— O tempo não parou (só mudou de lugar)

785 Words
Quatro anos se passaram. Não de uma vez. Não de forma bonita. Vieram em blocos silenciosos, em dias iguais, em rotinas que não faziam barulho suficiente para chamar de vida — mas também não eram morte. Isabela Duarte sobreviveu a eles. Não voltou para a faculdade. Não saiu para festas. Não reconstruiu círculos de amizade. Mas voltou a acordar cedo. Voltou a trabalhar. Voltou a ajudar a mãe em casa. E isso, para a mãe, já era tudo. Isabela arrumava a cama todas as manhãs, mesmo quando estava cansada. Lavava a louça antes de sair. Deixava o almoço encaminhado quando podia. Pequenos gestos. Coisas simples. Mas que diziam, sem palavras: eu ainda estou aqui. Ela conseguiu um emprego simples. Não era o que sonhou, mas pagava as contas. O salário entrava todo mês. A rotina dava uma estrutura que a mente precisava. Isabela não amava aquele trabalho, mas ele lhe dava algo essencial: normalidade. E normalidade, depois do caos, era um tipo de paz. Aos poucos, o brilho foi voltando. Não o brilho ingênuo de antes — aquele tinha morrido. Mas um carisma mais contido, mais discreto. Isabela voltou a sorrir para a mãe. Voltou a comentar coisas do dia. Voltou a existir dentro de casa. A mãe observava tudo com cuidado, como quem vê uma flor brotar depois de um inverno longo demais. — Só de te ver assim… — dizia às vezes, emocionada. — Já vale tudo. Isabela não discutia. Sabia que, para a mãe, aquilo era vitória. Ela não falava do passado. Não falava da faculdade. Não falava de Lucas. Algumas dores ficam quietas para continuar suportáveis. Isabela vivia em um mundo pequeno, mas seguro. Trabalho, casa, mercado, silêncio. Não saía à noite. Não criava laços. Não se permitia expectativas. Era uma forma de autoproteção que ninguém via, mas que funcionava. Até o dia em que o passado resolveu gritar. Era uma noite comum. Isabela estava sentada no sofá, mexendo no celular sem atenção, enquanto a mãe assistia televisão. Um deslizar automático de dedo. Uma postagem qualquer. Outra. Então, a imagem apareceu. Um grupo de rapazes, de beca, sorrindo. Braços jogados uns sobre os ombros dos outros. Legenda comemorativa. Algo sobre conquistas, sonhos realizados, futuro. E no meio deles… Lucas. O coração de Isabela parou por um segundo inteiro. Ela ampliou a imagem. Como se precisasse ter certeza. Como se o cérebro estivesse se recusando a aceitar o que os olhos já tinham entendido. Era ele. Mais velho. Mais confiante. Sorrindo como quem venceu. Formatura em Finanças. A faca entrou sem aviso. Isabela sentiu o ar desaparecer dos pulmões. O peito apertou com uma força que ela não sentia há anos. Não era ciúme. Não era saudade. Era algo mais profundo e c***l. Era a lembrança. Do que foi tirado dela. Do que ela não viveu. Do caminho que foi interrompido sem escolha. O mundo continuou girando. O som da televisão seguia normal. A mãe comentava algo sobre a novela. Mas Isabela estava presa naquele momento, naquela imagem. Lucas tinha se formado. Ela, não. O homem que destruiu sua vida acadêmica estava ali, celebrando exatamente aquilo que lhe foi arrancado. E ninguém naquela foto sabia — ou se importava — com o preço que Isabela pagou para que ele estivesse ali sorrindo. Ela bloqueou a tela do celular com força. — Filha? — a mãe chamou, percebendo o silêncio repentino. Isabela respirou fundo antes de responder. — Nada, mãe. Só… cansaço. Não era mentira. Mas não era toda a verdade. Naquela noite, Isabela demorou a dormir. Não chorou. Não entrou em crise. A dor era mais madura agora. Mais silenciosa. Mais pesada. Ela encarou o teto por longos minutos, lembrando da menina que entrou na faculdade cheia de planos. Lembrando do caderno com o nome escrito na capa. Lembrando de quem ela poderia ter sido. E, pela primeira vez em muito tempo, uma pergunta surgiu com força suficiente para não ser ignorada: E se eu tivesse continuado? Não como culpa. Mas como possibilidade. Isabela não estava quebrada como antes. Estava inteira o suficiente para sentir indignação. E isso era novo. Porque indignação exige força. Ela pensou na mãe. No orgulho silencioso que sempre existiu. No apoio incondicional. No sonho que nunca foi abandonado, apenas adiado. Lucas seguiu. O mundo seguiu. Talvez estivesse na hora de Isabela seguir também. Ela não decidiu nada naquela noite. Mas algo mudou. Uma engrenagem interna começou a se mover. Devagar. Com medo. Mas viva. A publicação ainda estava ali, congelada no tempo. Mas Isabela já não era a mesma mulher que perdeu tudo. E, mesmo sem saber como, começou a sentir que talvez — só talvez — sua história ainda tivesse capítulos que não tinham sido escritos.
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