Vários sons chegam em meus ouvidos, antes mesmo de abrir os olhos, ao recobrar minha consciência.
Estava em um quarto de hospital, não muito claro, graças às cortinas um pouco fechadas.
Aos poucos lembro da conversa com Jack, a raiva me dominando, as buzinas do carro e o impacto.
Mal havia conseguido assimilar a batida do lado do carona e bato conta o poste.
Droga, gemo em pensamento. Meu carro.
Com minha memória, não veio apenas o acidente e também as dores pelo corpo, que me fez desejar com todas minhas forças algo que me dopasse novamente.
Viro o rosto observando algumas pessoas passarem de um lado para o outro no corredor, inclusive enfermarias.
Meu celular vibra, notificando que havia chegado mensagem.
Respiro fundo sentindo meu tórax doer, levantando com certa dificuldade a mão para pegá -lo.
E para minha surpresa, era uma mensagem de Bruce.
Todo mundo já sabe de nós. Como isto aconteceu???? Não era pra ninguém saber.
Não sei como isto aconteceu. Também fui pega de surpresa.
Você vai ter que falar com a Valerie e dizer que é mentira.
Por quê?!! Não disse que estava se separando? Que não queria mais nada com ela?
Só não quero entrar em um conflito com ela. Faça o quê estou dizendo.
Aperto o celular com força na mão.
Uma enfermeira adentra no quarto, sorrindo ao me ver, indo direto para minha ficha nos pés da cama.
- Como está se sentindo? – pergunta.
- Todo meu corpo doí.
- Teve algumas contusões pelo corpo, nada que seja visto como grave e seus exames não deram alteração – Ela desvia a atenção dos papéis, usando uma pequena lanterna para me avaliar – Teve sorte de estar de cinto de segurança e do seu air-bag funcionar – Ela se afasta fazendo mais anotações - Espero que pague seguro e tenha uma quantia de reserva para pagar a multa, por passar em um sinal aberto.
Suspiro.
- Quando vou poder ir embora?
- Se tudo correr bem, á noite – Ela pega dois comprimidos e um pequeno copo com água, me entregando - Ficará em observação - Os engulo, voltando para a posição que estava.
Com meu mundo desmoronando ao meu redor, desejei que tivesse qualquer coisa para continuar no hospital e não ter que enfrentar ás consequências do meu ato.
Só que já pode imaginar, que não era bem o que o Universo queria e logo mais na troca de turno, recebi alta.
Enquanto procurava um táxi, tentava encontrar um meio de explicar para Dona Rosa, quando fosse questionada, o motivo pelo qual não estava indo trabalhar, onde estava meu carro é por quê tinha hematomas roxos em mim.
Era óbvio que ela encontraria sua própria explicação convincente.
Agradeço aos Céus ao entrar em casa e não encontrá -la por ali por perto, acabando por deduzir que deveria estar dormindo.
Mais trabalhoso foi tirar minhas roupas sem emitir qualquer som de dor e ter que lidar com minha cabeça latejando, o que tive que resolver com mais medicamento.
Deitada na minha cama, analisando os últimos acontecimentos, desejei apenas que tudo se resolvesse.
Dois dias haviam se passado desde o acidente e ainda podia sentir meu corpo rígido.
No término do almoço, tiro os pratos da mesa com os olhos de mamãe fixos em mim.
- Faz dois dias que está em casa – comenta séria – Já foi demitida?
- Não, mamãe – Começo a lavar os pratos – Só tirei uns dias de folga.
- Não vi seu carro quando fui pegar o jornal ontem e bem hoje.
- Está no concerto – digo automaticamente.
Ela arrasta a cadeira para trás levantando, arrastando os pés enquanto saia da cozinha.
Meu celular vibra sob a mesa, me fazendo secar a mão para pegá – lo.
Bruce... não quero que pense que contei sobre nós.
Era sobre isso que queria falar com você.
Nossa... sério. Mas não acha que fui eu, não é?
Já iria mandar mensagem. Mas não queria falar sobre isto por aqui. Teria como me encontrar mais tarde no bar do Moe?
E por quê não no apartamento?
Quero estar com você em um lugar público.
Além do mais. Será breve.
Tá. Tudo bem.
Termino de lavar a louça, praticamente voando até meu quarto, onde tiro todas ás roupas do closet estreito em busca de algo para vestir.
Acreditava que Bruce pediria minha mão naquela noite e queria estar deslumbrante.
Escondido em uma parte do closet, encontrei um vestido preto de mangas sem decote, um pouco justos. Odiava roupas justas, o que deduzi que talvez seria de Katerina.
Mas naquele momento não importava.
Me esforcei ao máximo em deixar meu cabelo impecável e não exagerar na maquiagem que no final estava translúcida.
Perto da hora de sair, me avaliei por longos minutos na frente do espelho buscando alguma imperfeição, quando não achei, decidi ir em ao encontro de Bruce.
- Já vai sair, Kathléia? – Mamãe pergunta na sala de estar.
- Vou me encontrar com alguns amigos.
Ela me olha atentamente.
- Com essa roupa? Está ridícula!
Olho para mim mesma, sentindo o peso das palavras.
Engulo em seco, caminhando até o vestíbulo, onde visto meu casaco e saio.
Permaneço algum tempo parada diante do táxi, ponderando ás palavras de mamãe, decidindo que iria arriscar mesmo assim.
O bar do Moe era o Harlem Tavern, porém Bruce havia feito amizade com o dono e não conseguia chamar o estabelecimento por outro nome.
Sentado perto do balcão com a gravata frouxa em volta do pescoço e o paletó pendurado nas costas do assento , estava Bruce, terminando uma dose de tequila.
Sorrio ao me aproximar.
- Oi – digo tirando o casaco.
Ele dá um rápido sorriso, sem tirar os olhos dos copos á frente.
Moe se aproxima, limpando o balcão.
- O mesmo de sempre? – pergunta.
- Por favor.
Ele pega uma garrafa de tequila e um copo, servindo uma dose.
- Por quê aqui? – pergunto olhando novamente para Bruce.
- Achei um bom lugar para o que quero dizer.
Já podia vê-lo tirar do paletó uma caixinha de veludo vermelho e me pedir em casamento e em seguida dizendo que havia sido sua melhor escolha.
- Não podemos mais nos ver, Kathléia – continua, me puxando com força de meus pensamentos.
- ... O que disse? – sussurro parcialmente em choque.
- Eu e Valerie estamos tentando ter um bebê e quero que essa criança venha ao mundo com os pais juntos – Desvio o olhar para o balcão, com a música ao fundo sumindo aos poucos – E quero muito este bebê. Valerie concordou em irmos amanhã em uma clínica de fertilização, já que já faz algum tempo que tentamos naturalmente e não obtivemos resultados – continua – E o que tínhamos também, só era sexo, deixei bem claro no início, que era apenas o que queria.
Engulo em seco, olhando novamente para Bruce, antes de virar a dose de tequila na boca, ignorando a ardência em minha garganta que não se comparava com a dor do meu coração se quebrando.
- Desejo felicidades – digo com a voz firme, pegando meu casaco e a bolsa, girando os calcanhares em seguida em direção da porta.
Decido voltar caminhando para casa, ignorando o frio que fazia e o risco que corria em estar sozinha.
Ás palavras de Bruce ecoavam em minha mente, cada vez mais me torturando e me fazendo ver o quão ridícula fui, ao pensar que um dia me assumiria.
Claro que não me assumiria, só havia sido usada. Afinal, havia deixado bem claro que só queria sexo.
Algum tempo depois, entro no vestíbulo de casa, com meu corpo completamente gélido, mesmo estando o tempo todo de casaco.
Era difícil descrever o que estava sentindo. Talvez ódio, frustração...não sabia especificar.
No momento em que caminho em direção da escada, o telefone começa a tocar, o que me faz encará-lo tentando imaginar quem seria aquela hora e apenas, infelizmente, uma pessoa vem à minha mente: Bruce.
Suspiro ao pegar o gancho.
- Alô?
- Kathléia García Gonzalez? – Uma voz masculina soa do outro lado da linha com sotaque mexicano.
- Sim. Quem é?
- Me chamo Ruan, sou médico legista do IML da Cidade do México – Ele faz uma breve pausa, parecendo folhear algo – Encontraram este número no aparelho celular de Katerina García Gonzalez. Infelizmente, ela está morta e preciso que venha até o México para reconhecer o corpo.
As postagens deste livro ocorreram uma vez por dia.
Caso tenha interesse de lê-lo antes, entreem contato pelo meu i********:: j.c.rodrigues alves_escritora