O Preço de Uma Filha

1090 Words
Beatriz respirou fundo, ainda nervosa, mas sentindo uma segurança que há muito tempo não conhecia. Olhou nos olhos de Bruno e disse, com firmeza: — Tá… eu confio em você. Vamos fazer isso. O sorriso de Bruno iluminou o rosto dele, mas ele manteve a calma, segurando a mão dela com delicadeza. — Perfeito. Não vamos perder tempo. Hoje mesmo vamos ao cartório. Pouco depois, estavam no carro, indo em silêncio para o cartório. Beatriz sentia o coração disparado, misturando medo, alívio e algo novo, quente, que crescia dentro dela — a sensação de estar finalmente segura nos braços de alguém que a amava de verdade. No cartório, enquanto assinavam os papéis, Bruno segurava sua mão firme. Cada assinatura, cada passo dado, representava a liberdade que Beatriz estava conquistando. Não havia luxos, nem festas, nem olhares curiosos. Só eles dois, e a promessa de um futuro seguro, longe de Caio e de todo o controle que ele exercia. — Pronto — disse Bruno, sorrindo para ela — Agora você é minha esposa. Beatriz sorriu, emocionada, sentindo-se mais leve do que em anos. — E eu sou sua — respondeu ela, a voz embargada, mas cheia de coragem. O próximo desafio era enfrentar a família de Caio. Bruno não deixou que ela ficasse ansiosa; a envolveu com o braço e falou baixinho: — Vamos juntos, Bia. Eu estou com você, ninguém vai te machucar. Chegando à casa da mãe dela, Beatriz respirou fundo. Ela sabia que a conversa seria difícil, mas Bruno estava ao seu lado, e isso bastava. Com firmeza, eles entraram e anunciaram: — A partir de hoje, Beatriz é minha esposa. E ela vai morar comigo. A mãe dela arregalou os olhos, surpresa e indignada, mas Beatriz, pela primeira vez, não se sentiu intimidada. Havia alguém ao seu lado que a protegia, que a amava e que não permitiria que ninguém a manipulasse. Bruno apertou levemente a mão dela, e Beatriz sorriu, sentindo uma mistura de alívio, gratidão e algo novo, que ainda não sabia nomear. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia-se verdadeiramente livre. E Bruno, ao olhar para ela, soube que aquele era só o começo — o começo de um amor que ele guardava há anos, silencioso, intenso, e agora, finalmente, poderia florescer. Beatriz e Bruno estavam no quarto, colocando as roupas na mala, quando a porta se abriu de repente. — Bia, eu quero falar com você — disse a mãe, séria. — Pode falar, mãe. — A sós. Beatriz parou o que estava fazendo e respondeu, firme: — Não. O que a senhora tiver que falar, fala na frente do Bruno. Ele é meu marido. Bruno permaneceu em silêncio, dobrando as roupas e colocando na mala, atento a cada palavra. A mãe respirou fundo, indignada: — Você trocou o Caio… um homem rico, que ia te dar um futuro, por ele? Beatriz soltou uma risada curta, sem humor. — Um homem rico que espancava a própria noiva. E a senhora preferiu isso. Preferiu que sua filha casasse com um agressor, desde que tivesse dinheiro. — Não fala assim comigo, Bia! — Como a senhora quer que eu fale, mãe? — a voz dela começou a tremer, mas não recuou — Eu cheguei em casa com o rosto vermelho. Cheguei com o corpo machucado. Com hematomas no peito, nos braços. E a senhora nunca percebeu. Ou fingiu que não percebeu, porque estava ocupada demais com a sua própria vida. — Com certeza você fez alguma coisa pra provocar ele — disse a mãe, fria. Beatriz sentiu o estômago revirar. — Ele falava a mesma coisa — respondeu, com os olhos marejados — Depois de me encher de socos, dizia que eu provoquei. Igual a senhora tá dizendo agora. A mãe tentou se justificar: — Eu só queria que você tivesse um futuro bom… — Um futuro onde eu apanho? — Beatriz interrompeu — Onde eu sou forçada a emagrecer, controlada, humilhada? Onde eu chego na lua de mel pra ser estuprada, mãe? Porque era isso que ia acontecer. O silêncio pesou no quarto. — Depois — continuou Beatriz, com a voz firme e dolorida — ele ia fazer o que sempre fazia: jogar maquiagem cara em cima de mim e dizer “cobre os hematomas pra ninguém ver”. É isso que a senhora queria pra sua filha? — Eu queria que você ficasse com alguém que pudesse te dar tudo… — Eu já estou com alguém bom — Beatriz respondeu, olhando para Bruno — Dinheiro não é tudo na vida. — Ah, Bia… aquele seu trabalho na lanchonete… — a mãe debochou. Bruno finalmente falou, calmo e firme: — Isso acabou. Ela é minha esposa agora. Não precisa mais trabalhar lá. Eu cuido dela. — Quem você pensa que é? — a mãe disparou. Bruno riu, sem humor: — Pra senhora, dinheiro é tudo, né? Dá pra ver pelo jeito que fala comigo… e pelo jeito que tentou vender a própria filha. Beatriz deu um passo à frente. — Basta, mãe. Eu vou embora. Se um dia a senhora quiser me ver, eu passo um endereço. Mas só em local público. Do jeito que a senhora está obcecada por dinheiro, é capaz de me vender até casada. — Filha, como você pode dizer uma coisa dessas? — Porque é verdade — Beatriz respondeu, seca — Quanto é a proposta agora? Os 200 mil viraram quanto? A mãe ficou em silêncio. Beatriz riu, incrédula. — Fala, mãe. Quanto? — Quinhentos… — murmurou. Bruno soltou uma risada amarga: — Você tá vendendo sua filha por quinhentos mil. — Eu preciso desse dinheiro, Bia… por favor… Beatriz sentiu o coração apertar, mas manteve a postura. — Então casa com ele, mãe. Aguenta o que eu aguentei. Assim a senhora ganha o dinheiro que quer. A mãe começou a chorar. — Porque quando ele me espancar até eu não conseguir levantar da cama — continuou Beatriz — a senhora não vai usar esse dinheiro pra me salvar. Vai comprar carro, roupa, luxo… e eu vou continuar presa nas mãos daquele monstro. Ela respirou fundo. — Eu não vou pra mão dele pra senhora ter dinheiro na conta. Se eu tiver que trabalhar dia e noite, eu trabalho. Dinheiro não compra paz. Não compra dignidade. Não compra felicidade. Beatriz fechou a mala. — Eu vou embora agora. E não volto. Bruno segurou a mão dela, firme. E pela primeira vez na vida, Beatriz saiu daquela casa não como filha obediente — mas como uma mulher livre.
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