Luís conseguiu convencer sua mãe de que estava bem, de que tudo não passara de um descuido, algo que jamais voltaria a acontecer.
Ele sabia que ela estava preocupada e que, no fundo, ainda duvidava de suas palavras, mas sua insistência pareceu suficiente para acalmá-la.
No entanto, quando Samanta mencionou que mandaria retirar a banheira do banheiro que ele dividia com Eduardo, Luís sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O pânico tomou conta de si quase instantaneamente.
Se isso acontecesse, Eduardo nunca o perdoaria. Ele sabia que qualquer mudança provocada por causa dele seria vista como uma afronta, e Eduardo faria questão de fazer Luís lembrar qual é o seu lugar da pior forma possível.
Luís implorou, sua voz embargada enquanto explicava que aquilo não era necessário. Ele argumentou com todas as forças que tinha, dizendo que o ocorrido fora apenas um acidente e que não havia razão para mudar nada. A ideia de que ele poderia estar se aproximando de Eduardo surgiu como uma última cartada.
— Na verdade, nós estamos nos entendendo um pouco melhor, se vocês fizeram isso, ele vai se afastar ainda mais de mim.
O rosto de Samanta suavizou com aquelas palavras. Ela sempre sonhara que os dois se dessem bem, que fossem mais do que meio-irmãos: que fossem amigos, uma verdadeira família. Luís sabia disso e usou o sonho dela a seu favor.
Daniel, embora mais cauteloso, acabou cedendo também.
— Tudo bem. Mas isso não pode se repetir, Luís. Se você quiser conversar, sobre qualquer coisa, estamos aqui.
Luís assentiu rapidamente. Ele não podia dizer realmente o que queria, mas, pelo menos com isso, a banheira ficou, e ele se sentiu aliviado naquele momento.
Após a conversa, Daniel pediu que ele subisse e descansasse. Samanta disse que faria o jantar e foi para a cozinha, prometendo chamá-lo quando estivesse pronto.
Eduardo, como de costume, havia saído logo depois de fazer o que sempre fazia com Luís, sem qualquer remorso ou palavra.
Eduardo sumir era um padrão que todos aceitavam em silêncio: ele desaparecia por horas, bebia, voltava para casa tarde e continuava seu ciclo de destruição.
Luís, no entanto, agradecia por esses momentos de ausência. Ele pedia, fervorosamente, que Eduardo nunca voltasse. Na verdade, ele orava, todas as noites, por um final que o libertasse.
Ele desejava que Eduardo fosse atropelado no caminho de volta para casa, que algum bêbado no bar o atacasse ou que uma briga terminasse com ele morto. Era um desejo silencioso, uma oração desesperada de alguém que sabia que sua única saída era o desaparecimento do monstro.
Mas, ou Luís estava rezando para o deus errado, ou nenhum deus realmente se importava com ele.
Porque Eduardo sempre voltava.
E quando voltava, a tortura recomeçava.
____
Era sábado.
Luís odiava os sábados.
Durante os dias de escola, ele ao menos tinha um refúgio. Não que a escola fosse um lugar completamente seguro – ele sabia que, mesmo ali, era alvo de Eduardo, fora os olhares e ofensas que recebia de outros alunos. Mas estar longe de casa, o lugar onde ele apenas conhecia como sendo o território de Eduardo para fazer o que quisesse consigo, era um alívio.
Mesmo que fosse temporário.
Aos sábados, porém, esse alívio desaparecia. Eduardo também ficava em casa, e isso sempre significava uma coisa: mais dor, mais medo, mais situações que Luís não queria lembrar.
Naquele dia, como de costume, Daniel havia saído para trabalhar. Samanta estava se preparando para fazer as compras da semana, e Luís tentou de todas as formas convencê-la a levá-lo junto.
— Por favor, mãe. Eu posso ajudar. Carregar as sacolas não é nada.
Samanta balançou a cabeça, com um sorriso carinhoso.
— Hoje não, querido. Você precisa descansar, especialmente depois do que aconteceu ontem.
Luís mordeu o lábio, sentindo o pânico começar a subir por sua garganta. Ela não sabia o que estava pedindo a ele. Não sabia que estava deixando-o sozinho com o maior perigo da casa.
— Vai ser rápido, prometo.
Ele sabia que essas palavras não eram verdadeiras. Samanta não voltaria em poucos minutos, e, durante esse tempo, ele estaria vulnerável.
Quando ela finalmente saiu, Luís ficou sozinho. Para seu alívio momentâneo, Eduardo não estava em casa naquele momento. Ele havia saído mais cedo, provavelmente para se encontrar com os amigos.
Esse pequeno alívio, no entanto, não durou muito.
Depois de duas horas ele voltou. Luís sabia pelo barulho alto da porta sendo fechada. Eduardo sempre fazia isso.
Sentado na beira da cama, ele começou a tremer. Seu corpo ainda não havia se recuperado dos últimos machucados. Cada movimento fazia sua pele doer, as feridas abertas latejarem. Ele sentia como se a dor estivesse impregnada em seus ossos, e o simples pensamento de passar por aquilo de novo o deixava nauseado.
Os sons de passos se chocando contra o piso alertou Luís. Ele olhou pra porta de seu quarto apavorado.
Luís apertou os dedos contra os lençóis, rezando baixinho para que aquela porta não fosse aberta.
— Por favor…
Luís abriu os olhos quando ouviu o bater de uma porta. Mas não era a sua. Eduardo havia entrado no banheiro. Luís soltou o ar quando escutou o som do chuveiro logo em seguida.
Pelo menos tinha tempo.
O pensamento tomou forma em sua mente, claro e direto. Ele sabia que, se permanecesse ali, não teria forças para resistir. Precisava sair, nem que fosse apenas por algumas horas.
Depois de muito hesitar, Luís finalmente se levantou. Pegou sua jaqueta no armário, certificando-se de que cobria todas as marcas visíveis em sua pele. Antes de sair do quarto, puxou o ar, ganhando coragem pra abrir a porta e sair.
Desceu as escadas com passos leves, certificando-se de que não fazia nenhum barulho. Ao chegar à porta da frente, olhou para trás uma última vez. Ouviu o som da água no andar de cima e sentiu um alívio momentâneo por saber que Eduardo ainda estava no chuveiro.
Luís abriu a porta devagar. Quando finalmente estava do lado de fora, sentiu o ar frio bater contra seu rosto.
Era como se estivesse respirando pela primeira vez.
Luís não pretendia fugir. Ele só queria descansar hoje. Definitivamente seu corpo não vai aguentar outro abuso consecutivo.
Então ele iria apenas nesse parque que ficava em uma outra quadra e ficar por lá até sua mãe voltar para casa.
Luís precisou caminhar por várias quadras, ignorando o cansaço e as dores que pulsavam em cada passo. Seus músculos protestavam, e o frio começava a penetrar na jaqueta fina que vestia.
Mas ele não parava.
Depois de algum tempo, chegou ao parque em um bairro mais afastado. Era um lugar que Luís frequentava as vezes, quando as paredes de casa pareciam que iriam mesmo o sufocar, ele vinha aqui para respirar. Ele sabia que ali não ficava muito cheio, apenas algumas poucas crianças corriam por lá.
Ele procurou uma das casinhas de madeira onde as crianças costumavam brincar e encontrou uma vazia.
Luís entrou, fechando a pequena porta atrás de si, e se encolheu no canto. A madeira fria contra suas costas era desconfortável, mas ao mesmo tempo reconfortante. Ali, pelo menos, ele estava fora do alcance do Eduardo.
Luís abraçou os próprios joelhos, tentando se aquecer. O silêncio ao redor era quebrado apenas pelo som distante de algumas crianças correndo e rindo entre si. Ele apoiou a testa nos braços e fechou os olhos por um momento.
Estava exausto, tanto física quanto emocionalmente.
Seus pensamentos eram um turbilhão, mas a principal ideia que passava por sua mente era o desejo de que aquilo nunca tivesse começado.
Ele desejava poder desaparecer completamente, deixar tudo para trás.
Luís levantou a cabeça apoiando a mesma na parede de madeira. Ele acompanhava as nuvens no céu deslizando suavemente, escondendo-se entre si. Suspirou.
Ele sabia que não poderia ficar ali para sempre. Em algum momento, teria que voltar. E, quando voltasse, teria que enfrentar as consequências.
Mas, por enquanto, decidiu aproveitar o pouco de paz que aquele momento estava o proporcionando. Mesmo que fosse apenas por algumas horas.