confusão

1462 Words
Naquele final de tarde, Fábio estava sozinho no jardim do colégio. Sentado em um banco, observava o movimento dos alunos enquanto uma lembrança insistia em voltar à sua mente. Meses antes... Ele acabava de retornar de uma viagem quando ouviu a voz alterada de sua mãe vindo do escritório. Sem ser visto, aproximou-se da porta. — Como assim vocês a deixaram fugir? — gritava Sílvia Sartório ao telefone. — Eu pago uma fortuna para vocês fazerem um serviço simples! Fábio franziu a testa. — Como uma menina de doze anos consegue escapar de vocês? São incompetentes! Ela caminhava de um lado para o outro. — Escutem bem! Se aquela garota aparecer aqui exigindo qualquer direito, eu vou fazer vocês devolverem cada centavo que receberam! Sílvia desligou o telefone furiosa. Foi então que percebeu Fábio parado na porta. — Filho? — De que menina a senhora estava falando? Sílvia empalideceu. — Eu não sei do que você está falando. — Não mente para mim. — Fábio... — Eu ouvi tudo. Ela desviou o olhar. — Você entendeu errado. — Igual naquele dia? — Que dia? — O dia em que descobriu que a Paulina estava grávida do meu pai. O silêncio respondeu por ela. — Eu sabia. — Fábio... — Eu sempre soube. — Você era uma criança. — Mas não era surdo. Sílvia respirou fundo. — Esquece isso. — Esquecer? Ele deu uma risada amarga. — Existe uma garota em algum lugar deste país que é minha irmã. — Ela não é sua irmã! — É sim! — Não! — É filha do meu pai! A voz dele ecoou pela sala. — Então é minha irmã. Sílvia ficou desesperada. — Você não entende. Se você procurar essa menina, vai destruir nossa família. — Nossa família acabou no dia em que vocês decidiram esconder a verdade. — Fábio... — Eu vou encontrá-la. — Não faça isso! — Vou. — Não! — Ela tem o direito de saber quem é. Sílvia fechou os olhos. — Seus únicos irmãos são Gabriela e Nicolas. — Não. Fábio aproximou-se. — Existe uma terceira pessoa. — Aquela bastarda... — Não fale dela assim! Pela primeira vez, Sílvia ficou sem palavras. — Ela é minha irmã. — Fábio... — E eu vou encontrá-la. --- Agora... — Oi. Fábio levantou os olhos. Micarla estava parada diante dele. — Oi, Micarla. — Como vai? — Bem. — Tem certeza? — Não muito. Ela sorriu. — Continua péssimo para mentir. Fábio riu discretamente. Antes que pudesse responder, viu Kelly passando pelo jardim. Imediatamente levantou-se. — Com licença. Micarla acompanhou o olhar dele. E não gostou nem um pouco do que viu. — Kelly! A garota virou-se. — Oi. — Como está se sentindo? — Muito melhor. — Tem certeza? — Tenho. — Que bom. Kelly sorriu. Um sorriso sincero. Daqueles que só aparecem quando estamos olhando para alguém especial. E Micarla percebeu. Percebeu cada detalhe. Maria surgiu logo depois. — Vamos, Kelly? — Vamos. Kelly olhou para Fábio. — Tchau. — Tchau. As duas foram embora. Micarla cruzou os braços. — Quem é ela? — Uma aluna. — Só isso? — Só isso. — Interessante. — O que é interessante? — O jeito que ela olha para você. Fábio suspirou. — Não começa. --- Enquanto isso... Natali bateu na porta da sala do diretor. — Entre. Ela entrou imediatamente. Tobias percebeu seu nervosismo. — Natali? — Eu preciso daquele pen drive. — Outra vez isso? — Diretor, eu estou falando sério! Ela sentou-se sem ser convidada. — O Thiago está convencido de que foi meu pai quem invadiu o colégio. — Calma. — Eu não posso me acalmar! — Natali... — Se ele convencer a polícia, meu pai será acusado de novo por algo que não fez. Tobias ficou preocupado. — Respire. — Eu não tenho tempo para respirar. — O que mais aconteceu? Natali hesitou. — Fábio Sartório sabe quem eu sou. Tobias levantou-se imediatamente. — O quê? — Ele me reconheceu. — Como? — Ele me viu meses atrás. O diretor passou a mão pelo rosto. — Isso é muito r**m. — Eu sei. — Mas não podemos sair do colégio agora. — Diretor... — Não. — Eu preciso daquele pen drive. — E eu preciso garantir sua segurança. Natali fechou os olhos. Estava ficando sem opções. — Nós vamos pensar em alguma solução — garantiu Tobias. — Eu espero que sim. --- No dormitório masculino... Thiago entrou no quarto. Luan e Nick se arrumavam para a aula. — Não vai para a aula? — perguntou Luan. — Virou minha mãe agora? — Só perguntei. Thiago jogou-se na cama. — Ficamos preocupados com você ontem. — Eu não fiquei — corrigiu Nick. — Ninguém pediu sua opinião. Nick deu de ombros. Luan suspirou. — Você quase morreu. — Não preciso de babá. — Também não precisa ser tão antipático. — Eu sei me cuidar. — Claro. Luan pegou sua mochila. — Vamos, Nick. — Finalmente. Os dois saíram. Thiago ficou sozinho. — Eu não preciso que sintam pena de mim. Nesse momento, bateram à porta. — Será que eu não posso ter um minuto de paz? Abriu a porta. Era Luide. — O senhor tem visita. --- Na sala de visitas... Ruby aguardava ao lado de Wallace. Assim que viu Thiago, abriu um sorriso. — Olá, meu amor. — O que essa mulher está fazendo aqui? — Vim ver você. — Então perdeu seu tempo. Ruby acariciou a própria barriga. — Olha como ele cresceu. Thiago revirou os olhos. — Veio aqui para mostrar sua barriga? — Veio mesmo. — Ótimo. Já vi. Pode ir embora. Wallace tentou intervir. — Thiago... — Fique fora disso. Ruby respirou fundo. — Você realmente não se importa? — Não. — É seu filho. — Não tenho filho nenhum. — É um menino. — Isso também não me interessa. Ruby começou a perder a paciência. — Você é inacreditável. — E você é insistente. — Quando ele nascer, você vai assumir. — Não vou. — Vai sim. Thiago aproximou-se. — Vamos resolver isso agora. — Como? — Quanto você quer? Ruby arregalou os olhos. — O quê? — Dinheiro. — Thiago... — Fala logo seu preço. Wallace fechou os olhos. — Thiago, por favor. — Quanto? Ruby começou a rir. — Você é mesmo um i****a. — E você é uma golpista. — Não preciso do seu dinheiro. — Então o que quer? — Que você assuma seu filho. — eu não vou fazer isso! Ruby pegou sua bolsa. — Eu tenho que ir. Parou na porta. — Mas não pense que vai se livrar de mim. — Vai para o inferno. — Vejo você quando nosso filho nascer. E foi embora. Poucos minutos depois... Natali saía da cantina carregando um copo de suco. E, como se o destino estivesse brincando com ela... Esbarrou em Thiago novamente. Os dois falaram ao mesmo tempo: — Eu não acredito! — Nem eu! Thiago passou a mão pelo rosto. — Isso já está ficando suspeito. — Ah, por favor. — Você só pode estar fazendo isso de propósito. — Escuta, eu não estou com humor para discutir. — Que pena. — Então me deixa passar. — Eu não estou impedindo. — Ótimo. Ela tentou passar. Mas Thiago bloqueou o caminho. — Se você esbarrar em mim mais uma vez... — Vai fazer o quê? — Não vou ser tão paciente. — Isso foi uma ameaça? — Entenda como quiser. Natali cruzou os braços. — Vou contar para o diretor. — Antes disso, aprenda a me tratar com respeito. — Respeito se conquista. — Para você é senhor. — Por quê? — Porque eu quero. — Que argumento maravilhoso. Thiago estreitou os olhos. — Você gosta de me provocar. — E o senhor gosta de dar ordens. — Está brincando com fogo. — E o senhor está precisando relaxar. — Cuidado. — Ou o quê? — Ou vou acabar fazendo você calar a boca. Natali ergueu uma sobrancelha. — Vai me bater? — Acha que eu não teria coragem? — Acho que está precisando de terapia. — Natali... — Ou talvez de um banho frio. Thiago deu um passo à frente. — Não me desafie. Natali olhou para o copo em sua mão. Depois olhou para ele. Sorriu. — Sabe de uma coisa, senhor Olivares? — O quê? Ela ergueu o copo. — Isso vai ajudar. E jogou todo o suco na cara dele. Silêncio. Thiago ficou imóvel. Completamente coberto de suco. — O que você fez? — Uma boa ação. — Natali! — Agora talvez o senhor esfrie a cabeça. Ela virou-se. E saiu andando sem olhar para trás. Enquanto Thiago permanecia parado no corredor. Chocado. E pela primeira vez na vida... Sem saber o que dizer.
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