queda

1069 Words
Kelly voltou para o quarto completamente distraída. Maria estava mexendo no celular, enquanto Natali permanecia deitada na cama, com as pernas apoiadas na parede e os fones de ouvido pendurados no pescoço. Assim que viu a expressão da amiga, Maria arqueou uma sobrancelha. — Que cara é essa? Kelly jogou-se na cama dramaticamente. — Eu fui na enfermaria ver o Fábio. — Mas isso não é uma coisa boa? — É! — Então qual é o problema? Kelly escondeu o rosto no travesseiro. — O problema é que aquele homem não se toca! Maria começou a rir. — Como assim? — Eu apareço lá toda semana. Arrumo desculpas ridículas. Machuco a mão pela milésima vez, E ele continua achando que eu vou lá para consulta médica! Maria caiu na gargalhada. — Não tem graça! — Tem sim! Kelly sentou-se indignada. — Eu estou apaixonada por ele! — Credo. — Eu quero ele para mim! Ele é tão lindo! Natali retirou um dos fones. — Você já parou para pensar se ele sente a mesma coisa? Kelly virou imediatamente para ela. — E você? — Eu o quê? — Você gosta dele? Natali revirou os olhos. — Claro que não. — Tem certeza? — eu tenho certeza. — E vocês dois nunca tiveram nada? Natali ficou em silêncio por alguns segundos. Um silêncio estranho. — Eu não sei. Kelly e Maria se olharam. — Como assim não sabe? — Eu perdi boa parte das minhas memórias, lembra? Kelly estreitou os olhos. — Mas se lembrasse? — Ainda assim não mudaria nada. — Não respondeu. Natali suspirou. — Dá para me deixar em paz? Nesse momento, alguém bateu na porta. TOC. TOC. TOC. Kelly levantou-se. Ao abrir a porta, congelou. — Fábio? — Boa tarde. Kelly abriu um sorriso instantâneo. — Oi! — A Natali está? O sorriso desapareceu. — O quê? — A Natali. Kelly cruzou os braços. — O que você quer com ela? — Assunto pessoal. — Que tipo de assunto pessoal? — Ela está aí ou não? — Não. — Tem certeza? — Tenho. Fábio olhou para a cama. O volume estranho sob o lençol era impossível de ignorar. — Engraçado. Porque eu tenho quase certeza de que ela está escondida debaixo daquele cobertor. Maria começou a rir. Natali puxou o lençol da cabeça. — Que droga... Fábio sorriu discretamente. — Podemos conversar? — Sobre o quê? — Quer mesmo que eu fale aqui? Natali levantou imediatamente. — Está bem. Ela saiu do quarto. Fábio foi atrás. Kelly tentou segui-los. Mas Maria segurou seu braço. — Nem pense nisso. — Eu só quero ouvir! — Exatamente por isso que não vai. — Traidora! Você é uma traidora, igual a Natali. Enquanto isso... No topo da cachoeira. O vento soprava violentamente. As águas rugiam lá embaixo. Thiago e Guga permaneciam frente a frente. A tensão entre os dois era quase palpável. — O que você quer? — perguntou Thiago. — Quero que escute a verdade. — Não existe verdade nenhuma a não ser a que meu pai morreu. — Meu pai não o matou! Os olhos de Thiago se encheram de raiva. — Eu não tenho motivo nenhum para acreditar em você, filhote de jararaca. Guga cerrou os punhos. — Eu só quero impedir uma injustiça. Thiago soltou uma risada amarga. — Injustiça? Meu pai foi assassinado! — Meu pai é inocente! — Seu pai é um criminoso! — Não fale assim dele! — É um covarde que se esconde há dez anos! Guga perdeu a paciência. — Você não sabe de nada! — Sei o suficiente! Thiago aproximou-se. — Graças ao seu pai eu cresci sozinho. Graças ao seu pai eu enterrei meu pai aos oito anos! O silêncio explodiu entre eles. — Se depender de mim, Teodoro Guerra vai morrer atrás das grades. Foi então que Guga puxou uma arma. Thiago sequer piscou. — Eu não vou permitir que fale dele dessa maneira. — Vai atirar? — Se for preciso. Thiago deu um passo à frente. — Então atire. — Não me provoque! — Você é igualzinho a ele. — Cala a boca! — Covarde. — Cala a boca! — Covarde! Guga tremia. A arma também. Mas Thiago permanecia assustadoramente calmo. — Tem medo de morrer? — perguntou Guga. — Não. Eu não tenho medo de nada. Então apontou para ele. — Quem vive com medo é o seu pai. Guga avançou. Thiago tentou segurar a arma. Os dois lutaram. O chão estava molhado. Escorregadio. E então aconteceu. O pé de Guga deslizou. — NÃO! Ele despencou pela borda. Por reflexo, conseguiu agarrar-se a uma raiz presa na encosta. Ficou pendurado sobre um abismo mortal. Thiago ficou paralisado. — Meu Deus... A raiz começou a estalar. — Thiago! Pela primeira vez, Guga parecia apenas um garoto assustado. — Por favor... — Segura firme! — Eu estou escorregando! — Não olha para baixo! — Me ajuda! Thiago respirou fundo. Correu até a borda. Deitou-se no chão. E estendeu o braço. — Segura minha mão! Guga alcançou seus dedos. Os dois se agarraram. — Faz força! — Eu estou tentando! — Então tenta mais! — Eu não consigo! A raiz estalou novamente. CRACK. Thiago sentiu o coração acelerar. — Você vai conseguir! — Não vou! — Vai sim! — Não quero que você caia comigo! — Cala a boca e sobe! Thiago avançou ainda mais. Metade do seu corpo já estava perigosamente inclinada sobre o precipício. — Está louco! — gritou Guga. _ você vai cair! — Você quer ajuda ou não? — Não quero que morra para me salvar! — Eu não vou morrer! Thiago puxou com toda força. Por um instante pareceu que conseguiria. Então... BANG! O disparo ecoou pela cachoeira. Guga arregalou os olhos. O sangue começou a manchar sua camisa. — Não... Thiago congelou. — Gustavo... A mão do rapaz começou a escorregar. — Thiago... — NÃO! Mas não conseguiu terminar. Seus dedos escaparam. E ele caiu. O grito de Thiago ecoou pela cachoeira inteira. — NÃÃÃÃÃO! Lá embaixo, apenas o rugido violento das águas respondeu. Nesse momento, vários policiais surgiram entre as árvores. Um deles segurou Thiago antes que ele se jogasse atrás de Guga. — Me solta! — Senhor Thiago! — ME SOLTA! Ele lutava desesperadamente. Os olhos fixos no vazio. No lugar onde Guga havia desaparecido. E pela primeira vez em muitos anos... Thiago sentiu algo pior do que ódio. Culpa.
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