Naquele final de tarde, Fábio estava sozinho no jardim do colégio.
Sentado em um banco, observava o movimento dos alunos enquanto uma lembrança insistia em voltar à sua mente.
Meses antes...
Ele acabava de retornar de uma viagem quando ouviu a voz alterada de sua mãe vindo do escritório.
Sem ser visto, aproximou-se da porta.
— Como assim vocês a deixaram fugir? — gritava Sílvia Sartório ao telefone. — Eu pago uma fortuna para vocês fazerem um serviço simples!
Fábio franziu a testa.
— Como uma menina de doze anos consegue escapar de vocês? São incompetentes!
Ela caminhava de um lado para o outro.
— Escutem bem! Se aquela garota aparecer aqui exigindo qualquer direito, eu vou fazer vocês devolverem cada centavo que receberam!
Sílvia desligou o telefone furiosa.
Foi então que percebeu Fábio parado na porta.
— Filho?
— De que menina a senhora estava falando?
Sílvia empalideceu.
— Eu não sei do que você está falando.
— Não mente para mim.
— Fábio...
— Eu ouvi tudo.
Ela desviou o olhar.
— Você entendeu errado.
— Igual naquele dia?
— Que dia?
— O dia em que descobriu que a Paulina estava grávida do meu pai.
O silêncio respondeu por ela.
— Eu sabia.
— Fábio...
— Eu sempre soube.
— Você era uma criança.
— Mas não era surdo.
Sílvia respirou fundo.
— Esquece isso.
— Esquecer?
Ele deu uma risada amarga.
— Existe uma garota em algum lugar deste país que é minha irmã.
— Ela não é sua irmã!
— É sim!
— Não!
— É filha do meu pai!
A voz dele ecoou pela sala.
— Então é minha irmã.
Sílvia ficou desesperada.
— Você não entende. Se você procurar essa menina, vai destruir nossa família.
— Nossa família acabou no dia em que vocês decidiram esconder a verdade.
— Fábio...
— Eu vou encontrá-la.
— Não faça isso!
— Vou.
— Não!
— Ela tem o direito de saber quem é.
Sílvia fechou os olhos.
— Seus únicos irmãos são Gabriela e Nicolas.
— Não.
Fábio aproximou-se.
— Existe uma terceira pessoa.
— Aquela bastarda...
— Não fale dela assim!
Pela primeira vez, Sílvia ficou sem palavras.
— Ela é minha irmã.
— Fábio...
— E eu vou encontrá-la.
---
Agora...
— Oi.
Fábio levantou os olhos.
Micarla estava parada diante dele.
— Oi, Micarla.
— Como vai?
— Bem.
— Tem certeza?
— Não muito.
Ela sorriu.
— Continua péssimo para mentir.
Fábio riu discretamente.
Antes que pudesse responder, viu Kelly passando pelo jardim.
Imediatamente levantou-se.
— Com licença.
Micarla acompanhou o olhar dele.
E não gostou nem um pouco do que viu.
— Kelly!
A garota virou-se.
— Oi.
— Como está se sentindo?
— Muito melhor.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Que bom.
Kelly sorriu.
Um sorriso sincero.
Daqueles que só aparecem quando estamos olhando para alguém especial.
E Micarla percebeu.
Percebeu cada detalhe.
Maria surgiu logo depois.
— Vamos, Kelly?
— Vamos.
Kelly olhou para Fábio.
— Tchau.
— Tchau.
As duas foram embora.
Micarla cruzou os braços.
— Quem é ela?
— Uma aluna.
— Só isso?
— Só isso.
— Interessante.
— O que é interessante?
— O jeito que ela olha para você.
Fábio suspirou.
— Não começa.
---
Enquanto isso...
Natali bateu na porta da sala do diretor.
— Entre.
Ela entrou imediatamente.
Tobias percebeu seu nervosismo.
— Natali?
— Eu preciso daquele pen drive.
— Outra vez isso?
— Diretor, eu estou falando sério!
Ela sentou-se sem ser convidada.
— O Thiago está convencido de que foi meu pai quem invadiu o colégio.
— Calma.
— Eu não posso me acalmar!
— Natali...
— Se ele convencer a polícia, meu pai será acusado de novo por algo que não fez.
Tobias ficou preocupado.
— Respire.
— Eu não tenho tempo para respirar.
— O que mais aconteceu?
Natali hesitou.
— Fábio Sartório sabe quem eu sou.
Tobias levantou-se imediatamente.
— O quê?
— Ele me reconheceu.
— Como?
— Ele me viu meses atrás.
O diretor passou a mão pelo rosto.
— Isso é muito r**m.
— Eu sei.
— Mas não podemos sair do colégio agora.
— Diretor...
— Não.
— Eu preciso daquele pen drive.
— E eu preciso garantir sua segurança.
Natali fechou os olhos.
Estava ficando sem opções.
— Nós vamos pensar em alguma solução — garantiu Tobias.
— Eu espero que sim.
---
No dormitório masculino...
Thiago entrou no quarto.
Luan e Nick se arrumavam para a aula.
— Não vai para a aula? — perguntou Luan.
— Virou minha mãe agora?
— Só perguntei.
Thiago jogou-se na cama.
— Ficamos preocupados com você ontem.
— Eu não fiquei — corrigiu Nick.
— Ninguém pediu sua opinião.
Nick deu de ombros.
Luan suspirou.
— Você quase morreu.
— Não preciso de babá.
— Também não precisa ser tão antipático.
— Eu sei me cuidar.
— Claro.
Luan pegou sua mochila.
— Vamos, Nick.
— Finalmente.
Os dois saíram.
Thiago ficou sozinho.
— Eu não preciso que sintam pena de mim.
Nesse momento, bateram à porta.
— Será que eu não posso ter um minuto de paz?
Abriu a porta.
Era Luide.
— O senhor tem visita.
---
Na sala de visitas...
Ruby aguardava ao lado de Wallace.
Assim que viu Thiago, abriu um sorriso.
— Olá, meu amor.
— O que essa mulher está fazendo aqui?
— Vim ver você.
— Então perdeu seu tempo.
Ruby acariciou a própria barriga.
— Olha como ele cresceu.
Thiago revirou os olhos.
— Veio aqui para mostrar sua barriga?
— Veio mesmo.
— Ótimo. Já vi. Pode ir embora.
Wallace tentou intervir.
— Thiago...
— Fique fora disso.
Ruby respirou fundo.
— Você realmente não se importa?
— Não.
— É seu filho.
— Não tenho filho nenhum.
— É um menino.
— Isso também não me interessa.
Ruby começou a perder a paciência.
— Você é inacreditável.
— E você é insistente.
— Quando ele nascer, você vai assumir.
— Não vou.
— Vai sim.
Thiago aproximou-se.
— Vamos resolver isso agora.
— Como?
— Quanto você quer?
Ruby arregalou os olhos.
— O quê?
— Dinheiro.
— Thiago...
— Fala logo seu preço.
Wallace fechou os olhos.
— Thiago, por favor.
— Quanto?
Ruby começou a rir.
— Você é mesmo um i****a.
— E você é uma golpista.
— Não preciso do seu dinheiro.
— Então o que quer?
— Que você assuma seu filho.
— eu não vou fazer isso!
Ruby pegou sua bolsa.
— Eu tenho que ir.
Parou na porta.
— Mas não pense que vai se livrar de mim.
— Vai para o inferno.
— Vejo você quando nosso filho nascer.
E foi embora.
Poucos minutos depois...
Natali saía da cantina carregando um copo de suco.
E, como se o destino estivesse brincando com ela...
Esbarrou em Thiago novamente.
Os dois falaram ao mesmo tempo:
— Eu não acredito!
— Nem eu!
Thiago passou a mão pelo rosto.
— Isso já está ficando suspeito.
— Ah, por favor.
— Você só pode estar fazendo isso de propósito.
— Escuta, eu não estou com humor para discutir.
— Que pena.
— Então me deixa passar.
— Eu não estou impedindo.
— Ótimo.
Ela tentou passar.
Mas Thiago bloqueou o caminho.
— Se você esbarrar em mim mais uma vez...
— Vai fazer o quê?
— Não vou ser tão paciente.
— Isso foi uma ameaça?
— Entenda como quiser.
Natali cruzou os braços.
— Vou contar para o diretor.
— Antes disso, aprenda a me tratar com respeito.
— Respeito se conquista.
— Para você é senhor.
— Por quê?
— Porque eu quero.
— Que argumento maravilhoso.
Thiago estreitou os olhos.
— Você gosta de me provocar.
— E o senhor gosta de dar ordens.
— Está brincando com fogo.
— E o senhor está precisando relaxar.
— Cuidado.
— Ou o quê?
— Ou vou acabar fazendo você calar a boca.
Natali ergueu uma sobrancelha.
— Vai me bater?
— Acha que eu não teria coragem?
— Acho que está precisando de terapia.
— Natali...
— Ou talvez de um banho frio.
Thiago deu um passo à frente.
— Não me desafie.
Natali olhou para o copo em sua mão.
Depois olhou para ele.
Sorriu.
— Sabe de uma coisa, senhor Olivares?
— O quê?
Ela ergueu o copo.
— Isso vai ajudar.
E jogou todo o suco na cara dele.
Silêncio.
Thiago ficou imóvel. Completamente coberto de suco.
— O que você fez?
— Uma boa ação.
— Natali!
— Agora talvez o senhor esfrie a cabeça.
Ela virou-se.
E saiu andando sem olhar para trás.
Enquanto Thiago permanecia parado no corredor.
Chocado.
E pela primeira vez na vida... Sem saber o que dizer.