Kelly voltou para o quarto completamente distraída.
Maria estava mexendo no celular, enquanto Natali permanecia deitada na cama, com as pernas apoiadas na parede e os fones de ouvido pendurados no pescoço.
Assim que viu a expressão da amiga, Maria arqueou uma sobrancelha.
— Que cara é essa?
Kelly jogou-se na cama dramaticamente.
— Eu fui na enfermaria ver o Fábio.
— Mas isso não é uma coisa boa?
— É!
— Então qual é o problema?
Kelly escondeu o rosto no travesseiro.
— O problema é que aquele homem não se toca!
Maria começou a rir.
— Como assim?
— Eu apareço lá toda semana. Arrumo desculpas ridículas. Machuco a mão pela milésima vez, E ele continua achando que eu vou lá para consulta médica!
Maria caiu na gargalhada.
— Não tem graça!
— Tem sim!
Kelly sentou-se indignada.
— Eu estou apaixonada por ele!
— Credo.
— Eu quero ele para mim! Ele é tão lindo!
Natali retirou um dos fones.
— Você já parou para pensar se ele sente a mesma coisa?
Kelly virou imediatamente para ela.
— E você?
— Eu o quê?
— Você gosta dele?
Natali revirou os olhos.
— Claro que não.
— Tem certeza?
— eu tenho certeza.
— E vocês dois nunca tiveram nada?
Natali ficou em silêncio por alguns segundos.
Um silêncio estranho.
— Eu não sei.
Kelly e Maria se olharam.
— Como assim não sabe?
— Eu perdi boa parte das minhas memórias, lembra?
Kelly estreitou os olhos.
— Mas se lembrasse?
— Ainda assim não mudaria nada.
— Não respondeu.
Natali suspirou.
— Dá para me deixar em paz?
Nesse momento, alguém bateu na porta.
TOC.
TOC.
TOC.
Kelly levantou-se. Ao abrir a porta, congelou.
— Fábio?
— Boa tarde.
Kelly abriu um sorriso instantâneo.
— Oi!
— A Natali está?
O sorriso desapareceu.
— O quê?
— A Natali.
Kelly cruzou os braços.
— O que você quer com ela?
— Assunto pessoal.
— Que tipo de assunto pessoal?
— Ela está aí ou não?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Fábio olhou para a cama.
O volume estranho sob o lençol era impossível de ignorar.
— Engraçado. Porque eu tenho quase certeza de que ela está escondida debaixo daquele cobertor.
Maria começou a rir.
Natali puxou o lençol da cabeça.
— Que droga...
Fábio sorriu discretamente.
— Podemos conversar?
— Sobre o quê?
— Quer mesmo que eu fale aqui?
Natali levantou imediatamente.
— Está bem.
Ela saiu do quarto. Fábio foi atrás.
Kelly tentou segui-los. Mas Maria segurou seu braço.
— Nem pense nisso.
— Eu só quero ouvir!
— Exatamente por isso que não vai.
— Traidora! Você é uma traidora, igual a Natali.
Enquanto isso...
No topo da cachoeira. O vento soprava violentamente.
As águas rugiam lá embaixo.
Thiago e Guga permaneciam frente a frente.
A tensão entre os dois era quase palpável.
— O que você quer? — perguntou Thiago.
— Quero que escute a verdade.
— Não existe verdade nenhuma a não ser a que meu pai morreu.
— Meu pai não o matou!
Os olhos de Thiago se encheram de raiva.
— Eu não tenho motivo nenhum para acreditar em você, filhote de jararaca.
Guga cerrou os punhos.
— Eu só quero impedir uma injustiça.
Thiago soltou uma risada amarga.
— Injustiça? Meu pai foi assassinado!
— Meu pai é inocente!
— Seu pai é um criminoso!
— Não fale assim dele!
— É um covarde que se esconde há dez anos!
Guga perdeu a paciência.
— Você não sabe de nada!
— Sei o suficiente!
Thiago aproximou-se.
— Graças ao seu pai eu cresci sozinho. Graças ao seu pai eu enterrei meu pai aos oito anos!
O silêncio explodiu entre eles.
— Se depender de mim, Teodoro Guerra vai morrer atrás das grades.
Foi então que Guga puxou uma arma.
Thiago sequer piscou.
— Eu não vou permitir que fale dele dessa maneira.
— Vai atirar?
— Se for preciso.
Thiago deu um passo à frente.
— Então atire.
— Não me provoque!
— Você é igualzinho a ele.
— Cala a boca!
— Covarde.
— Cala a boca!
— Covarde!
Guga tremia.
A arma também.
Mas Thiago permanecia assustadoramente calmo.
— Tem medo de morrer? — perguntou Guga.
— Não. Eu não tenho medo de nada.
Então apontou para ele.
— Quem vive com medo é o seu pai.
Guga avançou.
Thiago tentou segurar a arma.
Os dois lutaram.
O chão estava molhado.
Escorregadio.
E então aconteceu. O pé de Guga deslizou.
— NÃO!
Ele despencou pela borda.
Por reflexo, conseguiu agarrar-se a uma raiz presa na encosta.
Ficou pendurado sobre um abismo mortal.
Thiago ficou paralisado.
— Meu Deus...
A raiz começou a estalar.
— Thiago!
Pela primeira vez, Guga parecia apenas um garoto assustado.
— Por favor...
— Segura firme!
— Eu estou escorregando!
— Não olha para baixo!
— Me ajuda!
Thiago respirou fundo.
Correu até a borda. Deitou-se no chão. E estendeu o braço.
— Segura minha mão!
Guga alcançou seus dedos. Os dois se agarraram.
— Faz força!
— Eu estou tentando!
— Então tenta mais!
— Eu não consigo!
A raiz estalou novamente.
CRACK.
Thiago sentiu o coração acelerar.
— Você vai conseguir!
— Não vou!
— Vai sim!
— Não quero que você caia comigo!
— Cala a boca e sobe!
Thiago avançou ainda mais.
Metade do seu corpo já estava perigosamente inclinada sobre o precipício.
— Está louco! — gritou Guga. _ você vai cair!
— Você quer ajuda ou não?
— Não quero que morra para me salvar!
— Eu não vou morrer!
Thiago puxou com toda força.
Por um instante pareceu que conseguiria.
Então...
BANG!
O disparo ecoou pela cachoeira.
Guga arregalou os olhos. O sangue começou a manchar sua camisa.
— Não...
Thiago congelou.
— Gustavo...
A mão do rapaz começou a escorregar.
— Thiago...
— NÃO!
Mas não conseguiu terminar. Seus dedos escaparam. E ele caiu.
O grito de Thiago ecoou pela cachoeira inteira.
— NÃÃÃÃÃO!
Lá embaixo, apenas o rugido violento das águas respondeu.
Nesse momento, vários policiais surgiram entre as árvores.
Um deles segurou Thiago antes que ele se jogasse atrás de Guga.
— Me solta!
— Senhor Thiago!
— ME SOLTA!
Ele lutava desesperadamente.
Os olhos fixos no vazio. No lugar onde Guga havia desaparecido.
E pela primeira vez em muitos anos...
Thiago sentiu algo pior do que ódio.
Culpa.