Passou-se um tempo. Era uma tarde comum, e eles estavam na lanchonete, como sempre gostavam. Beatriz sentou-se entre Caio, seu namorado, e Bruno, seu melhor amigo, esperando os lanches chegarem. O ambiente estava animado, mas para Bruno, cada momento com ela era carregado de pequenas eletricidades silenciosas.
Caio pegou o cardápio mentalmente e falou, sorrindo para Beatriz:
— Amor, eu pedi pra você uma saladinha, tá? Uma saladinha e um milkshake de amendoim com morango. Descansa um pouco, tá?
Bruno bufou por dentro, sentindo aquele familiar desconforto que sempre aparecia quando Caio tomava decisões por ela.
— Tudo bem, amor… — Beatriz respondeu, tentando manter o sorriso — Eu pensei que você tinha pedido um sanduíche pra mim também.
— Ah, a gente vai casar, né? — Caio respondeu com naturalidade — E você precisa perde uns quilinhos, né?
Bruno tentou disfarçar, mas não conseguiu controlar o tom:
— Você pediu milkshake de amendoim com morango pra ela? — falou, tentando soar casual — Você esqueceu que ela é alérgica a amendoim . E que morango ela só comer com chocolate ou leite condensado.
Beatriz sorriu, tentando disfarçar a situação. Por dentro, sentia uma pontada de malícia e diversão: Bruno estava sempre atento a cada detalhe dela, mesmo que ninguém percebesse.
— Nossa, parece até que você é a namorado dela e não eu — brincou Caio. — Esqueci disso, desculpa. Mas você sabe que morango com chocolate ou com leite condensado não pode mais né , bia voce tem que fazer dieta.
— Tá tudo bem, caio — disse Beatriz, tentando manter a calma — Só vê tenta cancelar o milkshake.
Ela se levantou, dizendo que precisava ir ao banheiro, e saiu.
Assim que a porta se fechou, Bruno virou-se para Caio, controlando a irritação:
— Cara, pra que tratar a Beatriz assim? De onde você tirou que ela precisa emagrecer?
— Ih, cara, ta se metendo por quê? — Caio respondeu, surpreso
— Bruno falou eu sou seuamigo… a Bia ta otima de onde tirou isso dela emagrecer?
— Tá vendo aquelas meninas ali? — Bruno disse, apontando discretamente — Olha pra elas. Estão lindas…
Bruno falou Mas sua namorada está perfeita como está. Não é nem magrinha nem gorda, está bem.
Caio suspirou, tentando justificar:
— Ela tem que comer salada, tem que se acostumar. Quando a gente casar, ela não vai poder comer besteira e eu so vou comer besteria fora de casa ela tem que fazer dieta e Eu como o que quiser na rua.
Bruno respirou fundo, sentindo o peso de sua paixão silenciosa crescer. Ele não podia demonstrar nada, não podia falar de seus sentimentos. Mas cada vez que via Caio tentar controlar a vida de Beatriz, uma mistura de raiva e desejo queimava dentro dele. Ele era apenas o amigo, a sombra que observava e protegia, sem que ela suspeitasse do quanto a amava.
E assim, enquanto Beatriz voltava do banheiro sem perceber nada, Bruno se mantinha calmo, sorrindo por fora, mas seu coração gritava por dentro. Mais uma tarde comum, mais uma prova silenciosa de que seu amor por ela estava sempre ali, invisível para todos.
Chegaram os lanches. Para Caio e Bruno, hambúrguer com batata, como sempre pediam. Para Beatriz, a tal saladinha que Caio tinha escolhido, mas o milkshake de amendoim com morango tinha sido trocado por um suco de laranja.
Beatriz pegou um pacotinho de açúcar para colocar no suco, mas Caio segurou sua mão, firme:
— Não, deixa o açúcar, Beatriz. Açúcar engorda.
Ela respirou fundo, tentando controlar a raiva:
— Caio, não dá pra beber isso assim, tá r**m.
Bruno já estava tomado por um ódio silencioso, tentando manter a calma para não explodir ali mesmo.
— Você vai ter que beber, eu não gastei dinheiro à toa — insistiu Caio.
— Eu tenho dinheiro aqui — disse Beatriz, desviando o olhar — Posso transferir pra sua conta, mas não vou beber isso sem açúcar.
Ela tentou comer a salada, mas o gosto estava estranho. Fechou os olhos por um instante, respirou fundo e perguntou, sem conseguir disfarçar:
— Essa salada é de quê?
— É rúcula, repolho, lentilha e berinjela — respondeu Caio, irritado — Eu escolhi pra você. Tá desperdiçando comida? Olha o papelão que você tá fazendo comigo na frente do meu amigo.
Bruno não aguentou mais:
— Basta, Caio! É você que está fazendo papelão com a garota! Olha o lanche que a gente está comendo, olha o que você comprou pra ela!
A garçonete chegou, e Bruno rapidamente pediu:
— Prepara um hambúrguer e uma porção de batata, com Coca-Cola, por favor.
Caio olhou desconfiado para Beatriz:
— Você não vai comer.
Bruno encarou o amigo com firmeza:
— Ela vai comer sim, ela está com fome. Pode comer, Bia, fica tranquila.
Beatriz assentiu, em silêncio, tentando não se mostrar abalada. Caio continuou comendo seu hambúrguer, bufando de irritação, enquanto ela comia devagar, tentando recuperar algum prazer naquela refeição que havia se tornado um teste de paciência.
— Tá vendo só? — reclamou Caio, olhando para ela — Por que você não pode comer esses lanches? Você come desesperada.
— Eu tô com fome! — respondeu Beatriz, com um fio de voz — Você me faz comer salada direto… Quando vou na sua casa, a sua família come comidas gostosas, saborosas, e eu só posso comer salada. Você conseguiu convencer minha mãe também.