Capítulo 17
Maria Júlia (Maju) narrando
Assim que cheguei em casa, comecei a guardar as compras.
Pela primeira vez em muito tempo, a cozinha parecia ter comida de verdade.
Não era luxo.
Não tinha nada demais ali.
Mas ver as frutas, o leite, o arroz, o feijão e as coisas que a Luiza gostava dentro dos armários me deu uma sensação estranha de alívio.
Separei algumas frutas e preparei uma salada para ela.
Também fiz uma gelatina e coloquei na geladeira.
Sabia que, quando minha irmã chegasse da creche, ficaria feliz.
Depois subi para o quarto.
Tomei um banho demorado e lavei meus cabelos com o shampoo que tinha comprado.
Fazia tempo que eu não tinha um produto decente para cuidar deles.
Até aquilo tinha virado luxo dentro da minha casa.
Vesti uma calça confortável, uma blusa simples e calcei meu tênis.
Quando olhei para o relógio, já passava das quatro da tarde.
Eu precisava buscar a Luiza.
Peguei minha bolsa e saí.
Mesmo depois de tudo que tinha acontecido, uma parte de mim ainda esperava encontrar meu pai em casa quando voltasse.
Mas eu já começava a aceitar que talvez ele não aparecesse tão cedo.
Desci pelas vielas em direção à creche.
O lugar ficava mais afastado da entrada do morro e era considerado uma das áreas mais tranquilas para as crianças.
No caminho, percebi novamente alguns olhares.
Duas mulheres pararam de conversar quando passei.
Um grupo de rapazes me observou por alguns segundos.
Eu já sabia o motivo.
O morro inteiro tinha uma versão sobre mim.
E nenhuma delas era verdadeira.
Continuei andando até ouvir uma voz atrás de mim.
— Marmita.
Parei.
Virei devagar.
Era uma mulher que eu conhecia de vista.
Ela estava encostada em uma parede, com os braços cruzados e uma expressão nada amigável.
— É comigo?
Ela soltou uma risada debochada.
— Você sabe que é.
Franzi a testa.
— Então fala logo.
Ela se aproximou.
— Se afasta do Terror.
Meu coração acelerou.
— Eu não tenho nada com ele.
— Todo mundo sabe que você tem.
— Todo mundo pode falar o que quiser.
Ela me encarou de cima a baixo.
— Escuta bem, garota.
Não sei o que você fez para chamar a atenção dele, mas não pensa que vai ficar por cima de mim.
Respirei fundo.
Eu não tinha tempo para aquilo.
— Eu preciso buscar minha irmã.
Tentei passar.
Ela segurou meu braço.
Puxei imediatamente.
— Não encosta em mim.
Seu olhar ficou ainda mais irritado.
— Você está avisada.
— E você também.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Se tem algum problema com o Terror, resolve com ele.
Ela ficou alguns segundos me encarando.
Depois soltou meu braço.
— Isso ainda não acabou.
Não respondi.
Continuei meu caminho sem olhar para trás.
Meu coração estava acelerado, mas eu não deixaria aquela mulher perceber.
Cheguei à creche poucos minutos depois.
Assim que a Luiza me viu, correu na minha direção.
— irmã.
Abaixei e a abracei.
— Oi, minha princesa.
Ela segurou minha mão.
— Você trouxe alguma coisa?
Sorri.
— Talvez.
Os olhos dela brilharam.
— O quê?
— Chegando em casa você descobre.
Ela ficou pulando ao meu lado durante todo o caminho.
— O papai já chegou?
A pergunta me pegou desprevenida.
Olhei para frente.
— Ainda não.
— Ele vai chegar?
— Vai.
Forcei um sorriso.
— Alguma hora ele volta.
Luiza ficou alguns segundos em silêncio.
— E a mamãe?
Meu peito apertou.
— Também não sei.
Ela abaixou a cabeça.
— Eu queria todo mundo em casa.
Passei a mão em seus cabelos.
— Eu sei.
Foi quando ouvimos uma voz conhecida.
— Maju!
Olhei para o lado.
Diego vinha empurrando o carrinho de sorvete.
Assim que viu a Luiza, abriu um sorriso.
— Olha quem apareceu.
Ela soltou minha mão.
— Tio Diego!
Ele pegou um sorvete e entregou para ela.
— Chocolate, como sempre.
Luiza abriu um sorriso enorme.
— Obrigada!
— E o seu, Maju?
— Não, obrigada.
Ele me observou por alguns segundos.
— Tem certeza?
Assenti.
— Tenho.
Diego ficou sério.
— Você está bem?
— Estou.
— Tem certeza?
Olhei rapidamente para os lados.
Algumas pessoas observavam.
Eu sabia exatamente o que ele queria perguntar.
— Estou só cansada.
Ele respirou fundo.
— Maju...
— Eu preciso ir.
Ele segurou o carrinho.
— Eu ouvi umas coisas por aí.
Meu estômago apertou.
— Não dá atenção.
— Estão dizendo que você está com o Terror.
Olhei para ele.
— Eu falei pra não dá atenção.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Se você estiver precisando de dinheiro, podia ter falado comigo.
Não tenho muito, mas...
— Eu sei.
Interrompi antes que terminasse.
— Obrigada.
Mas eu preciso ir.
Peguei a mão da Luiza.
— Vamos.
— Tchau, tio Diego!
— Tchau, pequena.
Ele olhou para mim.
— Se cuida.
Assenti.
— Você também.
Apertei a mão da minha irmã e comecei a subir.
— irmã...
— Oi?
— Quem é Terror?
Meu coração apertou.
— Ninguém que você precise conhecer.
Ela pareceu aceitar a resposta.
Quando chegamos em casa, abri a porta e parei imediatamente.
Meu pai estava sentado no sofá.
Por alguns segundos, fiquei sem reação.
Depois Luiza correu.
— Papai!
Ela tentou abraçá-lo.
Ele apenas afastou o braço.
— Sai.
O sorriso dela desapareceu.
Meu sangue ferveu.
— Não fala assim com ela.
Ele levantou os olhos.
— Agora você virou dona da casa?
— Não.
Só quero que respeite sua filha.
Ele riu.
— Você fala como se fosse mãe dela.
— Alguém precisa ser.
O olhar dele endureceu.
— Cuidado, Maju.
Eu estava cansada.
Cansada de pagar pelas escolhas dele.
Cansada de proteger a Luiza.
Cansada de ter medo.
— Onde você estava?
Ele desviou o olhar.
— Não é da sua conta.
— Ficou dois dias fora.
A Luiza perguntou por você.
Ele deu de ombros.
— Problema dela.
Aquilo foi o suficiente.
— Você não tem vergonha?
Ele levantou rapidamente.
— Não começa.
— Não.
Eu vou começar, sim.
Você deixou essa família sem comida.
Fez dívida atrás de dívida.
Pegou dinheiro que não era seu.
E ainda desaparece por dois dias como se ninguém tivesse que se preocupar.
Ele veio na minha direção.
— Cala a boca.
Dei um passo para trás.
Mas não abaixei a cabeça.
— Não vou mais.
Ele levantou a mão.
Meu corpo inteiro travou.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, um rádio preso na cintura dele — provavelmente deixado ali por algum motivo — chiou do lado de fora.
Uma voz masculina chamou pelo meu pai.
Ele olhou para a porta.
Depois para mim.
— Isso ainda não acabou.
Virou as costas e saiu.
Fiquei alguns segundos parada.
Luiza segurou minha mão.
— Maju...
Abaixei imediatamente.
— Oi, meu amor.
— Você está triste?
Sorri.
— Só estou cansada.
Ela me abraçou.
Apertei minha irmã contra o peito.
E naquele momento eu entendi uma coisa.
Meu pai podia continuar destruindo a própria vida.
Mas eu não permitiria que ele destruísse a dela.
Subi com a Luiza para o quarto.
Dei banho nela.
Depois coloquei a salada de frutas e a gelatina que tinha preparado sobre a mesa.
Os olhos dela brilharam.
— Você fez tudo isso para mim?
Sorri.
— Fiz.
Ela me abraçou pela cintura.
— Você é a melhor irmã do mundo.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Talvez eu não pudesse escolher a vida que tinha.
Talvez não pudesse escolher as regras do Terror.
Talvez nem pudesse decidir para onde ir.
Mas ainda podia escolher uma coisa.
Continuar protegendo a Luiza.
E eu faria isso até o último pedaço de força que tivesse.