O carro avançava pela noite de Manhattan como uma fera silenciosa. As luzes da cidade tremulavam lá fora, refletindo no vidro como fantasmas dançantes. Eu estava sentada no banco traseiro, o vestido vermelho estendido sobre minhas pernas como uma promessa ardente.
Meus dedos roçavam o tecido, sentindo a suavidade quase pornográfica, como se cada fio tivesse sido tecido para me lembrar do homem que me esperava.
O motorista não disse uma palavra. À frente, uma divisória de vidro me separava de qualquer fuga: física ou mental. Eu estava completamente à mercê do destino que eu mesma havia criado.
Quando chegamos ao hotel, as portas se abriram num estalo metálico. Eu saí, o ar noturno acariciando minha pele exposta. Meus saltos ecoaram no mármore da entrada, um som que parecia anunciar meu próprio julgamento.
Lá dentro, uma recepcionista sorridente me entregou um cartão magnético e indicou o elevador privativo.
— Ele está te esperando na cobertura, senhorita Martins.
A voz dela soou melódica, quase cúmplice.
Meu coração disparou, batendo num ritmo tão frenético que eu pensei que fosse desmaiar ali mesmo. Apertei o cartão na mão, respirando fundo antes de entrar no elevador.
Enquanto subia, meu reflexo no espelho tremeluzia, o vestido abraçando cada curva com indecência. Meus cabelos, agora soltos, caíam sobre os ombros como uma cortina de segredos.
Quando as portas se abriram, o ar parecia mais denso, carregado de algo que eu não conseguia nomear. Entrei no hall silencioso, e então o vi.
Christian West estava à minha espera, parado ao lado de uma mesa imensa de mármore, segurando um copo de uísque. Seu terno escuro moldava o corpo largo, os ombros poderosos, e o olhar dele era uma lâmina afiada cravada na minha pele.
Ele me observou da cabeça aos pés, com a calma predatória de quem saboreia cada segundo antes do ataque.
— Pontual.
A voz dele cortou o ar, baixa e carregada de um sarcasmo sombrio.
— Pelo menos em alguma coisa você não me decepciona.
Tentei engolir em seco, mas minha garganta parecia selada.
— Eu… eu não pedi por isso, Christian.
Minha voz saiu fraca, mas firme.
Ele sorriu, lento, um predador satisfeito com a vulnerabilidade da presa. Caminhou até mim, os passos ecoando no piso de mármore, o cheiro dele invadindo meu espaço pessoal como um veneno doce.
— Não pediu?
Ele ergueu a mão, roçando um dedo pelo meu ombro nu, subindo até a clavícula.
— Mas mentiu. E mentiu sobre mim.
Minha pele se eriçou inteira, os pelos dos braços em alerta.
— Foi só uma forma de…
Eu comecei, mas ele me interrompeu com um movimento brusco.
— Não.
Sua voz agora era uma ordem sussurrada.
— Não se justifique. Você me usou, Stella. Para ferir sua prima, para alimentar seu ego, para se proteger de alguma insegurança infantil.
Eu tremi. Ele se inclinou mais, a boca quase roçando minha orelha.
— E agora…
Ele continuou, cada palavra um sopro quente que me queimava por dentro.
— Agora você vai arcar com as consequências.
— Que consequências?
Sussurrei, o medo e o desejo se misturando como veneno no sangue.
Christian se afasta um passo, erguendo o copo de uísque. Ele me olhou de cima, o olhar carregado de fogo e cálculo.
— Um contrato.
Ele disse, parando para saborear minha reação. — Uma mentira tão grande quanto a sua deve ser sustentada, não acha?
Meus joelhos quase cederam.
— Contrato?
Repeti, sem ar.
Ele assentiu, andando em direção a uma mesa lateral. Pegou uma pasta preta, abriu com cuidado calculado, como se cada movimento fosse uma dança.
— Você será minha acompanhante oficial por tempo indeterminado.
Ele começou, sem desviar o olhar.
— Você vai sorrir para as câmeras, vai usar meus anéis, vai dormir na minha cama.
Minha mente girou.
— Dormir…?
Repeti, a palavra latejando nos ouvidos.
Ele riu, um som rouco e perigoso que me fez vibrar inteira.
— Não se preocupe.
Ele se aproximou novamente, tão perto que meu corpo quis ceder.
— Eu não toco em nada que não queira ser tocado.
Mas o olhar dele dizia outra coisa. Dizia que, no fundo, eu já queria.
Ele passou um dedo pela minha bochecha, descendo até o pescoço. Sua pele contra a minha era fogo puro, um aviso e uma promessa.
— Se você assinar…
A voz dele caiu para um sussurro quase íntimo. — Vai entrar no meu mundo. Será minha propriedade particular.
Engoli em seco. O ar parecia rarefeito.
— E se eu recusar?
Minha voz saiu trêmula, mas curiosamente firme.
Ele sorriu, os olhos brilhando com algo c***l.
— Então, amanhã de manhã, os jornais estarão cheios de manchetes: “Secretária ambiciosa inventa relacionamento com bilionário. Farsa desmascarada.”
Fez uma pausa, deixando o veneno escorrer.
— Sua carreira? Morta. Sua reputação? Irreparável.
Minha respiração virou um ofegar descompassado. Eu estava encurralada, nua emocionalmente, entregue.
Ele estendeu a caneta para mim.
— Você escolhe, Stella.
O olhar dele me prendia como correntes.
— Assina… ou assiste sua vida desmoronar.
Segurei a caneta com a mão trêmula. Cada segundo era um grito dentro de mim. Eu odiava a forma como ele me olhava, como se me conhecesse mais do que eu mesma.
Mas, por baixo do ódio, havia um desejo obscuro. Uma fome que eu não queria nomear.
Com o coração batendo como um tambor furioso, assinei.
O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que pude ouvir o som do meu próprio medo.
Christian recolheu a pasta, fechou com cuidado e a colocou de lado. Então, se aproximou mais uma vez. Tão perto que eu podia sentir o calor dele invadir cada célula do meu corpo.
— Bem-vinda ao jogo, pequena.
Ele murmurou, os lábios roçando minha orelha. — A partir de agora, você é minha.
Senti um arrepio violento percorrer minha espinha. Queria odiá-lo. Queria gritar. Mas tudo que consegui foi me perder no calor que explodiu entre minhas pernas, na vertigem que me deixou mole, vulnerável, pronta.
Ele segurou meu queixo, forçando meu olhar a encontrar o dele.
— Vou te mostrar como se sente ser desejada por um homem de verdade.
Seus olhos queimavam.
— E quando você implorar… vou decidir se atendo ou não.
Minha pele se incendiou. Um gemido contido escapou, meus lábios se entreabrindo, o corpo inteiro tremendo.
Christian sorriu, satisfeito com minha reação.
— Vá se trocar. O vestido está no quarto ao lado.
Ele disse, soltando meu rosto com a mesma lentidão com que um predador larga sua presa, já certo da próxima mordida.
— O carro nos espera em vinte minutos.
Eu não consegui responder. Meus passos até o quarto foram trôpegos, como se eu tivesse acabado de sobreviver a um terremoto.
Fechei a porta atrás de mim, encostei a testa na madeira fria e respirei fundo. Minhas mãos ainda seguravam a caneta, tremendo.
Quando olhei para o vestido estendido na cama, percebi: não era apenas um tecido. Era o símbolo da minha rendição.
Toquei o tecido devagar, imaginando as mãos dele em mim. A forma como seus olhos me despiam na frente de todos.
Naquele instante, entendi: o contrato não era só um papel. Era o começo de algo muito maior. O mundo de desejo, posse e poder.
E eu…
Eu estava pronta para me entregar. E no fundo sabia que eu não fui obrigada, eu o queria com toda a possessividade e intensidade que me oferecia.
Fechei os olhos por um momento, tentando controlar a respiração. Mas era impossível silenciar a voz dele que ainda ecoava dentro de mim.
“Você é minha.”
Essas três palavras me rasgavam por dentro, como se cada letra fosse gravada a fogo sob minha pele.
Soltei um suspiro pesado e comecei a me despir, cada movimento se tornando uma dança íntima comigo mesma. O zíper do vestido antigo desceu devagar, revelando minha pele arrepiada, denunciando meu estado de alerta.
Quando fiquei apenas de lingerie, parei em frente ao espelho. Meus olhos encontraram o reflexo de uma mulher que eu quase não reconhecia. Havia algo novo ali, algo que misturava medo, raiva, curiosidade e um desejo brutal que queimava em silêncio.
Passei as mãos pelo corpo, subindo pelos s***s, descendo pela cintura. Era quase um toque de despedida da mulher que eu tinha sido até ontem.
Aproximei-me do vestido novo, vermelho como pecado, e deixei que o tecido deslizasse pela minha pele. Ele abraçou meu corpo como se tivesse sido costurado apenas para mim, desenhando cada curva, cada suspiro contido.
Quando terminei de me arrumar, ouvi uma batida suave na porta.
— Stella.
A voz dele era baixa, mas autoritária.
— Está pronta?
Meu coração pulou no peito. Respirei fundo, conferi o batom uma última vez e abri a porta.
Christian me olhou, e naquele segundo, tudo ao redor pareceu desaparecer.
Os olhos dele percorreram meu corpo como uma carícia proibida, lenta e voraz. Um músculo pulou em sua mandíbula, e o ar ao nosso redor pareceu vibrar com eletricidade.
— Perfeita.
Ele murmurou, como se falasse apenas para si mesmo.
Tentei falar algo, mas as palavras morreram na garganta. Em vez disso, observei quando ele avançou até mim, pegando uma mecha do meu cabelo entre os dedos.
— Não se esqueça…
Ele inclinou-se, os lábios perigosamente perto do meu pescoço.
— Hoje à noite, cada olhar sobre você será apenas um lembrete de que você pertence a mim.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro, arrancando um suspiro baixo e involuntário.
— Eu não pertenço a ninguém.
Sussurrei, tentando agarrar algum resquício de coragem.
Ele riu, um som rouco que vibrava em cada osso meu.
— Ainda.
Respondeu, aproximando o rosto até roçar meu queixo com os lábios.
— Mas vai descobrir que, no fim, todos pertencem a alguém.
Minha pele queimava, minhas pernas estavam fracas. O cheiro dele, quente e amadeirado, me envolvia como um feitiço.
— Vamos.
Ele disse, segurando minha mão com força.
Caminhamos até o elevador. Senti os olhares curiosos dos funcionários, mas Christian andava como se fosse dono de cada respiração naquele lugar.
Quando as portas se fecharam, ele me puxou de repente, me prendendo contra a parede de aço inoxidável. Seu corpo pressionou o meu, e eu ofeguei, sentindo o calor pulsar entre as minhas coxas.
— Lembre-se de sorrir, Stella.
Ele murmurou, os lábios roçando os meus, sem chegar a beijar.
— Eles precisam acreditar que é real.
Antes que eu pudesse reagir, ele se afastou, deixando meu corpo implorando pelo toque que nunca veio.
E ali, no silêncio tenso do elevador, percebi que o jogo tinha começado muito antes do contrato. E que, no fundo, eu já estava irremediavelmente perdida.