O ar na comunidade do morro da fênix era denso, saturado pelo cheiro de asfalto quente, fritura de pastéis de feira e o aroma metálico que pairava no ar após a chuva de verão. Para Lara, aquele era o cheiro da sua gaiola.
Ela ajustou a saia plissada que batia abaixo dos joelhos e apertou a Bíblia contra o peito, sentindo o suor frio escorrer por suas têmporas. Caminhar por aqueles becos à noite era uma dança entre a fé e o medo. Ela deveria ter ido direto para casa após o ensaio do coral, mas a curiosidade, aquela pequena chama proibida que ardia em seu estômago, a fizera desviar o caminho.
No centro de uma clareira improvisada, cercado por homens armados com fuzis que brilhavam sob a luz dos postes precários, estava Dante.
Ele estava sentado em uma cadeira de plástico, com a postura de um imperador em um trono de ouro. A camisa preta estava aberta até a metade, revelando a base da tatuagem de fênix que parecia ganhar vida sob a luz amarelada. Ele não sorria. Dante nunca sorria. Ele apenas observava o movimento, um predador avaliando o próprio território.
Dante levou um cigarro aos lábios, e o clique metálico do seu isqueiro ecoou no silêncio repentino de uma troca de música. O clarão da chama iluminou seu rosto por um segundo, os olhos escuros, profundos, carregados de uma violência que Lara não entendia, mas que a fascinava de uma forma pecaminosa.
Ele soltou a fumaça lentamente e, então, girou o rosto na direção dela.
— Tá perdida, santinha? — A voz de Dante era um barítono baixo que vibrou no peito de Lara, atravessando as camadas de tecido e moralidade.
— Eu... eu já estou indo — a voz de Lara saiu trêmula, traindo sua tentativa de parecer corajosa.
Dante levantou-se. O movimento foi fluido, letal. Ele caminhou até ela, o som das suas botas no chão batido marcando o ritmo do coração acelerado de Lara. Ele parou a poucos centímetros, o suficiente para que ela sentisse o cheiro de tabaco, sândalo e algo perigoso que ela só conseguia descrever como poder.
Ele estendeu a mão e, com o dedo indicador, tocou a borda da capa da Bíblia que ela segurava.
— O céu é muito longe daqui — ele sussurrou, o nome dela soando como uma profanação na sua boca. — Mas o inferno... o inferno tem dono. E você acabou de entrar no quintal dele.
Lara deu um passo atrás, o coração martelando contra as costelas. Ela deu meia-volta e começou a caminhar, forçando-se a não correr, sentindo os olhos dele queimarem suas costas.
Ela não sabia, mas naquele momento, o cerco tinha sido fechado. Dante não a deixaria ir. Ele nunca deixava o que considerava valioso escapar.
Lara apressou o passo, o som de seus sapatos de boneca batendo contra o cimento irregular soava como tiros em seus ouvidos. Ela sentia o olhar de Dante cravado em sua nuca, uma sensação física, como se uma mão invisível estivesse apertando seu pescoço. Ela não olhou para trás. Sabia que, se olhasse, o veria ainda parado ali, observando-a como um colecionador avalia uma peça rara que acabou de encontrar em um mercado de pulgas.
À medida que se afastava, o som do funk ia minguando, sendo engolido novamente pelos muros altos e pichados. Mas o silêncio que se seguia não era pacífico. Era o silêncio da favela que sabe demais, o som de janelas se fechando, de cochichos atrás de portões de ferro e o latido distante de cães magros.
Quando finalmente avistou a fachada imponente da Primeira Igreja da Redenção, um prédio que destoava das ruelas vizinhas por sua pintura branca impecável e luzes de LED, Lara parou por um segundo para recuperar o fôlego. Suas mãos ainda tremiam. Ela olhou para a Bíblia em seus braços. O lugar onde o dedo de Dante havia tocado parecia queimar.
— Onde você estava, Lara?
A voz veio da penumbra da varanda da casa pastoral, anexa à igreja. Era uma voz polida, treinada para o púlpito, mas que agora carregava o fio cortante da autoridade doméstica.
O Pastor Jonas saiu da sombra. Ele usava sua camisa social azul-clara, impecavelmente passada, contrastando com o suor e a poeira que Lara sentia em sua própria pele. Seus olhos, idênticos aos de Lara em cor, mas desprovidos de qualquer doçura, percorreram a filha com uma desconfiança clínica.
— O ensaio... o ensaio terminou um pouco mais tarde, pai. Tivemos que repassar o hino de domingo — mentiu ela, a voz saindo mais firme do que esperava. Mentir para o pai era um pecado que ela vinha acumulando como moedas em um cofre escondido.
Jonas caminhou até ela, parando a uma distância que não permitia fuga. Ele estendeu a mão e limpou um borrão de fuligem na bochecha de Lara. O gesto, que deveria ser de carinho, pareceu uma inspeção de mercadoria.
— Você cheira a fumaça — disse ele, os olhos estreitados. — E a pecado. O morro está em polvorosa hoje. Dante e seus cães estão agitados. Não quero minha filha circulando por caminhos que não levam à casa do Senhor.
— Eu sei, pai. Eu só... peguei um atalho.
— Não existem atalhos no reino de Deus, Lara. Existe apenas o caminho estreito. — Ele deu um passo atrás, abrindo a porta da casa. — Vá se lavar. O jantar está na mesa. E ore. Peça perdão pela sua demora e pela sua distração. O d***o não dorme, e ele adora usar rostos bonitos para esconder suas garras.
Lara assentiu e entrou, passando pelo pai sem encará-lo. O interior da casa era o oposto do morro: silencioso, com cheiro de desinfetante e móveis de madeira pesada. Era um santuário, mas para ela, parecia um mausoléu.
Enquanto subia as escadas para seu quarto, a mente de Lara traía as ordens do pai. Ela não conseguia pensar em oração. Em vez disso, a voz de Dante ecoava em sua cabeça: "O inferno tem dono".
Ela entrou no quarto, trancou a porta e encostou as costas nela, deslizando até o chão. Pela janela entreaberta, ela ainda conseguia ouvir, muito longe, a batida do funk. O som do caos. O som dele.
Lara levou os dedos aos lábios, sentindo o calor do próprio hálito. Pela primeira vez em dezoito anos, o caminho estreito de seu pai parecia claustrofóbico demais. Ela queria saber o que aconteceria se ela desse mais um passo em direção ao abismo. E, lá embaixo, no coração escuro da favela, ela sabia que Dante estava esperando para ver exatamente isso.