CAPÍTULO 01 - ROTINA DE UM FRACASSADO

1920 Words
— Quem é a morena mais gostosa desse mundo? Quem? Vi Tiago fazer cara de palhaço abobado enquanto uma moça se aproximava rindo. Ela o abraçou de forma preguiçosa e depois o soltou começando a ir embora, seguindo seu caminho. Geralmente, a gente pula anos após o prólogo, mas vamos fingir que isso não é uma novela mexicana e vamos apenas pular umas cinco ou seis horas. — Espera dona, preciso te perguntar uma coisa — Ele a puxou de volta e a fez o encarar apertando suas bochechas. Eu tive a impressão de que, ou ela estava com muito sono, ou ela não queria falar com ele, pois, além de estar com o corpo bem mole, m*l conseguia manter seus olhos fixos nele. — Já arranjou alguém para dividir as despesas? — Não. A Flávia me fez o favor de espantar todas as meninas que podiam me ajudar. — Então eu tenho a solução da sua vida! — Ele ergueu os braços como um i****a comemorando a vitória de alguém, e depois passou um braço em volta dos ombros dela. A fez se virar e olhar para mim. — Pense em um cara gente boa que não faria m*l nem para uma barata! Pensou? Isso mesmo! É esse aí que está na sua frente. — Hum... E? — Era engraçado como ela sequer fixou o olhar em mim. Tá que o dia estava uma m***a e eu parecia ter sido atropelado, e eu estava de pernas bambas achando que o plano não daria certo, e que... bem, resumindo, precisava fingir que não existo? — Acontece que ele está precisando de um lugar para ficar. Rolou umas paradas chatas entre ele e um cara da república e agora ele está saindo de lá. — Hum... Ele é gay? — Não! — respondi rápido e surpreso com a pergunta. Fui traído... será que a Anne também pensava isso de mim? — Então não rola. Ou mulher ou gay. — Qual é! Dá uma chance pro cara! — resmungou Tiago. — Nem pensar! Isso é roubada. Ela retomou seu caminho, mas Tiago a puxou pela mão fazendo-a voltar. — Qual é, dá uma forcinha! Se ele te atacar no meio da noite você pode me ligar que eu mesmo o parto ao meio — Fiz careta com a possibilidade. Tiago sempre perdia quando brigava comigo. — Pô, ele está precisando de um lugar para ficar... Ajuda, môzinho! Eu sei que se você não arranjar alguém logo vai ter que voltar para a casa dos seus pais. Ela cruzou os braços resmungando e pronunciando alguns palavrões que não ouvi direito. Depois soltou os braços e suspirou cansada. — Beleza, mas nada de mulher lá — E finalmente me olhou, mas não nos olhos, e apontou o dedo para mim. — Quando for t*****r com alguém, dê um jeito de pagar um motel. Também não rola festa por lá, o sindico é um porre. Som alto só quando eu não estiver dormindo e tem que se virar nos trinta para pagar a sua parte em dia. Eu sorri e concordei instantaneamente apenas com um movimento de cabeça. Tiago havia me alertado de levar metade do aluguel para a faculdade e entregar a ela. Sabe como é, passar uma imagem boa. Por isso, abri a carteira e a olhei todo feliz como se estivesse mandando em alguma coisa. — Quero me mudar hoje, qual é a minha parte do aluguel? — Hoje? Mas porque essa pressa toda? — Ah... É que na república eu durmo em frente ao quarto do cara que... bem... Posso me mudar hoje? — Hum... Tem certeza que não é gay? — Ela me olhou desconfiada e Tiago riu a abraçando. — Môzinho, no momento acredite no que te faz feliz — Ela suspirou e pegou o chaveiro no bolso detrás da calça. — Ok. Eu vou sair cedo e é provável que você me ache em casa. Tiago sabe onde fica e qual é. Sua parte é R$350,00 incluindo água, luz e internet. Achei caro, mas Tiago disse que eu iria curtir o AP por conta da localização, silêncio e a melhor parte... Nada de Bernardo. Tirei o dinheiro da carteira quase a vendo vazia e entreguei para ela. Ser pobre é f**a, universitário ainda por cima! — A menor é do cadeado, a redonda é da porta e a quadradinha é do portão da garagem — Peguei o molho de chaves e sorri satisfeito. Ela acenou e começou a ir embora, desta vez Tiago não a impediu e comemorou comigo. Em seguida fomos para a aula. Levou pouco tempo para conhecer a minha colega de AP. Seu nome é Manuela e posso lhe garantir com toda a franqueza do mundo! Morar com Manuela era um INFERNO! — m***a, Manuela. Eu quero usar o banheiro e você está aí há quase uma hora! — Vai se ferrar, problema seu se não entrou antes! — Abre a porta, preciso mijar! — Nem fodendo! Estou tomando banho agora. — Se você não abrir eu vou mijar na sua planta ridícula. — Se atreva a fazer isso e eu juro que te mato! — Quer pagar par... Abre a p***a dessa porta! Estou quase mijando nas calças. Essa cena do banheiro acontecia com frequência e terminava com Manuela saindo só de toalha e esperava do lado de fora enquanto eu me aliviava. Nós aprendemos que conversar é para os fracos. — Pedro! — Que é? — Você não lavou a p***a dos pratos! Está me achando com cara de empregada? E preciso dizer que ela tem um vasto vocabulário de palavrões, mas para seu bem-estar, não citarei todos. É humanamente impossível me lembrar de todos, na verdade. Ela também aprendeu que gritar comigo é sua terapia diária. — Pedro... — Hum? — Pode me explicar a razão de você estar usando só água para passar pano na casa? Não tem desinfetante ou um produto que possa limpar a p***a do piso? Ele é branco, quer deixar encardido? E essa é para aqueles que moram com mulheres e não fazem ideia sobre o que elas pensam sobre banheiro compartilhado. — Custa abaixar a desgraça da tampa da privada depois de usar? Que p***a! Olha bem, é assim: Levanta, usa, abaixa de novo! Caralho... Só mais uma para não perder o hábito... — Abaixe o som... — São três da tarde, você está acordada e... — Abaixa o volume desse troço! — Esse troço se chama Legião Urbana, exijo mais respeito pelo... Mas que p***a! Eu estou ouvindo a música... Me dá esse CD! — Eu mandei abaixar. Estou com dor de cabeça e sem um pingo de ânimo para aguentar seus chiliques de moça carente. É claro que há um monte de pormenores, mas isso levaria uma eternidade para contar. Eu estava morando com ela há quase três meses. Me mudei no final de Setembro e já havia reparado que, quando de TPM, Manuela tende para dois lados emocionais simultaneamente: Sofrimento e Raiva. Já estava preparado para passar pela 3º experiência, pois não estava disposto a aguentar o jeito que ela me olhava... Sabe quando um psicopata resolve tirar a máscara e te lança aquele olhar maníaco que te faz desejar ser suicida? Sério, é melhor você não estar me achando um exagerado ou rindo da desgraça alheia agora. No entanto, eu não podia negar que era melhor morar com ela do que com 08 barbados. Quando eu e ela não estávamos brigando ou disputando algo, era um ambiente limpo, tranquilo e calmo. Era fácil poder me sentar à mesa de desenho e iniciar os meus projetos ou os trabalhos da faculdade. Eu e ela estudávamos no fim de semana com o som baixo e com alguma banda que nos agradasse, tornando tudo muito atrativo. Graças a ela eu não me esquecia de lavar a roupa (m***a, Pedro! Quer deixar a casa fedendo roupa suja?) e isso me dava o direito de ter roupa limpa todos os dias. Me alimentava bem, pois ela cozinhava o suficiente para nós dois e como eu queria economizar — cof, cof —, eu optava comer em casa do que na rua. Havia também o detalhe que eu menos gostava... havia alguém para cuidar de mim... Mesmo que sem querer. Mas esses benefícios ocupavam apenas 6% dos 100%. A balança estava terrivelmente pendendo para os pontos negativos e isso era estressante! Qualquer psicólogo ficaria preocupado comigo, mas isso a gente só nota depois. E não pense que minha vida em casa era péssima ao ponto de eu querer trocá-la facilmente pela faculdade ou rezar para chegar o momento de ir ao trabalho. Não! Acreditem se quiser, mas os momentos mais relaxantes do meu dia eram em casa... Com Manuela ou sem Manuela. Mesmo tendo se passado quase três meses desde o ocorrido, o pessoal da faculdade ainda se lembrava claramente que fui... dupla e vergonhosamente traído. Os rumores e comentários eram diversos... — Que nada! Eu soube que o Pedro não estava dando no coro. — Mas ele é um burro sem tamanho! Quem mandou deixar a Annabeth de bobeira? — Bem que ele merece ser corno, só assim aprende. — Unhum! Sabe o que eu acho? Que ele é Gay! Não tem como a Anne ter traído o Pedro se ele tivesse cumprindo com suas obrigações. — Menina, nem diga! Será que o brinquedinho dele é tão pequeno assim? — Ou talvez ele não sabe usar. E daí para pior. Já na empresa, se o pessoal sabia da traição eles não comentavam na minha frente. Mas já tinham motivos suficientes para me criticarem. Eu estudava desenho e trabalhava em uma agência de desenhistas onde havia uma seção para ilustradores e autores de HQ. Independente do setor, eu me encaixaria perfeitamente bem, desde o publicitário até o ilustrador. Mas, ao invés disso, eu trabalhava no almoxarifado... De estagiário de desenhista fui mandado para o almoxarifado... É como colocar brigadeiro na frente de uma criança de seis anos e amarrar as mãos dela dizendo: Você não pode comer. A fama que eu tinha por lá era bem simples: Fracassado. — Só um burro para não entregar o projeto. Ao menos a vaga de assistente ele conseguiria, mas não. — Cara... Se eu fosse ele desistia desse lugar. Poderia tentar um estágio em outra agência. — Fracassados não pensam assim, aceitam o que vem para eles. Eu achava melhor ouvir os berros de Manuela do que ficar ouvindo o quanto eu era i*****l por não ter notado Bernardo dando em cima de Annabeth ou por ter perdido a grande chance de evoluir profissionalmente. E como se fosse pouco... — Você o quê? — gritou meu pai se levantando do sofá. — Pai, eu... — Eu não pago a sua faculdade para descobrir que não consegue nem se manter em um estágio, Pedro! — Eu fiz o projeto! — Fez? E porque não apresentou? — Eu não sei o que aconteceu, simplesmente sumiu! — Ah! Por favor! Só falta dizer que Rex comeu. Opa! Espera um pouco, Rex mora comigo e não com você. — Pai... — Eu disse para fazer administração. Trabalharia comigo e com a sua mãe. — Sou péssimo com números... — Argh! Quando for bom em alguma coisa, me avise. Devo dizer que também não sou o orgulho da família. Eu era um péssimo namorado, péssimo aspirante de um futuro bom, péssimo colega de AP e... bem... Não sei cozinhar também. O que mais poderia me faltar?
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