O mundo é cheio de pessoas. Diferentes pessoas. Algumas fúteis e vazias. Outras profundas e vazias. Autênticas e vazias. Pessoas vazias e vazias. As vezes eu me pego pensando que, o universo não passa de vazio. Um vazio sem fim, sem sentido nenhum para existir.
Exceto quando te vi. Naquele momento, tudo fez sentido. Sabe porquê? Eu sou o cara certo para você. Mas antes que você saiba disso, eu preciso te conhecer. Só para ter certeza de que eu vou conseguir te mostrar isso da melhor forma possível.
Entrei na sua casa, quando você estava na faculdade. Ela era bonita, mas pequena. Apenas quarto, sala e cozinha. As janelas do quarto e da sala davam para a rua. Janelas sem cortinas. Os vizinhos deviam adorar te olhar. Sinceramente, Madu, você não assiste noticiários? O mundo está cheio de loucos. Achei uma calcinha sua em cima dos livros de cabeceira. Senti o seu cheiro nela e, a guardei no meu bolso.
Na cozinha, haviam vários pratos, sobre a pia, com restos de sanduíches. Quando morarmos juntos, vou cuidar da casa para você. Vou cozinhar todos os dias. Você não vai precisar comer sanduíches e comida congelada. O seu congelador tinha macarrão com queijo congelado. Isso tem gosto de mingau salgado.
Abri o seu notebook desbloqueado, deviria ter uma senha aqui. Sem isso, qualquer um pode saber tudo sobre você. Ele estava sobre a cama. Chequei as suas conversas com as amigas. Sei que você gostou de mim, Madu. Mas, por quê será que não houve nenhum comentário ao meu respeito nas suas redes sociais?
Uma leve olhada nas conversas de três dias atrás e, lá estava.
Madu: Conheci um homem que lê. Será que eu deveria me dar uma chance, e começar a sair novamente?
Ignorei a resposta das suas amigas e fechei o notebook. Foi bom saber que eu não estava imaginando coisas. Você ficou afim de mim.
Vigiei quando você saiu da faculdade na sexta a noite. Se encontrou com a sua turma do teatro. Foram a um lugar muito caro. Um bar para gringos. Lá, você ficou afim de um cara que te pagou uma bebida, mas você saiu do bar em seguida. Quis se fazer de difícil ou, não tava tão afim assim.
Na calçada, do lado de fora você cambaleou bêbada. Mas uma bebida apenas, não deveria fazer isso. Te segurei com o meu corpo, para você não cair.
_ Você está bem? _ soei suave.
Você olhou no meu rosto sem me reconhecer _ Só estou tonta. Obrigada _ tentou parecer melhor do que estava, mas não funcionou.
_ Você quer que eu chame um Uber?
_ Não precisa. Eu estou bem. Pego o metrô _ me reconheceu, afinal _ Você é o vendedor de livros.
_ Sou o gerente da livraria, na verdade. Podemos rachar um Uber, se você preferir? Sai mais barato que o metrô e, assim eu vou ter certeza de que você está bem.
As suas pernas falharam e, eu tive que abraça-la mais forte, te segurando, de fato.
_ Acho que batizaram a minha bebida _ se rendeu, caindo na real, com uma certa vergonha, explícita no seu rosto.
Assenti condescendente, antes de pegar o meu smartphone e chamar um Uber. Abracei suas costas contra o meu peito. Você não se segurava sentada. Parecia uma boneca feita totalmente de pano.
Dispensei o motorista ao chegar na sua casa e, ajudei você a chegar na sua cama. Tive que te carregar no colo, Madu. Pois você adormeceu no percurso do carro.
Tirei os seus sapatos e te deitei na cama. Busquei um copo d'água e, sentei ao seu lado. Chequei os seus sinais vitais. Eu não podia sair. Dependendo do que você tivesse tomado, você poderia até morrer pelos efeitos ou, asfixiada no próprio vômito.
Tentei te acordar e consegui. Você bebeu um pouco de água e voltou a fechar os olhos, consciente.
_ Obrigada por cuidar de mim _ um misto de vergonha e gratidão no seu tom _ Você não precisava.
_ Está tudo bem _ soei paternal, revelando um pouco de mim _ Só descansa, isso vai passar.
Procurou pelo seu celular, mas não o encontrou na bolsa. Ele não poderia estar ali, pois estava na sua mão quando você saiu do bar e, caiu quando as suas pernas falharam.
_ Ah não! Eu perdi o meu celular _ desespero e decepção.
_ Perdeu, onde?
_ Nem sei _ soou irritação _Tudo bem, depois eu compro outro _ conformismo.
_ Você quer que eu chame alguém para ficar com você? _ ofereci pegando o meu celular, condescendente.
_ Não, eu vou ficar bem _ vergonha no tom.
Você não queria que eles soubessem o que aconteceu e, muito menos que te vissem assim. Estava sozinha, Madu. Se não podia confiar neles, eles não eram seus amigos.
_ Não posso te deixar sozinha _ apontei o meu ponto de vista.
_ Então, você pode ficar? _ pediu constrangida.
Não acreditei que você estivesse me pedindo isso. Eu ganhei a sua confiança, Madu.
_ Claro _ soei paternal ou condescendente.
Dormi no seu sofá, quando você adormeceu. Acordei primeiro que você e, comprei dois capuccinos e algumas rosquinhas na lanchonete próxima a sua casa.
_ Você é um amor _ sorriu quando eu te acordei com o café na cama.
Sorri de volta e falamos sobre os sabores das rosquinhas daquela lanchonete em especial. Na sua opinião, elas são as melhores do mundo.
_ Preciso ir _ declarei ao terminar meu capuccino _ Mas vou voltar, só por causa das rosquinhas _ sorri.
Você deu uma risada gostosa. Aqueceu o meu coração te ouvir rir assim. Imagens de outras ocasiões em que essa mesma risada caberia, passaram pela minha mente. Entre eles, em meio a um orgasmo. Seria maravilhoso ver isso.
Tossi, disfarçando o meu olhar e******o sobre o seu rosto. A última coisa que eu queria, agora, era parecer um tarado.
Saí, de volta para o meu vazio cheio de livros. Mas eu não estava mais vazio. Eu tinha você, Madu. E é claro, o seu celular também. A sua vida, detalhada, estava agora, na palma da minha mão.
No passado, houve alguém em minha vida, Madu. Eu a amei com todo o meu coração, mas ela me destruiu. Tenho medo de viver tudo de novo. Mas você não é como a Bela. Você é melhor. Deu para perceber no primeiro instante.
Recebi uma ligação, no seu celular, no meio do meu expediente. Pela foto de quem ligava, notei que era o cara que te dopou.
Mas que cara de p*u!
Acho que você ainda está sem celular. Julgando os tipos de gastos que você tem com o pagamento pelas aulas de teatro, mais os gastos com as bebidas semanais naquele bar, mais um presente ou outro que você deve comprar para si mesma ou, para uma das suas amigas, mais água, energia, você devia estar sempre dura. Como compraria um celular agora? Mas você deve ter um padrinho. Os pais, ou um deles, que vai bancar isso para você. Devo estar com sorte.
Foram muitas ligações durante aquele dia. Ele é persistênte! Não sei, mas acho que, se você não for forte, vai beber com ele de novo. Acho que eu não posso me arriscar. Começamos algo ontem a noite. Confiança não é algo que se encontra em cada esquina. Você me acha especial.
Vesti uma roupa comum, escura e, boné. Fui para até um lugar por onde eu nunca passava, muito menos parar. A pé, é claro. Comprei um boa noite cinderela qualquer. No caminho, misturei com pesticida em pó. Proibido no nosso país, mas quem liga para o que se encontra nas drogas das nossas ruas?