Hora de ir

1627 Words
Jenna Reed Com a saída do homem, alguns próximos a ele começam a rir enquanto olham para mim, mas saem com pressa. Iza se aproxima de mim e ouço ela bufar aqui. — Que babacä! Solto um suspiro. — Deixa para lá. — Você é boazinha demais, sabia? Não pode ser assim sempre. Dou uma risadinha sem humor. — Talvez eu só esteja cansada demais para discutir. Ela me olha com uma expressão compreensiva e não insiste. Então, saímos juntas. Antes de irmos para casa, decidimos parar em uma lanchonete e comer alguma coisa simples. Não quero chegar lá com fome e ainda precisar organizar todas as minhas coisas. Além disso, precisamos esperar um pouco. Não posso correr o risco de chegar em casa enquanto minha família ainda está se preparando para o jantar. Fora que, se eu chegar lá com a Iza, é capaz de eu ouvir questionamentos sobre levar alguém sem avisar e passar uma enorme vergonha. Eu peço um sanduíche e uma bebida. Enquanto como, observo o relógio várias vezes. Estou ansiosa. Muito ansiosa e Iza percebe. — Ei, vai dar tudo certo. Olho para ela. — Você acha? — Tenho certeza de que vai dar trabalho. Mas isso não significa que não vai dar certo. Solto uma risada. — Você é péssima em tranquilizar alguém. — Estou sendo realista! Acabamos rindo juntas. E, por alguns minutos, consigo esquecer o que me espera. Conversamos sobre coisas bobas, sobre a faculdade e sobre o que pretendo comprar primeiro para a kitnet. Um conjunto de tapetes bonitos. Lençóis para a cama. Ou uma cortina bonita para o quarto. Iza diz que posso procurar uns quadros baratinhos, me fala de brechós e eu concordo. Não preciso de luxo. Só quero um lugar onde possa viver em paz. E assim, eu monto uma listinha pelo celular para não esquecer de nada. Nós não paramos de conversar e Iza mostra bem que ela tem todo o tempo hoje para me ajudar. Ela não pede pressa, não diz que tem compromisso e eu nunca vou saber como agradecer isso. { . . .} Quando chegamos em casa, a rua está relativamente tranquila e observo a fachada antes de descer do carro. As luzes estão apagadas em quase todas as janelas, e isso me dá esperança. Retiro a chave reserva do pequeno jarro onde minha mãe costuma deixá-la e abro a porta. Iza entra logo atrás de mim e o silêncio é absoluto. Nenhuma televisão ligada. Nenhuma voz vindo da cozinha. Nenhum barulho de passos no andar de cima. Nada! Eles não estão aqui e valeu a pena esperar. Fecho a porta cuidadosamente e respiro aliviada. — Vamos subir. — Sussurro. Iza olha para o corredor. — O que pretende levar? Começo a caminhar. — Coisas básicas. Não tenho muito. E essa é a verdade. Não tenho muito, nunca tive. Minha irmã possui armários cheios de roupas, sapatos que mäl usa, bolsas caras e objetos que compra apenas porque estão na moda. Eu tenho algumas roupas, meus livros, alguns calçados e pequenos objetos que comprei ao longo dos anos. Tudo que consegui conquistar com meu próprio dinheiro. Tudo que, de alguma forma, tentei preservar. Subimos as escadas e quando chego à porta do meu quarto, sinto um aperto no peit0. Empurro a porta e paro imediatamente. Está tudo revirado. As gavetas estão abertas, algumas roupas foram retiradas do lugar e jogadas sobre a cama. Há objetos espalhados pelo chão, e meu colchão está torto, como se alguém tivesse levantado parte dele para procurar alguma coisa. Fico imóvel. Não preciso perguntar o que aconteceu. Alguém mexeu nas minhas coisas novamente e sinto uma raiva tão intensa que minhas mãos começam a tremer. Estavam procurando dinheiro, tenho certeza disso. Provavelmente minha mãe desconfiou que eu ainda escondia alguma coisa depois de encontrar a caixa vermelha vazia. Ou talvez tenha decidido que precisava conferir se havia mais algum valor guardado. Não importa. O que importa é que invadiram meu quarto enquanto eu estava fora. Meu espaço, mexeram nas minhas coisas e invadiram a minha privacidade. Tudo parece não significar nada nessa casa e Iza entra atrás de mim. — Meu Deus, Jenna... Não respondo. Não sei o que dizer e sinto vergonha. Uma vergonha profunda, dolorosa, por ela estar vendo tudo aquilo. Por precisar trazer minha amiga até minha casa e mostrar o quanto minha vida é desorganizada por causa de pessoas que deveriam me proteger. Ela se aproxima. — Por onde quer começar? Engulo em seco. — Desculpa por isso. — Minha voz falha. — P-pega os livros ali, por favor. Iza olha para mim. Depois para a pilha de livros espalhada perto da escrivaninha. — Não precisa pedir desculpas, amiga. Ela começa a recolhê-los e eu faço o mesmo. Não posso perder tempo. Pego minhas roupas, depois separo rapidamente. As blusas estão misturadas com as calças, e algumas peças que estavam dobradas foram amassadas. Recolho tudo. Não quero deixar nada que seja meu. Cada roupa representa dinheiro que trabalhei para ganhar. Cada peça foi comprada com esforço e algumas são antigas, outras já não estão em tão bom estado, mas são minhas. E quero levá-las comigo. Abro o armário e retiro os cabides. Enquanto organizo as roupas, olho involuntariamente para o outro lado do corredor, imaginando o quarto de Patrícia. Provavelmente está impecável. Provavelmente ninguém mexeu em nada dela. Ela deve ter passado a tarde escolhendo o vestido que vai usar no jantar, experimentando maquiagens e recebendo elogios da nossa mãe. Enquanto eu estou aqui, recolhendo minha vida em duas malas. Sinto um nó na garganta. Tenho tão pouco em comparação a ela. Tão pouco. E, ainda assim, passei anos ouvindo que sou egoísta quando tento guardar alguma coisa para mim. Recolho meus poucos calçados e os acomodo no fundo de uma das malas. Depois pego os livros da faculdade, meus cadernos, os documentos e alguns objetos pessoais. Encontro uma pequena moldura que comprei há alguns meses e a seguro por um instante. É simples. Uma imagem bonita de uma paisagem que sempre quis conhecer. Comprei porque gostei. Porque queria alguma coisa que fosse apenas minha. Coloco-a cuidadosamente dentro da mala e também recolho os pequenos objetos de decoração que comprei ao longo do tempo, os produtos de higiene e os itens que uso diariamente. Tudo que consigo carregar. Tudo que posso levar sem chamar atenção. Em alguns momentos, preciso parar para respirar. Não porque esteja fisicamente cansada, mas porque cada objeto me faz lembrar de alguma coisa. Da menina que fui. Da adolescente que tentava agradar aos pais e da jovem que acreditava que, se trabalhasse o suficiente, um dia seria tratada como Patrícia. Da mulher que finalmente entendeu que não precisa continuar implorando por um lugar naquela casa. Iza me ajuda sem reclamar. Ela dobra as roupas, organiza os livros e separa os objetos menores em sacolas. Trabalhamos rapidamente. A cada minuto que passa, fico mais nervosa com a possibilidade de alguém voltar. Quando terminamos, duas malas grandes estão cheias, acompanhadas de algumas bolsas. É tudo que tenho. Duas malas. Algumas sacolas. Minha vida inteira resumida em coisas que consigo carregar. Olho para o quarto, a cama está desarrumada e a escrivaninha está quase vazia. O armário, que antes guardava tudo que eu possuía, agora parece enorme. Sinto uma tristeza estranha. Não pela casa e não pelas pessoas que deixo para trás. Mas pelos anos que passei aqui. Pelo tempo que perdi tentando conquistar o amor de quem nunca fez questão de me oferecer carinho. Pelas noites em que chorei sozinha. Pelas vezes em que me calei para evitar discussões. Pelos aniversários em que me senti uma intrusa. Pelas refeições em que fui tratada como se não merecesse estar à mesa. Eu poderia ter ido embora antes. Talvez pudesse ter sido mais corajosa, mas não adianta pensar nisso agora. Fiz o que consegui com as condições que tinha e hoje estou saindo. Isso é o que importa. Eu pego uma folha de papel e uma caneta sobre a escrivaninha. Minha mão treme um pouco enquanto escrevo... “Fui embora de vez. Não me procurem mais!” Não explica meus motivos, não pede compreensão e não tenta justificar minha decisão. Não preciso. Eles sabem o que fizeram. Ou, pelo menos, tiveram inúmeras oportunidades de perceber. Dobro o papel uma vez e o deixo sobre a cama, bem no centro. Talvez minha mãe o encontre primeiro, não sei. E, pela primeira vez, não quero saber. Olho ao redor mais uma vez. Quero esquecer que perdi tantos anos da minha vida naquela cama, esperando que alguém entrasse no quarto apenas para me abraçar. Quero esquecer as vezes em que me deitei chorando e acordei no dia seguinte fingindo que estava tudo bem. Quero deixar para trás a garota que acreditava que precisava aceitar qualquer coisa para continuar sendo considerada parte daquela família. Essa garota não vai mais viver aqui. — Está pronta? Olho para ela. Meu coração bate tão forte que parece que vou desmaiar. Não sei se conseguirei organizar todas as contas, se vou precisar fazer horas extras ou se terei dinheiro suficiente para comprar tudo que falta. Mas sei que não quero continuar vivendo assim e isso precisa ser suficiente. — Estou. Iza segura uma das malas. — Então vamos. Saio do quarto, fecho a porta e começo a descer as escadas. A cada degrau, sinto como se estivesse me afastando um pouco mais da vida que me aprisionou durante tantos anos. Quando chegamos à entrada, Iza me ajuda a acomodar as malas para sairmos. Olho para a porta. Minha mão aperta a alça da bolsa e, antes de atravessá-la, respiro fundo. A partir de agora, minha vida é minha e ninguém mais vai decidir o que posso fazer com ela.
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