Capítulo 19

1039 Words
Capítulo 19 Marcos (Terror) narrando A boca estava mais movimentada do que de costume naquela tarde. Eu estava sentado atrás da mesa, com alguns cadernos abertos e uma pilha de anotações espalhada na minha frente. Desde cedo vinha conferindo entrada, saída, valores e tudo que passava pelas minhas mãos, porque alguma coisa não estava fechando. E quando os números não batiam, alguém estava mentindo. Passei os dedos pelo papel mais uma vez, fazendo a conta de cabeça. — Essa p***a não tá certa. Joguei a caneta sobre a mesa. Foi quando PH apareceu na porta. — Posso entrar? — Já entrou. Ele riu e puxou uma cadeira. — Encontrei a Cecília. — E? — Estava com a Maju e a irmã dela na pracinha. Levantei os olhos. — Ela falou alguma coisa sobre hoje à noite? — Falou que não sabia de baile nenhum. Fiquei alguns segundos em silêncio. — Então ela vai saber. PH me encarou. — Você realmente vai levar essa garota? — Vou. — Ela disse que não quer ir. Soltei uma risada curta. — Eu não perguntei se ela quer. Fechei o caderno que estava na minha frente e puxei outro. — Tem coisa mais importante acontecendo aqui. PH se inclinou sobre a mesa. — O que foi? Empurrei algumas folhas na direção dele. — O dinheiro não está fechando. Ele começou a analisar os números. — Quanto? — O suficiente para eu saber que não é erro de conta. Ele levantou os olhos. — Alguém está desviando? — É o que eu quero descobrir. PH ficou sério. — Já falou com o Sorriso. — Ainda não. — Você confia nele. — Confio. Fiz uma pausa. — Mas confiança não significa fechar os olhos. Ele assentiu lentamente. — Tem muita gente devendo. — Eu sei. — Talvez parte do dinheiro esteja nisso. Balancei a cabeça. — Não explica tudo. Apontei para os papéis. — Olha esses valores. Tem mercadoria saindo, dinheiro entrando e uma parte simplesmente desaparecendo. PH ficou alguns segundos em silêncio. — Então alguém está metendo a mão. — Exatamente. Fechei o caderno. — E eu quero descobrir quem é antes que esse alguém ache que pode continuar fazendo isso. Levantei da cadeira e caminhei até a entrada da boca. O movimento seguia normal. Gente entrando. Gente saindo. Homens trabalhando. Moradores passando pela rua. Tudo parecia tranquilo. E era justamente isso que me incomodava. Quando alguém rouba de dentro, não precisa criar confusão. Só precisa saber onde ninguém está olhando. — Começa a observar os vapores — falei. — Todos? — Todos. — Até os mais antigos? Olhei para ele. — Principalmente eles. PH ficou ao meu lado. — E o sorriso? — Continua trabalhando normalmente. — Mesmo com essa história? — Quero ver se alguém muda o comportamento depois que perceber que estamos procurando. Ele entendeu. — Você quer pegar no erro. — Quero pegar na mentira. Fiquei alguns segundos observando o movimento da rua. Até que meus olhos encontraram uma figura que eu já conhecia. Diego. O sorveteiro. Ele passava empurrando o carrinho pela rua. Parei de andar. — Aquele cara. PH acompanhou meu olhar. — O Diego? — Ele mesmo. — O que tem? — Quero saber onde ele anda depois que termina o trabalho. PH soltou uma risada. — Você ainda tá nessa? Virei o rosto lentamente. — Nessa o quê? — Com o sorveteiro. — Não estou em nada. — Então por que está tão interessado nele? Acendi um cigarro. — Porque eu não gosto de gente que circula demais sem ninguém saber exatamente por onde. — Ele vende sorvete. — E? — Você tá procurando problema onde não existe. Dei uma tragada. — Talvez. Mas eu tinha aprendido há muito tempo que problema quase nunca aparecia avisando que era problema. PH balançou a cabeça. — Vou mandar alguém observar. — Sem chamar atenção. — Beleza. Voltei para a mesa. — E quero saber se ele tem contato com alguém de fora. — Você acha que ele está envolvido no desfalque? — Não disse isso. — Então? — Disse que quero saber. Era simples. Eu não precisava ter certeza para começar a investigar. Precisava apenas de uma dúvida. E eu já tinha. PH se levantou. — E o baile? Olhei para o relógio. — Eu vou buscar a Maju. — Ela vai reclamar. — Pode reclamar. — E se ela não quiser ir? Sorri de canto. — Ela vai. PH riu. — Você gosta de mandar. — Não, eu mando. — Isso eu já percebi. Ignorei a provocação. — E a irmã dela? — A menina? — Quem mais? — O pai dela está em casa. Soltei uma risada sem humor. — Aquele homem não consegue cuidar nem dele mesma. PH concordou. — Então com quem fica a criança? Pensei por alguns segundos. — Alguém da sua família. Ele arregalou os olhos. — Minha mãe? — Sua mãe. — Ela vai me matar. — Você prefere ela te matar ou eu? Ele começou a rir. — Vou conversar com ela. — Conversa. Peguei meu boné sobre a mesa. Antes de sair, olhei novamente para PH. — E presta atenção em uma coisa. — Fala. — Hoje eu quero o morro sabendo que a Maju vai comigo. Ele arqueou uma sobrancelha. — Pra quê? Meu olhar endureceu. — Porque eu não quero homem nenhum achando que pode se aproximar dela. — Você tá ficando possessivo. — Estou deixando claro um limite. — É diferente? — Muito. Caminhei até a saída da boca. — E se alguém esquecer? PH sorriu. — Vai lembrar. — Exatamente. Desci alguns degraus, mas parei antes de continuar. Olhei para trás. — Ah, e outra coisa. — O quê? — Continua de olho no Diego. PH suspirou. — Ainda nisso? — Ainda. — Tá bom, chefe. Continuei descendo. O baile aconteceria naquela noite. Mas, antes disso, eu precisava falar com Maju. Ela ainda achava que podia decidir quando me obedecer. Ainda acreditava que podia manter a própria vida separada das minhas regras. Eu pretendia mostrar que não. E, depois daquela noite, ninguém mais teria dúvida sobre o lugar que ela ocupava ao meu lado. Não porque ela tivesse escolhido. Mas porque eu já tinha decidido.
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