A mãe de Beatriz andava de um lado para o outro na sala apertada, o celular tremendo na mão. Discou o número já decorado. Chamou duas vezes.
— Fala — a voz de Caio veio seca, impaciente.
— Caio… sou eu — ela respirou fundo — Encontrei a Beatriz.
Do outro lado da linha, silêncio. Depois, um tom perigoso: — E aí?
— Não deu certo — ela disparou rápido, antes de perder a coragem — Ela não caiu no papo de mãe arrependida. Nada.
— Como assim, não deu certo? — a voz dele ficou mais grave.
— Ela tava fria. Calculista. Disse que eu vendi ela. Jogou tudo na minha cara.
A mãe passou a mão no rosto, nervosa.
— E não quis me dar o endereço.
— Endereço de onde? — Caio perguntou, já irritado.
— De onde ela tá morando… com o Bruno.
Houve um barulho seco do outro lado da ligação, como algo sendo jogado contra a parede.
— Aquela desgraçada… — Caio rosnou.
— Caio, eu tentei — ela se apressou — Eu chorei, pedi perdão, disse que era mãe… Ela não acreditou em nada.
— E o Bruno? — ele perguntou. — Ele estava lá?
— Não. Mas tinha alguma coisa errada. Ela escolheu lugar público, cheio de gente. E eu senti que tinha alguém observando. Como se ela tivesse proteção.
O silêncio voltou. Mais pesado.
— Ela não é burra — Caio disse por fim, com ódio contido. — Ela aprendeu.
— Eu perguntei onde ela mora, ela disse que não ia dar o endereço porque sabia que eu ainda queria o dinheiro.
A mãe engoliu seco.
— Disse que eu vendi ela por duzentos mil… e que agora eu queria quinhentos.
— E você queria — Caio respondeu frio.
— Caio, não é hora pra isso! — ela se exaltou — A gente precisa agir rápido. Ela tá mais esperta do que antes.
Do outro lado, Caio respirava pesado. Quando voltou a falar, a voz estava carregada de fúria.
— Ela acha que casar com aquele i****a vai proteger ela de mim.
— Caio…
— Ela acha que fugir resolve. — Ele riu, sem humor. — Ninguém foge de mim.
— Mas sem o endereço fica difícil…
— Difícil não é impossível. — Ele interrompeu. — Todo mundo deixa rastro. Cartório, banco, hospital, trabalho. Ela pode esconder a casa, mas não a vida.
A mãe sentiu um arrepio. — Você vai machucar ela?
— Eu vou pegar o que é meu — Caio respondeu. — Do jeito que tiver que ser.
— Caio, eu só quero meu dinheiro…
— Então faça o que eu mandei — ele cortou. — Se aproxime de novo. Seja paciente. Faça ela baixar a guarda.
— Mas ela deixou claro que não confia mais em mim!
— Toda fraqueza tem brecha. — A voz dele ficou baixa, perigosa. — E mãe é sempre uma delas.
A ligação caiu.
A mãe ficou olhando para o celular, o coração disparado.
Do outro lado da cidade, Caio caminhava de um lado para o outro, os punhos fechados, os olhos tomados de ódio.
— Casou com ele… — murmurou. — Achou que ia se salvar.
Ele pegou o telefone novamente e discou outro número.
— Quero tudo sobre Bruno. Tudo. — disse. — Onde pisa, com quem fala, quanto tem.
Fez uma pausa.
— E prepara os homens.
Porque aquela história…
estava longe de acabar.
Beatriz estava sentada na cama da suíte, o celular apoiado no colo. O silêncio da mansão era quase reconfortante. Pela primeira vez em muito tempo, ela respirava sem sentir medo imediato.
O celular vibrou.
Ela olhou sem pressa, achando que podia ser Bruno.
Não era.
Um número desconhecido.
O coração dela afundou antes mesmo de abrir.
A mensagem apareceu na tela:
> “Você acha que casar com esse i****a te torna livre de mim?”
“Você acha que vai conseguir ficar escondida quanto tempo sem eu te achar?”
“Você é minha, Beatriz. Minha.”
“E eu não desisto do que é meu.”
O ar sumiu dos pulmões dela.
As mãos começaram a tremer, o celular quase escorregou dos dedos. O corpo reagiu antes da mente — o mesmo frio na espinha, o mesmo nó no estômago, o mesmo medo antigo que ela conhecia tão bem.
— Não… — ela sussurrou, sentindo os olhos arderem.
Ela leu de novo.
E de novo.
Cada palavra parecia uma mão fechando no pescoço dela.
O passado batendo à porta.
O controle.
A posse.
A certeza c***l.
Ela abraçou o próprio corpo, tentando se ancorar no presente, tentando lembrar: eu estou casada, eu estou protegida, eu não estou sozinha.
Mas o medo não obedecia à lógica.
A porta do quarto abriu devagar.
— Bia? — Bruno chamou, sentindo algo errado só pelo jeito que ela estava sentada.
Ela levantou os olhos para ele. Estavam marejados, assustados.
— Ele me achou… — a voz dela saiu fraca.
Bruno se aproximou num segundo.
— Quem?
Ela estendeu o celular com a mão trêmula.
Bruno leu a mensagem.
O maxilar dele travou.
Os olhos escureceram.
Ele não levantou a voz. Isso era o mais assustador.
— Ele cruzou uma linha — disse baixo.
Bruno se ajoelhou na frente dela, segurou o rosto dela com cuidado, obrigando-a a olhar para ele.
— Escuta bem o que eu vou te dizer agora — falou firme. — Ele pode mandar mensagem. Pode latir. Pode ameaçar.
Mas ele não vai chegar até você.
— Ele sempre chega… — ela sussurrou, com medo genuíno.
Bruno encostou a testa na dela.
— Não comigo. — A voz dele era promessa, não consolo. — Você é minha esposa. E ninguém toca no que é meu.
Ele pegou o celular da mão dela.
— A partir de agora, isso muda tudo.
Beatriz engoliu seco.
Porque, no fundo, ela sabia:
Caio não estava brincando.
E Bruno também não.
Caio estava calmo demais.
Sentado, terno impecável, dedos batendo de leve na mesa.
Ele não precisava descobrir nada sobre Beatriz.
Ele já sabia tudo.
Cinco anos não se apagam com um casamento.
A mãe dela falava sem parar do outro lado da linha.
— Ela não me deu o endereço, Caio. Disse que não confia mais em mim.
— Eu sei — ele respondeu, frio. — Ela sempre foi assim quando acha que está no controle.
Ele desligou sem se despedir.
O problema não era onde Beatriz estava.
O problema era com quem.
Bruno.
O melhor amigo.
O traidor.
Caio abriu o cofre do escritório. Tirou uma pasta.
Dentro: contratos, contatos, favores antigos.
— Casamento não quebra posse — murmurou. — Só muda a estratégia.
Ele pegou o celular e digitou uma única mensagem.
Não para Beatriz.
Para Bruno.
> “Parabéns pelo casamento.
Você sempre quis o que era meu.
Agora vai aprender o preço.”
Enviou.
Não ameaçou.
Não xingou.
Caio sabia que o silêncio depois do aviso era o que causava medo.
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Na mansão, Bruno leu a mensagem sem mudar o rosto.
Só fechou os olhos por um segundo.
— Ele já sabe — disse, tranquilo demais.
Beatriz sentiu o coração acelerar.
— O quê?
— Que não é você que ele quer atingir primeiro.
Ele guardou o celular.
— Ele vai vir por mim.
Ela engoliu em seco.
— Bruno…
— Amor, olha pra mim — ele segurou o rosto dela. — Esse homem passou cinco anos te quebrando. Agora ele quer provar que ainda manda.
Ele respirou fundo.
— E é exatamente por isso que eu não vou mais ser só discreto.
Beatriz sentiu.
Não era medo.
Era a certeza de que algo grande estava prestes a acontecer.