Capítulo 14

1748 Words
A casa estava quieta. Silenciosa de um jeito sufocante. Fazia alguns dias que Luís havia recebido alta do hospital, e o tempo parecia se arrastar desde então. No momento, ele estava encolhido entre os lençóis, os olhos fixos na porta de seu quarto, como se esperasse que a qualquer momento algo—ou alguém—invadisse aquele espaço. Sua mãe e Daniel haviam saído para trabalhar logo cedo. Eduardo também estava fora, na escola. Isso significava que, por algumas horas, Luís tinha um raro momento de paz. Não que a casa em si lhe trouxesse conforto, mas pelo menos, naquele instante, ele não precisava se preocupar com o que aconteceria se cruzasse o caminho de Eduardo. Ainda não estava completamente recuperado, e sua mãe insistira para que ficasse em casa. Antes de sair naquela manhã, ela reforçou que já havia passado no colégio e explicado sua situação ao diretor, garantindo que ele tivesse mais alguns dias para descansar. Foi um alívio imenso. Luís não teria forças para encarar os corredores da escola. Muito menos para enfrentar Eduardo. Embora soubesse que isso era inevitável, cada segundo longe de seu tormento era precioso. Ele só queria um pouco mais de tempo. Mas mesmo com a casa em silêncio e sem ninguém por perto, Luís não conseguia relaxar. Sua mente estava inquieta desde a conversa que tivera com sua mãe no hospital. “Se tivermos um problema, precisamos enfrentá-lo de frente. Não tenha medo, eu estou aqui.” Ele queria acreditar nessas palavras. Queria encontrar alguma forma de enfrentar seus problemas. Mas como? Que solução poderia existir para deter Eduardo? Luís fechou os olhos, sentindo a frustração apertar seu peito. Ele tentou pensar em todas as possibilidades. Poderia contar para alguém? Pedir ajuda? Mas para quem? Ir à polícia estava fora de questão. Contar a seus pais? Ainda menos. Ele não podia arriscar envolver sua mãe e Daniel nisso. Não podia colocar a vida deles em perigo. Se Eduardo soubesse que ele abriu a boca, Luís não duvidava do que ele poderia fazer. E se algo acontecesse com eles por sua culpa? Ele nunca se perdoaria. Então, qual era a alternativa? A resposta era amarga. Ele teria que continuar suportando. A verdade é que ele já fazia isso há tempo demais. Engolia a dor. Escondia os hematomas. Calava-se diante das ameaças. Mas até quando conseguiria aguentar? Até onde poderia suportar antes de finalmente quebrar? Luís virou-se na cama, puxando os lençóis até o queixo, buscando um conforto que nunca vinha. Talvez esse fosse seu maior erro. Talvez seu silêncio estivesse apenas dando mais poder a Eduardo. Mas o que mais ele poderia fazer? Ele não sabia. E era exatamente isso que o aterrorizava. ******* Luís acordou sobressaltado sentindo um líquido espesso saltando em seu rosto. Ele passou a mão nos olhos que não conseguia abrir porque algo pegajoso tinha saltado em seus olhos. Quando finalmente conseguiu enxergar alguma coisa seu corpo tremeu. Luís automaticamente ficou estático olhando pra Eduardo que estava de pé ao seu lado da cama. Eduardo segurava seu pênis enquanto se masturbava e soltava seu g**o no rosto de Luís. Ele fez isso por mais uns segundos antes de abrir os olhos e encarar o menor. O cacheado sorriu e Luís sentiu o frio passar por sua espinha. — Acordou, maninho? Que bom. Eu já estava ficando impaciente. Luís tentou abrir a boca pra falar algo mas sentiu algo salgado entre seus lábios. Luís queria vomitar. Ele passou as costas da mão nos lábios com força, limpando o g**o de Eduardo. m*l terminou, suas bochechas foram seguradas com força pela mão de Eduardo. — Quem disse que você podia limpar? Hm? Eu odeio desperdiçar as coisas. — Enquanto falava isso Eduardo pegava mais do g**o que estava espalhado no rosto do menor e empurrou o dedo na boca de Luís. — Engole. — ordenou entre dentes. Luís forçou sua garganta a engolir o fluido ao mesmo tempo que suas lágrimas caiam. — Bom garoto. Agora vem cá. — Eduardo soltou seu rosto. — Como eu estou de bom humor, se você me fazer um bom oral ao ponto de me deixar satisfeito, eu não fodo o seu cu hoje. O sorriso de Eduardo não era normal. Luís sempre pensou isso, mas se repreendia dizendo que estava sendo paranoico. Mas sempre que Eduardo sorria, Luís sentia um calafrio passando por todo seu corpo. Era medonho, sinistro. Parecia alguém com muita sede de sangue. E realmente, hoje em dia Luís conhece esse sorriso. Agora ele entende o que sempre significou. Novamente, sem reclamar, Luís se arrastou até Eduardo e abriu à boca para que o cacheado fizesse o que quisesse. E como sempre, ele fez. Mesmo tremendo, a cabeça quase explodindo e a ânsia de querer vomitar estar forte, Luís aguentou até o fim. Não reclamou e nem tentou fugir. Ele não tinha forças nenhuma. Ele só queria ser bom e não irritar o Eduardo. Luís não queria apanhar de novo. Ele não aguentaria. Então ele preferia apenas ser um bom garoto. Como Eduardo dizia sempre. Ele realmente tentou agradar Eduardo e fazer bem, mas ele disse que não ficou satisfeito, então Luís teria que lhe compensar. E Luís foi abusado novamente naquele dia. ****** Luís acordou com o som insistente de seu celular vibrando sobre a mesa de cabeceira. Alguém estava ligando. No começo, pensou em ignorar. Provavelmente era telemarketing ou alguma ligação sem importância. Mas quando o toque persistiu, despertando-o por completo, ele suspirou e, relutante, esticou a mão para pegar o aparelho. Assim que viu o nome na tela, seus olhos se arregalaram em surpresa. Sem hesitar, atendeu imediatamente. — Luís, meu querido! Como você está? A voz animada e acolhedora do outro lado da linha o envolveu antes mesmo que ele pudesse dizer qualquer coisa. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, um raro raio de luz em meio às nuvens escuras que pairavam sobre ele. — Tia Érika… — murmurou baixinho, sua voz ainda carregada de sono e um pouco rouca. Tentou clareá-la com uma tosse leve antes de continuar: — Estou bem… e a senhora? Do outro lado, houve um breve silêncio. Luís fechou os olhos, já antecipando a pergunta seguinte. — O que aconteceu, querido? — A entonação de sua tia mudou, o tom agora sério e carregado de preocupação. — Nada. — ele respondeu rapidamente. — Eu só estava dormindo e acordei com o toque do celular. — Oh, eu te acordei? Desculpa, pequeno. — Sua voz voltou a soar mais animada, mas Luís sabia que a preocupação ainda estava ali, mesmo que ela tentasse disfarçar. — Não, está tudo bem, tia. Aconteceu alguma coisa? — Já não posso nem ligar para cumprimentar meu sobrinho? — A falsa indignação em sua voz fez Luís sorrir, ainda que fraco. — Eu também estava com saudades. — Ele respondeu baixo, soltando um suspiro discreto. — Sei… — Érika resmungou, fingindo não acreditar. — Você diz que sente saudades, mas nunca tem tempo para visitar sua pobre tia. Isso lá é jeito de tratar alguém que te ama tanto? Luís ficou em silêncio, e seu sorriso se desfez, dando lugar a um semblante carregado de culpa. Érika Tommer era a irmã caçula de seu pai. Aos 45 anos, morava em Nova Iorque com seu marido, levando uma vida confortável. Ela nunca teve filhos, não por escolha própria, mas porque nascera estéril. Talvez fosse por isso que sempre despejou tanto amor sobre Luís, como se ele fosse o filho que nunca pôde ter. Ela era mais do que uma tia para ele. Sempre fora uma segunda mãe. Durante sua infância, eles eram extremamente próximos. Mas depois que seu pai morreu, Érika e o marido mudaram-se para os Estados Unidos, e o contato entre eles tornou-se esporádico. Sua tia sempre ligava, sempre o convidava para visitá-la. Mas Luís, preso demais em sua própria dor, sempre encontrava uma desculpa para recusar. Ele sabia que isso a magoava, mas Eduardo nunca o deixaria simplesmente ir pra longe, onde seus olhos não o podiam alcançar. — Tia, eu… — tentou dizer algo, mas foi interrompido. — Nada de ‘mas’, Tomlinson! — O tom dela se tornou brincalhão, mas havia um toque de firmeza. — Prometa que virá me visitar nas próximas férias. Se não, eu vou achar que você não liga mais para mim e que não me ama mais! — O quê? Claro que não! — Luís exclamou, sentando-se na cama. — Então venha me visitar. Sua tia não estava lhe dando uma escolha. Luís mordeu o lábio, incerto. — Tudo bem. — Murmurou por fim. — Prometa. — Eu prometo. — Ótimo! — Ela vibrou do outro lado da linha. — Você vai amar Nova Iorque, querido! Quero tanto te levar para conhecer os lugares incríveis daqui! — Tenho certeza que sim. — Ele respondeu, a voz um pouco mais baixa. — Aliás, vou ligar para sua mãe mais tarde para falar sobre isso. — Avisou Érika. — Nem pense em me enganar, mocinho! Não irei perdoá-lo, ouviu? Luís forçou uma risada. — Não vou, tia. — Ótimo. E… Luís? — Sim? A voz dela ficou mais suave. — Você sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, não sabe? Luís permaneceu em silêncio por alguns segundos. Sentiu um nó apertar sua garganta, e seus olhos arderam com a ameaça de lágrimas. — S-sim… — conseguiu responder, sua voz falhando levemente. — Eu sei. Muito obrigado, tia. Ele mordeu os lábios com força, tentando conter o choro. — Bom. Beijinhos nessas bochechas gordinhas que estou morrendo de saudades de apertar! Por um instante, Luís ficou imóvel. Sua tia sempre dizia isso. Sempre brincava sobre suas bochechas redondas, um traço de infância que ele nunca se incomodou—até agora. Porque ele sabia que, quando Érika o visse, não encontraria mais aquele garotinho saudável e cheio de vida. Luís evitava se olhar no espelho porque não reconhecia mais o próprio reflexo. Estava magro demais, pálido demais. Suas bochechas, antes cheias, agora eram apenas sombras de um rosto abatido. Sua tia se assustaria quando o visse. Ele engoliu em seco e forçou um sorriso, mesmo que ela não pudesse vê-lo. — Também estou com saudades, tia. A despedida veio logo depois, e a chamada foi encerrada. Luís continuou olhando para o celular, observando a tela até que ela escurecesse. A casa estava silenciosa de novo. E sua mente voltava a ser inundada pelo peso de tudo que tentava ignorar.
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