Decido passar no Harlem Tavern antes de ir para casa.
E para minha surpresa ao dobrar a esquina, lá estava meus colegas de trabalho, completamente desesperados e um pouco alcoolizados ao ver o estado dos pneus.
Vicent estava abaixando ao lado da parede do bar com a cabeça baixa e as mãos apoiadas nos joelhos, enquanto Meg e Tom caminhavam de um lado para o outro e Sara analisava o estrago, parecendo esperar ter uma ideia para resolver aquela situação de um lado para o outro.
É quando Vicent ergue a cabeça que me vê, levantando rapidamente, se colocando de imediato na frente do carro.
Finjo vê-lo naquele instante, freando bruscamente.
- Vicent!! – digo visivelmente surpresa – Poderia ter te atropelado!
Vicent suspira aliviado.
- Não sabe como é bom ver você.
Olho para os demais, fingindo que não estava entendendo o que estava acontecendo.
- Tem como nos dar uma carona? – Meg pergunta ao se aproximar – Até agora não passou nenhum táxi.
- E receio que pelo horário não passe mais – Tom completa.
- Sem problemas, pessoal – Vicent dá a volta no carro, sentando ao meu lado no banco do carona. Meg e Tom agilmente sentam no banco traseiro, Sara por outro lado se mostrava hesitante, até que cede por fim quando todos já estão acomodados.
Alguns minutos depois, Vicent decide quebrar o silêncio constrangedor que havia se formado.
- Obrigado mesmo, Káh. Nos salvou de ficar esperando por duas horas o guincho.
O olho por alguns instantes , voltando minha atenção para a estrada.
- Não haviam dito que não sairiam hoje? – Olho para Meg e Tom pelo retrovisor.
Meg cutuca Tom que pigarreia.
- Decidi de última hora e acabei convencendo Vicent e Sara.
- Aí pensamos que pelo horário, já deveria estar em casa de pijama – Vicent continua – Mas pelo jeito não estava, não é?
- Tinha um compromisso, mas acabaram desmarcando.
- Típico - Sara murmurra atrás do meu banco.
Algum tempo depois, paro o carro em frente ao prédio onde e Meg e Tom morava. Um prédio antigo em tom de marrom- avermelhado com saída de incêndio.
- Obrigada pela carona, Káh – diz Meg ao descer do veículo, buzino em resposta vendo-os caminhar em direção á porta pelo retrovisor.
Vicent mostra-se aliviado quando estaciono em frente ao prédio com grafite, Sara não hesita em segui-lo. O que me faz questionar mentalmente a decisão, já que morava a pelo menos vinte minutos de carro da casa de Vicent, o que andando chegaria em torno de quarenta minutos e pelo horário não seria uma boa ideia para uma mulher sozinha.
- Tem algum problema de ficar mais um pouco com você? – Ela pergunta, entrelaçando o braço com o dele.
Vicent sorri aos poucos, ainda sem entender o que estava acontecendo.
Sara estaria mais segura ali do que andando pelas ruas. Vicent era um gay conservado, o que significava que o máximo que iriam fazer era brigadeiro de panela.
- Claro que não! – Ele afaga a mão dela – Podemos fazer pipoca e assistir um filme quem sabe – Ele me olha, lembrando da minha existência - Quer subir, Káh? Podemos assistir uma comédia romântica.
- Deixa para a próxima. Estou cansada e desejando apenas minha cama – Ele sorri sem conseguir esconder o alívio.
- Então tá bom, nos vemos na segunda – Com isso se afasta, caminhando em direção ao prédio, conversando baixo com Sara.
Sara nunca foi tão próxima de Vicent, quase sete anos trabalhando juntos e só fomos uma única vez na casa dele. Era óbvio que preferia passar mais algumas horas ou até mesmo dormir na casa dele, invés de aceitar minha carona e ser obrigada a falar comigo.
Se este era o tipo de jogo que ela queria jogar, tudo bem, pois iríamos jogá -lo.
Mas antes disso, tinha outra coisa que precisava fazer.
- Cedo em casa – diz mamãe, quando subo o primeiro degrau da escada.
Sentada na penumbra da sala, passaria despercebida facilmente por mim.
- Estou cansada – Subo mais dois degraus antes de ser interrompida.
- O bordel que anda fechou cedo?
Aperto o corrimão de madeira.
- Não ando em bordéis, mamãe.
Ela ri, se balançando lentamente em sua cadeira de balanço.
- Nunca me enganei com você, Kathléia. Desde o momento em que a vi pela primeira vez, soube o tipo de pessoa que seria.
Encho os pulmões de ar, engolindo em seco.
- Boa noite, mamãe – digo por fim, subindo o restante dos degraus com passos pesados.
Entro em meu quarto fechando a porta atrás de mim, pegando meu celular na bolsa.
Procuro por um nome na lista telefônica, enviando uma mensagem em seguida.
Se tudo saísse como estava planejando, naquele final de semana, Sara voltaria a falar comigo e Bruce me pediria em casamento.