Capítulo 18

1024 Words
Os dias passaram rápido e estranhamente calmos. Calmos no sentido de que, havia se passado algum tempo desde a última agressão que Luís sofrera, e, desde então, Eduardo não o havia procurado. Nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum toque. Para qualquer pessoa, isso poderia ser um alívio. E, de fato, uma parte de Luís sentia-se grata por essa pausa no pesadelo diário que vivia. No entanto, o silêncio também era atemorizante. Eduardo nunca o deixava em paz por tanto tempo. O que isso significava? O que ele estava planejando? A simples ausência de Eduardo criava um novo tipo de medo dentro dele, um medo que o consumia por dentro. O medo do desconhecido. O medo da tempestade que sempre vinha depois da calmaria. Mas Luís tentou se concentrar no que realmente importava agora: seus exames finais, que haviam começado na segunda-feira. Era nisso que precisava focar. Ele não podia falhar de jeito nenhum, porque Luís tinha um plano. Faltava-lhe ainda um ano para concluir o ensino médio, mas ele já havia tomado sua decisão. Assim que as férias terminassem, ele pediria transferência para terminar os estudos nos Estados Unidos. Era sua única saída. Luís não conseguia pensar em outra forma de escapar de Eduardo se não ir para bem longe. Longe dele. Longe de seus olhos ameaçadores. Longe de sua presença sufocante. Longe do terror diário que consumia sua vida. E ele já sabia como faria isso. Primeiro, aproveitaria que passaria as férias com sua tia e conversaria com ela. Contaria sobre seu desejo de terminar os estudos nos Estados Unidos, usando a desculpa de que a faculdade que tanto deseja fica lá — mesmo que, na realidade, nem soubesse o que queria cursar no futuro. Mas isso não importava. O importante era sair dali. Luís sabia que sua tia ficaria feliz em recebê-lo e, com certeza, o ajudaria a convencer sua mãe. Ele só precisava garantir que tudo ficasse em segredo até então. Eduardo não poderia suspeitar de nada. Se ele descobrisse que Luís passaria as férias longe, faria de tudo para impedi-lo. Por sorte, a forma como Eduardo afastava sua mãe e monopolizava a casa jogava a seu favor. Nos últimos meses, Samanta quase não lhe dirigia a palavra, e isso diminuía as chances de ela comentar sobre a viagem na frente de Eduardo. Luís quase não conseguia segurar sua ansiedade e nervosismo. Os exames terminariam na sexta-feira, então, na segunda-feira, teria a cerimônia de encerramento do ano. Depois disso, férias. E então… liberdade. Ou, pelo menos, a promessa dela. Samanta já havia dito que Daniel compraria sua passagem ainda naquela semana. Luís m*l podia esperar. Luís não sabia dizer se havia dormido bem ou não. Os últimos dias tinham sido pesados, e ele os passava oscilando entre um otimismo incerto e um medo sufocante. Cada passo que dava o aproximava das férias, mas também tornava o risco de tudo dar errado ainda mais real. Naquela tarde, ao deixar o portão da escola, uma cena inesperada o fez congelar. O carro de Eduardo estava parado logo à frente. Seu corpo inteiro enrijeceu no mesmo instante. Um arrepio gelado percorreu sua espinha, e seu estômago se revirou de um jeito familiar e terrível. Ele não via Eduardo há dias. Nem mesmo em casa. O mais estranho era que Eduardo sequer lhe dera carona durante aquela semana — algo que, surpreendentemente, não havia incomodado Luís. Na verdade, ele se sentia até grato por ter que pegar ônibus todos os dias. Mas agora… Agora tudo parecia errado. Luís tentou dar um passo à frente, mas algo o travou. Aquela sensação sombria voltou com força total, fazendo sua pele se arrepiar inteira. Sua mente gritava. Não entre nesse carro. Ele sentiu o coração martelando contra o peito, a respiração acelerando. Eduardo ainda não o havia olhado. Talvez… talvez pudesse fingir que não o viu. Ele engoliu em seco, virou-se e começou a caminhar em direção ao ponto de ônibus. Seu passo era rápido, tenso, como se o próprio instinto estivesse forçando seu corpo a fugir. Mas, antes que conseguisse se afastar muito, um som estridente fez seu coração parar por um segundo. BEEP! A buzina do carro ecoou estridente pelo ar como um aviso.. Luís congelou. Seu sangue gelou nas veias. Ele não precisou olhar para trás para saber que Eduardo estava olhando diretamente para ele. Sua mente queria correr, mas suas pernas estavam fracas demais. Respira. Só respira. Com os dedos crispados ao redor da alça da mochila, Luís forçou seu corpo a se virar. Seu olhar encontrou o de Eduardo. E ele entendeu imediatamente. Havia uma ameaça clara nos olhos verdes do outro. Luís não ouvia, mas ele entendeu claramente as palavras “Entra na p***a desse carro agora” que Eduardo disse. Ele não tinha escolha. Forçou-se a caminhar até o carro, sentindo-se como se estivesse andando para dentro de uma armadilha. Cada passo parecia um aviso de que algo terrível estava prestes a acontecer. Mas mesmo assim, Luís sabia que era melhor apenas obedecer. Luís soltou o ar, as mãos hesitando por um momento antes de abrir a porta e entrar no carro fechando a mesma, tremendo, e fechou o cinto de segurança com dedos trêmulos. Assim que se sentou no banco do passageiro, Eduardo deu partida, sem dizer uma única palavra. Seu corpo se encolheu no banco. Ele não precisava olhar para Eduardo para sentir a tensão no ar. Era como se estivesse sendo esmagado por um peso invisível, uma pressão que o sufocava cada vez mais. O silêncio dentro do carro era aterrorizante. O motor roncava baixinho, o único som preenchendo o espaço claustrofóbico ao redor deles. Luís manteve o olhar baixo, os braços cruzados ao redor do próprio corpo, como se isso pudesse protegê-lo do que quer que estivesse por vir. Ele queria falar algo. Perguntar para onde estavam indo. Perguntar o que ele queria fazer... Mas não conseguiu. Ele sabia que não adiantaria. Sabia que qualquer palavra errada poderia piorar tudo. Então apenas esperou. E torceu para que aquela viagem terminasse logo. Mas, no fundo, ele já sabia. A calmaria havia acabado. A tempestade estava prestes a começar.
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