada expressão dela, cada tremor, cada suspiro, sentindo seu coração apertar. Ele queria dizer tudo que sentia, queria contar que a amava há anos, mas sabia que precisava ser paciente. Por enquanto, bastava estar ali, protegendo-a, sendo o porto seguro que ela nunca soube que precisava.
E naquele instante, enquanto a estrada se estendia à frente e o sol da tarde iluminava o carro, Beatriz finalmente sentiu que poderia respirar novamente. Estava com Bruno. E, por ora, isso era suficiente.