Ele me ajudou a levantar do chão. O advogado dele também saiu rapidamente do carro.
— Querida, você está bem? — perguntou Wallace, preocupado.
— Sim, estou bem. Não se preocupe. — respondi, tentando parecer calma.
Foi então que avistei Fábio Sartório se aproximando pela rua.
Meu coração disparou.
— Será que vocês poderiam me dar uma carona?
— Claro. — respondeu Thiago sem hesitar.
— Obrigada!
Entramos no carro. Eu me sentei no banco do passageiro, enquanto Wallace ficou atrás. Thiago assumiu o volante e voltou a dirigir.
Durante alguns minutos, o silêncio dominou o carro.
— Então... onde você mora? — perguntou Thiago.
— Ah... mais para frente.
Wallace arqueou uma sobrancelha.
— A senhorita não sabe o endereço?
— É que... eu acabei de me mudar e ainda não decorei.
Thiago pareceu desconfiado.
— Você veio de onde?
— Minas Gerais.
— E veio sozinha?
— Sim.
— E vai ficar onde?
— Numa praça.
Thiago freou levemente e me encarou.
— Você está falando sério?
— Estou.
— Vai dormir numa praça?
— É só por um tempo.
Os dois trocaram um olhar preocupado.
Poucos minutos depois, Thiago encostou o carro.
— Chegamos.
Abri a porta e sorri.
— Obrigada. Vocês salvaram a minha vida.
— Espera. — disse Thiago. — Você ainda não me disse seu nome.
Sorri de lado.
— Não é necessário. Tenho certeza de que nunca mais vamos nos ver.
Antes que ele pudesse responder, dei um beijo rápido em sua bochecha.
— Tchauzinho.
Saí correndo pela calçada.
Pelo retrovisor, Thiago continuou me observando até eu desaparecer.
— Essa garota não é da sua classe social, senhor. — comentou Wallace.
Thiago voltou a ligar o carro.
— Eu apenas dei uma carona.
— Eu vi o jeito que o senhor olhou para ela.
Thiago permaneceu em silêncio.
— Nunca vi o senhor olhar para alguém daquela forma.
— Está imaginando coisas.
— Estou mesmo?
Thiago suspirou.
— A garota é bonita. Eu não posso achar alguém bonita?
— Pode. Mas o senhor nunca se interessou por garotas como ela.
— Como ela?
— Simples. Humilde.
— E daí?
— E daí que eu conheço o senhor desde criança.
Thiago apertou o volante.
— Não importa. Foi como ela mesma disse. Nunca mais vamos nos ver.
Mas, por algum motivo, aquela resposta não o convenceu nem um pouco.
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Enquanto isso, no acampamento, Pedro e Bruno retornavam acompanhados de Luca.
Assim que o viu, Anélly correu até ele.
— Luca!
Ela o abraçou aliviada.
— Onde você estava, moleque? — perguntou Téo.
— Na cidade.
Pedro parecia nervoso.
— A Nati ficou para trás. Ela disse que um homem a reconheceu.
— O quê?! — Téo empalideceu.
— Meu Deus! E onde ela está? — perguntou Anélly.
— Eu não sei.
Diego e Nelson se aproximaram rapidamente.
— O que aconteceu? — perguntou Diego.
— Natali ficou na cidade. Alguém a viu com o Luca.
— Isso é péssimo. — murmurou Nelson.
Nesse instante, ouviu-se o som de passos.
Natali surgiu entre as árvores.
— Filhota!
Téo e Anélly correram até ela e a abraçaram.
— Você está bem? — perguntou Téo.
— Estou. Consegui despistar aquele homem.
— Meu Deus! — disse Anélly. — E se ele contar para a polícia que você existe?
— Natali, você não sai mais deste acampamento. — decretou Téo.
— Pai, não precisa exagerar.
— Precisa sim! Você corre perigo.
— Foi apenas um cara que me viu. Qual a chance de eu encontrar aquele homem novamente?
Téo ficou sério.
— Não podemos confiar no destino, Natali. O destino é imprevisível.
Cruzei os braços.
— Eu preciso voltar ao colégio para buscar o pen drive.
— Não vai.
Sem responder, entrei na casa batendo a porta.
Eu estava furiosa.
Aquele pen drive era a melhor chance que tínhamos de provar a inocência do meu pai. Talvez fosse a oportunidade de acabar com anos de fugas e mentiras.
E tudo estava sendo jogado fora por causa de um homem que provavelmente eu nunca mais veria.
Pelo menos era nisso que eu acreditava.
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Lá fora, Guga aproximou-se do pai.
— Papai, pensa bem. Não podemos desperdiçar uma oportunidade dessas.
— Eu não vou colocar a Natali em perigo outra vez.
— Nós já vivemos em perigo todos os dias.
Téo permaneceu em silêncio.
— Não importa o quanto tente escondê-la. Um dia a verdade vai aparecer.
— Fale baixo!
Anélly suspirou.
— Vou conversar com ela.
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Quando minha mãe entrou no quarto, eu estava sentada na cama folheando um livro sem sequer prestar atenção às páginas.
— Filhota...
— Não tente me convencer de que devo ficar aqui enquanto acusam meu pai injustamente.
— Seu pai e eu só queremos proteger você.
— Proteger? Vocês estão me colocando numa prisão!
— Natali...
— Eu não aguento mais! Vocês me tratam como se eu fosse quebrar a qualquer momento.
Nesse instante, meu pai entrou.
— Nati, não fica brava.
— Como não vou ficar?
— Estou tentando te proteger.
— Me escondendo do mundo? Agindo como se a minha existência fosse um crime?
Anélly sentou-se ao meu lado.
— Você foi uma das melhores coisas que aconteceram nas nossas vidas.
— Então parem de agir como se eu fosse um problema!
Téo respirou fundo.
— Eu só tenho medo de te perder.
Aquilo me fez amolecer um pouco.
— Pai... eu só quero ajudar.
— Eu sei.
— Então me deixa buscar o pen drive.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Por fim, me abraçou forte.
E eu soube que aquilo significava um "sim".
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Naquela noite, eu estava penteando os cabelos quando Guga entrou no quarto.
— O papai me contou que deixou você ir ao colégio.
— Eu iria de qualquer jeito.
Guga riu.
— Disso eu não duvido.
— Preciso me inscrever para a prova amanhã.
— E se você não passar?
— Vou passar. Tenho um mês inteiro para estudar.
— Essa é a minha irmã.
Sorri.
— Você é o melhor irmão do mundo.
— E você é a melhor irmã do mundo.
Eu o abracei.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você já se apaixonou?
— Já. E você?
Fiquei pensativa.
— Não exatamente.
— Como assim?
— Eu só vi ele uma vez.
Guga abriu um sorriso.
— Amor à primeira vista?
— Talvez...
— E ele gostou de você?
— Não sei. Mas ele me olhou de um jeito diferente.
— Como ele se chama?
— Eu não sei.
— Você não perguntou?
— Não.
— E ele não perguntou seu nome?
— Perguntou.
— E você respondeu?
— Não.
Guga caiu na gargalhada.
— Vocês dois são impossíveis!
— Não faz diferença. Nunca mais vamos nos ver.
— Tem tanta certeza assim?
— Ele parecia absurdamente rico.
— E daí?
— Essas coisas só acontecem em novelas.
Guga sorriu.
— Ou talvez o destino tenha outros planos.
Pela primeira vez naquela noite, senti meu coração acelerar ao lembrar daqueles olhos.
E, por mais que tentasse negar, uma parte de mim desejava que Guga estivesse certo.
enquanto isso, na mansão de Thiago Olivares, ele estava em seu quarto com uma foto do seu pai nas mãos. ele fechou os olhos e pensou;
"A noite tinha engolido tudo. A casa estava silenciosa, exceto pelos passos que ecoavam no corredor como marteladas no meu peito. Eu tinha oito anos, e naquele instante descobri que o mundo podia se despedaçar em segundos. Meu pai… meu pai jazia no chão, e eu não podia fazer nada além de observar. O medo gelou minhas veias, mas a raiva… ah, a raiva nasceu ali, silenciosa e voraz, como um animal à espreita.
Teodoro Guerra. Ele estava lá, de alguma forma sempre presente, sempre sorrindo onde não deveria. E naquela manhã, ele roubou tudo de mim. Minha infância. Minha confiança. Meu pai. Desde então, cada sombra me lembra dele, cada sussurro me provoca, cada passo que dou é guiado por uma promessa silenciosa: um dia, ele vai pagar.
Dez anos se passaram, mas a memória é implacável. Eu fecho os olhos e vejo o instante exato, o movimento que mudou minha vida para sempre. Sinto o gosto da injustiça, a pressão do silêncio, a fúria que ferve sob a superfície. Eu não estou apenas buscando respostas… estou forjando meu caminho para a vingança.
E quando eu finalmente cruzar com Teodoro Guerra, o mundo vai entender que há coisas que não se perdoa. Que há dor que não se esquece. Que há ódio que cresce, paciente, até se tornar inevitável. Porque vingança, Teodoro… vingança é uma arte. E eu… sou um artista.”