Capítulo 19
Marcos (Terror) narrando
A boca estava mais movimentada do que de costume naquela tarde.
Eu estava sentado atrás da mesa, com alguns cadernos abertos e uma pilha de anotações espalhada na minha frente. Desde cedo vinha conferindo entrada, saída, valores e tudo que passava pelas minhas mãos, porque alguma coisa não estava fechando.
E quando os números não batiam, alguém estava mentindo.
Passei os dedos pelo papel mais uma vez, fazendo a conta de cabeça.
— Essa p***a não tá certa.
Joguei a caneta sobre a mesa.
Foi quando PH apareceu na porta.
— Posso entrar?
— Já entrou.
Ele riu e puxou uma cadeira.
— Encontrei a Cecília.
— E?
— Estava com a Maju e a irmã dela na pracinha.
Levantei os olhos.
— Ela falou alguma coisa sobre hoje à noite?
— Falou que não sabia de baile nenhum.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Então ela vai saber.
PH me encarou.
— Você realmente vai levar essa garota?
— Vou.
— Ela disse que não quer ir.
Soltei uma risada curta.
— Eu não perguntei se ela quer.
Fechei o caderno que estava na minha frente e puxei outro.
— Tem coisa mais importante acontecendo aqui.
PH se inclinou sobre a mesa.
— O que foi?
Empurrei algumas folhas na direção dele.
— O dinheiro não está fechando.
Ele começou a analisar os números.
— Quanto?
— O suficiente para eu saber que não é erro de conta.
Ele levantou os olhos.
— Alguém está desviando?
— É o que eu quero descobrir.
PH ficou sério.
— Já falou com o Sorriso.
— Ainda não.
— Você confia nele.
— Confio.
Fiz uma pausa.
— Mas confiança não significa fechar os olhos.
Ele assentiu lentamente.
— Tem muita gente devendo.
— Eu sei.
— Talvez parte do dinheiro esteja nisso.
Balancei a cabeça.
— Não explica tudo.
Apontei para os papéis.
— Olha esses valores. Tem mercadoria saindo, dinheiro entrando e uma parte simplesmente desaparecendo.
PH ficou alguns segundos em silêncio.
— Então alguém está metendo a mão.
— Exatamente.
Fechei o caderno.
— E eu quero descobrir quem é antes que esse alguém ache que pode continuar fazendo isso.
Levantei da cadeira e caminhei até a entrada da boca.
O movimento seguia normal.
Gente entrando.
Gente saindo.
Homens trabalhando.
Moradores passando pela rua.
Tudo parecia tranquilo.
E era justamente isso que me incomodava.
Quando alguém rouba de dentro, não precisa criar confusão.
Só precisa saber onde ninguém está olhando.
— Começa a observar os vapores — falei.
— Todos?
— Todos.
— Até os mais antigos?
Olhei para ele.
— Principalmente eles.
PH ficou ao meu lado.
— E o sorriso?
— Continua trabalhando normalmente.
— Mesmo com essa história?
— Quero ver se alguém muda o comportamento depois que perceber que estamos procurando.
Ele entendeu.
— Você quer pegar no erro.
— Quero pegar na mentira.
Fiquei alguns segundos observando o movimento da rua.
Até que meus olhos encontraram uma figura que eu já conhecia.
Diego.
O sorveteiro.
Ele passava empurrando o carrinho pela rua.
Parei de andar.
— Aquele cara.
PH acompanhou meu olhar.
— O Diego?
— Ele mesmo.
— O que tem?
— Quero saber onde ele anda depois que termina o trabalho.
PH soltou uma risada.
— Você ainda tá nessa?
Virei o rosto lentamente.
— Nessa o quê?
— Com o sorveteiro.
— Não estou em nada.
— Então por que está tão interessado nele?
Acendi um cigarro.
— Porque eu não gosto de gente que circula demais sem ninguém saber exatamente por onde.
— Ele vende sorvete.
— E?
— Você tá procurando problema onde não existe.
Dei uma tragada.
— Talvez.
Mas eu tinha aprendido há muito tempo que problema quase nunca aparecia avisando que era problema.
PH balançou a cabeça.
— Vou mandar alguém observar.
— Sem chamar atenção.
— Beleza.
Voltei para a mesa.
— E quero saber se ele tem contato com alguém de fora.
— Você acha que ele está envolvido no desfalque?
— Não disse isso.
— Então?
— Disse que quero saber.
Era simples.
Eu não precisava ter certeza para começar a investigar.
Precisava apenas de uma dúvida.
E eu já tinha.
PH se levantou.
— E o baile?
Olhei para o relógio.
— Eu vou buscar a Maju.
— Ela vai reclamar.
— Pode reclamar.
— E se ela não quiser ir?
Sorri de canto.
— Ela vai.
PH riu.
— Você gosta de mandar.
— Não, eu mando.
— Isso eu já percebi.
Ignorei a provocação.
— E a irmã dela?
— A menina?
— Quem mais?
— O pai dela está em casa.
Soltei uma risada sem humor.
— Aquele homem não consegue cuidar nem dele mesma.
PH concordou.
— Então com quem fica a criança?
Pensei por alguns segundos.
— Alguém da sua família.
Ele arregalou os olhos.
— Minha mãe?
— Sua mãe.
— Ela vai me matar.
— Você prefere ela te matar ou eu?
Ele começou a rir.
— Vou conversar com ela.
— Conversa.
Peguei meu boné sobre a mesa.
Antes de sair, olhei novamente para PH.
— E presta atenção em uma coisa.
— Fala.
— Hoje eu quero o morro sabendo que a Maju vai comigo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Pra quê?
Meu olhar endureceu.
— Porque eu não quero homem nenhum achando que pode se aproximar dela.
— Você tá ficando possessivo.
— Estou deixando claro um limite.
— É diferente?
— Muito.
Caminhei até a saída da boca.
— E se alguém esquecer?
PH sorriu.
— Vai lembrar.
— Exatamente.
Desci alguns degraus, mas parei antes de continuar.
Olhei para trás.
— Ah, e outra coisa.
— O quê?
— Continua de olho no Diego.
PH suspirou.
— Ainda nisso?
— Ainda.
— Tá bom, chefe.
Continuei descendo.
O baile aconteceria naquela noite.
Mas, antes disso, eu precisava falar com Maju.
Ela ainda achava que podia decidir quando me obedecer.
Ainda acreditava que podia manter a própria vida separada das minhas regras.
Eu pretendia mostrar que não.
E, depois daquela noite, ninguém mais teria dúvida sobre o lugar que ela ocupava ao meu lado.
Não porque ela tivesse escolhido.
Mas porque eu já tinha decidido.