Marcas Invisíveis, Dor Silenciosa

843 Words
Passaram-se algumas semanas desde a última discussão. Beatriz já havia perdido 15 quilos, seguindo todas as regras e exigências de Caio. — Viu, amor? — Caio disse, olhando-a de cima a baixo — Você está linda… mas vai ficar ainda mais depois que perder mais 15 quilos. — Eu estou bem assim, Caio — respondeu Beatriz, tentando manter a calma. — Não, você está… eu quero você perfeita — insistiu ele, com o tom frio e autoritário que a deixava gelada por dentro. Ela desviou o olhar e murmurou quase para si mesma: — Cadê aquele menino que eu me apaixonei na escola? Cadê ele? — Estou aqui, só mudei — respondeu Caio, como se fosse natural, sem perceber que seu controle já tinha destruído parte da pessoa que ela era. — Mudou… pra pior — sussurrou ela, com a voz trêmula. A raiva dele se manifestou de forma c***l. Ele mirou alguns socos, socos no ar, para “se acalmar”. Beatriz se recolheu num canto, tentando desaparecer, tentando não provocar mais sua fúria. — Você provocou — disse ele, apontando para ela, frio e impiedoso. Ela não respondeu. Ficou ali, em silêncio, absorvendo cada palavra, cada gesto, cada ameaça. No dia seguinte, Beatriz foi trabalhar na lanchonete onde sempre passava as tardes. Bruno estava lá, como de costume, mas algo estava diferente. Quando a viu, percebeu imediatamente: o rosto dela estava levemente inchado, e havia marcas vermelhas nos braços, sutis, mas inconfundíveis. — O que é isso? — perguntou, a voz baixa, tensa, carregada de preocupação. — Nada demais — respondeu Beatriz, desviando o olhar — Só caí da escada… Mas Bruno sabia. Sabia que não era verdade. Sabia que aquelas marcas eram de Caio. O aperto no peito dele aumentou, e uma mistura de raiva e impotência tomou conta. Ele queria gritar, confrontar Caio, arrancar aquelas mãos de Beatriz… mas não podia. Pelo menos, ainda não podia revelar seu amor. Ele se aproximou dela com cautela, oferecendo apoio silencioso: — Você quer que eu te ajude a sentar? Ficar um pouco? Ela assentiu, aliviada por ter alguém ali que não a julgava, alguém que apenas a protegia. E Bruno, observando cada detalhe, cada expressão, sentiu mais do que nunca que proteger Beatriz se tornara uma missão pessoal, ainda que ninguém soubesse da profundidade do amor que ele guardava em silêncio. Enquanto ela se recompunha, Bruno prometeu a si mesmo: ele não deixaria que Caio destruísse Beatriz, custasse o que custasse. A raiva queimava, mas a cautela também — porque ele sabia que precisava agir com cuidado, mantendo seu segredo e, ao mesmo tempo, garantindo a segurança dela. Depois do episódio na lanchonete, Beatriz começou a evitar sair sozinha com Caio. Cada encontro público se tornava uma prova de paciência, cada comentário sobre comida, peso ou aparência, um lembrete do controle sufocante que ele exercia sobre sua vida. Bruno notava cada mudança nela: a hesitação em sorrir, o olhar que às vezes se perdia, a tensão nos ombros. Cada pequeno gesto dizia mais do que ela queria mostrar. E cada vez que ele a via assim, o coração dele se apertava, entre raiva e desejo de protegê-la. Naquele dia, ele encontrou Beatriz no trabalho, a lanchonete onde ela passava longas horas servindo clientes. Quando entrou, a viu atrás do balcão, os olhos ligeiramente vermelhos, as mãos trêmulas enquanto organizava copos e pratos. — Bia — disse ele baixinho, aproximando-se — Está tudo bem? Ela forçou um sorriso, tentando parecer normal: — Sim, só um dia longo… nada demais. Ele olhou para ela e viu novamente as marcas sutis nos braços, o cansaço nos ombros, o leve inchaço nos olhos. A raiva contra Caio subiu como fogo. Bruno respirou fundo, tentando não demonstrar toda a intensidade do que sentia: ele precisava manter a calma, precisava ser o apoio que ela nunca havia pedido explicitamente, mas que ele sabia que ela precisava. — Você quer que eu fique um pouco aqui com você? — perguntou, com a voz firme, mas suave. Ela hesitou por um momento e assentiu, aliviada por ter alguém ali que não a cobrava, que não a julgava, que apenas oferecia presença e proteção. Enquanto o movimento da lanchonete continuava, Bruno se colocou ao lado dela, discretamente. Conversaram sobre coisas simples: pedidos de clientes, pequenas novidades da cidade, nada que tocasse o mundo sufocante de Caio. Mas cada risada dela, cada gesto descontraído, fazia seu coração disparar. Ele queria segurá-la nos braços, confortá-la de verdade, mas sabia que ainda não podia. Mesmo assim, a presença dele era um refúgio silencioso. Ele podia protegê-la, oferecer apoio, enxugar suas lágrimas invisíveis, mesmo sem palavras. Cada momento juntos aumentava a conexão entre eles — e, embora Beatriz ainda não soubesse, cada gesto dele carregava mais do que amizade: carregava um amor profundo, silencioso, paciente e incondicional. Naquele instante, Bruno prometeu a si mesmo que nunca a deixaria sofrer sozinha. Que, custasse o que custasse, ele seria seu refúgio, mesmo que ela não soubesse que seu coração já pertencia a ela há anos.
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