Exposta

1277 Words
Jenna Reed Eu ainda estou no meio do salão quando vejo a minha mãe entrando na cafeteria, e a expressão no rosto dela não é nada boa. Por alguns segundos, fico imóvel, segurando a bandeja que acabei de recolher de uma das mesas, enquanto tento entender o que ela está fazendo aqui. Minha mãe... neste lugar? Olho para a porta, como se ainda houvesse alguma possibilidade de estar enganada, mas não. É ela mesma, caminhando na minha direção com os lábios apertados e os olhos carregados de uma raiva que conheço muito bem. De todo o tempo em que trabalho na WatchHouse, minha mãe nunca colocou os pés aqui. Nunca veio me visitar, nunca apareceu para saber como estou, como era o meu trabalho e muito menos demonstrou interesse em saber como é o local que passo o dia todo. Esta é a primeira vez. E, pelo jeito como ela me encara, tenho certeza de que não veio tomar um café. Ela veio atrás de mim e não parece disposta a fazer isso discretamente. Meu coração começa a bater mais rápido. Coloco a bandeja sobre o balcão de recolhimento e respiro fundo, tentando reunir coragem antes que ela decida atravessar o salão inteiro gritando meu nome, porque eu não duvido que faça. Não quero uma cena. Não quero que meus colegas precisem se envolver em um problema que não lhes pertence. E, principalmente, não quero que os clientes, que vieram aqui para tomar café, comer alguma coisa e começar o dia em paz, tenham que assistir à minha família transformar meu local de trabalho em um espetáculo. Por isso, mesmo com as pernas parecendo mais fracas do que deveriam, caminho até ela. — O que faz aqui, mãe? Ela solta uma risada curta, sem qualquer humor, e me olha de cima a baixo. — Está nervosa? Imagina eu quando cheguei em casa ontem e vi seu quarto vazio e uma porcaria de bilhete em cima da cama! — A voz dela sobe tanto que sinto meu estômago se contrair. — Você ficou maluca de sair de casa daquele jeito? É fugitiva por acaso? Fecho os olhos por um breve instante. Ótimo. Simplesmente ótimo. Era exatamente isso que eu queria evitar. Olho discretamente para as mesas ao redor e percebo que algumas pessoas já começaram a prestar atenção na conversa. Um homem sentado perto da janela interrompe o movimento da xícara a caminho da boca. Duas mulheres próximas ao balcão trocam olhares antes de voltarem a atenção para nós e é... constrangedor. Quero desaparecer. Quero que o chão se abra e me engula, porque não há nada mais humilhante do que ter a própria vida exposta diante de desconhecidos. E eu não estou fazendo nada de errado. Estou trabalhando. Por que não consigo ter um único dia de paz? — Aqui não é lugar para isso, mãe. — Digo, tentando manter a voz baixa. — Este é o meu local de trabalho e... — Eu não ligo! — Ela me interrompe, apontando um dedo na minha direção. — Eu quero você de volta ainda hoje. Eu e seu pai não aceitamos que você saia de casa e deixe as coisas como estão. Deixe de ser ingrata! Engulo em seco. Ela continua falando, cada palavra mais alta do que a anterior. — Depois de comer tudo e de ser um encosto naquela casa, você vai deixar a gente com as dívidas? E ainda sequer atendeu às minhas ligações! Onde você dormiu? A pergunta me atinge de uma maneira estranha. Não porque eu deva uma explicação a ela, mas porque, mesmo agora, mesmo depois de tudo, minha mãe continua preocupada com aquilo que pode perder. Nem por um segundo ela pergunta se estou bem. Ela não quer saber se encontrei um lugar seguro para morar, se estou conseguindo me alimentar ou se tive algum problema durante a noite. Ela só quer saber onde estou, por que saí e como pretende me obrigar a voltar. É impressionante como, por tanto tempo, fui incapaz de enxergar certas coisas com clareza. Ou talvez eu sempre tenha enxergado, mas estivesse fraca demais tentando acreditar que, um dia, ela poderia me tratar como trata Patrícia. — Mãe, por favor, fale mais baixo. — Peço, sentindo o rosto esquentar. — Nós podemos conversar depois, mas não aqui. — Conversar? — Ela dá um passo na minha direção. — Você não tem nada para conversar comigo! Você vai voltar para casa e ponto final. — Eu não vou... Nem consigo terminar. Minha mãe agarra meu braço com força, os dedos se fechando ao redor dele, e meu corpo inteiro fica rígido. — Você não vai sair daquela casa até eu dizer que pode sair. — Rosna, aproximando o rosto do meu. — E, só por causa dessa sua loucura, você vai pagar caro. Lembre-se disso. Vai pagar caro! Tento puxar meu braço, mas ela aperta ainda mais. A dor começa a se espalhar pelo local onde os dedos dela estão cravados na minha pele. — Assim que sair daqui hoje, pegue suas tralhas e volte para casa. — Ordena. — Não pense que pode fazer o que quiser e sair impune. Você nos deve mais do que imagina. Fico olhando para ela, completamente chocada. Não sei se é pela força com que me segura, pela ameaça ou pela naturalidade com que age como se ainda tivesse o direito de decidir cada detalhe da minha vida. Talvez seja tudo isso junto. Por um instante, volto a me sentir como a garota que costumava ficar quieta diante das ordens dela, engolindo as lágrimas e aceitando qualquer coisa para evitar uma discussão. A garota que acreditava que, se fosse obediente o suficiente, talvez finalmente recebesse um pouco de carinho. Mas eu não quero mais ser aquela garota. Não quero mais viver com medo de contrariar minha mãe e não quero voltar para aquela casa. Eu esperei demais para poder, finalmente, responder por mim mesma. Aguentei muita coisa calada, vendo minhas coisas sumirem, sendo sugada e humilhada dia após dia. Chega! Eu não aguento mais. Faço mais força, tentando me desvencilhar, mas ela pressiona meus dedos contra o meu braço com ainda mais violência. A dor me faz prender a respiração. — Me solta! Minha voz sai mais alta do que pretendo. Algumas pessoas já estão olhando abertamente para nós. O homem perto da janela deixou a xícara sobre o pires. Uma das mulheres se inclina discretamente para enxergar melhor, e sinto o peso de todos aqueles olhares sobre mim. A vergonha é tão intensa que quase me faz ceder. Quase. Porque, no segundo seguinte, puxo meu braço com toda a força que consigo reunir e finalmente me solto. Dou um passo para trás e levo a mão ao local dolorido que agora lateja. Minha mãe me encara como se não acreditasse que tive coragem de me afastar dela. E talvez seja justamente isso que me dá um pouco mais de força. — Eu não vou voltar. — Digo, tentando controlar o tremor da minha voz. — E é melhor você sair daqui. Eu tenho que trabalhar. Não espero pela resposta. Dou meia-volta, querendo apenas sair dessa situação antes que ela piore. Tudo o que desejo é voltar para trás do balcão, colocar meu avental no lugar e fingir que nada disso aconteceu. Afinal, eu preciso do meu emprego e preciso do meu salário. Preciso das gorjetas que me ajudam a pagar minhas despesas e a manter o pequeno apartamento que, pela primeira vez na vida, posso chamar de meu. Não posso perder tudo isso por causa de uma discussão com a minha mãe. Ela não vai tirar isso de mim!
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