Ecos de um passado

833 Words
Capítulo 37 — Ecos de um Passado Dois dias passaram. A rotina na mansão de Augusto Moreira tornou-se cada vez mais intensa. Os funcionários andavam de um lado para o outro. Os jardineiros preparavam os jardins. Os cozinheiros experimentavam novos pratos. Decoradores chegavam com flores, peças de cristal e toalhas luxuosas. A grande receção aproximava-se. --- Clara levantou-se antes das seis da manhã. Vestiu o uniforme cuidadosamente. Prendeu o cabelo num coque simples. Olhou para o espelho por alguns segundos. Ainda havia tristeza nos seus olhos. Mas agora também havia determinação. — Vamos começar mais um dia... sussurrou para si mesma. --- Assim que chegou à cozinha, Helena já distribuía tarefas. — Atenção, todos! Os funcionários pararam para ouvi-la. — Daqui a dois dias teremos a maior receção do ano. — O patrão receberá convidados muito importantes. — Quero tudo impecável. Ninguém pode cometer erros. Todos responderam em uníssono: — Sim, senhora Helena! A governanta olhou para Clara. — Clara. — Hoje vais ajudar na limpeza do salão principal. — Depois vais organizar os quartos destinados aos convidados. — Está bem. --- Durante horas, Clara limpou enormes lustres de cristal, mesas de madeira nobre e janelas que davam para os jardins. Enquanto trabalhava, observava discretamente a movimentação da casa. Seguranças por toda a parte. Carros de luxo a entrar e a sair. Empregados sempre ocupados. Era uma mansão tão protegida quanto aquela onde vivera durante um ano. A diferença... era que agora ela fazia parte da equipa de funcionários. --- Enquanto dobrava toalhas na sala de jantar, uma colega aproximou-se. Era Sofia, a mesma jovem que a tinha levado até ali. — Estás a adaptar-te bem? Clara sorriu. — Sim. Muito melhor do que esperava. Sofia sorriu. — Fico feliz. Pausa. — Sabes... a senhora Helena nunca elogia ninguém. Se ela gostou do teu trabalho... é porque realmente trabalhas bem. Clara sorriu, um pouco envergonhada. — Obrigada. --- Enquanto isso... no escritório do último piso... Augusto Moreira analisava alguns documentos. Um dos seus homens entrou. — Senhor. — Todos os preparativos estão praticamente concluídos. Augusto assentiu. — E os funcionários novos? — Algum problema? — Nenhum. — Há uma jovem chamada Clara. — A governanta está muito satisfeita com ela. Augusto apenas respondeu: — Ótimo. Que continue. Mais uma vez... o nome não lhe dizia absolutamente nada. --- Ao final da manhã... Clara recebeu uma nova tarefa. — Helena chamou-te. Ela foi imediatamente. — Sim, senhora Helena? A governanta entregou-lhe uma lista. — Preciso que leves estes lençóis limpos para a ala privada. — Mas lembra-te... não entras em nenhum escritório. — Apenas deixas tudo onde eu indicar. — Está bem. --- As duas caminharam pelos corredores. Quanto mais avançavam... mais silenciosa a casa ficava. Aquela parte da mansão era diferente. Muito mais reservada. Helena abriu uma porta. — Deixa tudo aqui. Clara entrou apenas o suficiente para pousar os lençóis sobre uma mesa. Enquanto saía, ouviu vozes ao fundo do corredor. Homens discutiam assuntos de negócios. Ela não prestou atenção. Limitou-se a sair e fechar a porta. Helena observou-a. Percebeu que Clara era realmente discreta. Isso agradou-lhe. --- Na hora do almoço... Os funcionários reuniram-se na sala de refeições. Sofia sentou-se ao lado de Clara. — Já encontraste apartamento? Clara abanou a cabeça. — Ainda não. — Mas agora não tenho tanta pressa. Como posso dormir aqui... consigo guardar dinheiro. Sofia sorriu. — Fazes bem. Clara baixou os olhos por um instante. — Quero construir uma vida estável. Mesmo que demore. Sofia assentiu. Sem imaginar o verdadeiro motivo daquela necessidade. --- Na Mansão do Norte... Marco entrou no escritório. Leonardo estava diante da janela. — Temos novidades. Leonardo virou-se imediatamente. — O quê? — Ela parece estar a adaptar-se muito bem. — Os funcionários gostam dela. — A governanta também. Leonardo fechou os olhos por um breve instante. Era um alívio saber que Clara estava a ser bem tratada. Mas continuava no pior lugar possível. Marco continuou: — Ainda não foi reconhecida. — Pelo menos até agora. Leonardo respondeu em voz baixa: — Espero que continue assim. --- Ao mesmo tempo... num dos corredores da mansão de Augusto... Clara terminava de limpar uma mesa quando um pequeno porta-retratos caiu ao chão. Ela apanhou-o imediatamente. O vidro não partira. Dentro da moldura havia uma fotografia. Mostrava Augusto ao lado de vários homens. Entre eles... Clara reconheceu um rosto. Não sabia de onde. Mas tinha a certeza de que já o tinha visto antes. Franziu ligeiramente a testa. — Estranho... Antes que pudesse pensar melhor... Helena apareceu. — Clara. Ela colocou imediatamente a fotografia no lugar. — Desculpe. Estava só a limpar. — Não há problema. Vamos. Ainda temos muito trabalho. Clara assentiu. Mas, enquanto caminhava pelo corredor... aquela imagem continuava na sua cabeça. Ela ainda não conseguia lembrar-se. Mas aquele rosto... de alguma forma... pertencia ao seu passado recente. Sem perceber... Clara acabava de dar o primeiro passo para descobrir que a mansão onde trabalhava escondia muito mais do que um simples emprego.
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