Capítulo 10
Marcos (Terror) narrando
A fumaça do baseado subia lentamente enquanto eu observava o movimento do morro pela janela da boca.
Lá de cima eu enxergava praticamente tudo.
Quem entrava.
Quem saía.
Quem conversava demais.
Quem andava olhando para o lado errado.
Era por isso que ninguém fazia nada sem que eu soubesse.
Sobre a minha mesa havia apenas uma garrafa de água, um rádio e uma fotografia já desgastada pelo tempo.
Esther.
Passei o polegar sobre a imagem.
Ela sorria daquele jeito que parecia iluminar qualquer lugar onde estivesse.
Por alguns segundos, todo o barulho do morro desapareceu.
Só existia aquela lembrança.
Flash black on
— Você sabe que isso é loucura.
Ela ria enquanto segurava minha mão.
— Loucura é viver longe de você.
— Meu marido descobre e me mata.
— Então larga ele.
Ela abaixou a cabeça.
— Não é tão simples.
Segurei seu rosto.
— Dentro do meu morro ninguém encosta em você.
Ela sorriu.
— Promete?
— Prometo.
Flash black off
A lembrança desapareceu no instante em que ouvi batidas na porta.
— Entra.
PH apareceu primeiro.
Logo atrás dele vinha Maria Júlia.
Ela entrou olhando para todos os lados, claramente desconfortável por estar ali.
Fechei a gaveta onde guardava a fotografia.
— Pode deixar ela sozinha comigo.
PH hesitou.
— Terror...
— Eu mandei.
Ele apenas assentiu.
— Qualquer coisa, estou lá fora.
Assim que a porta se fechou, o silêncio tomou conta da sala.
Maju permaneceu perto da entrada.
Não deu um passo sequer na minha direção.
Observei cada detalhe.
Os olhos inchados.
O semblante abatido.
Ela parecia não ter dormido.
— Então...
Cruzei os braços.
— Já descobriu que minhas ordens não são brincadeira?
Ela respirou fundo antes de responder.
— Eu só queria comprar comida para minha irmã.
— Tem mercado aqui.
— Aqui tudo custa o dobro.
— Dinheiro não é problema.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Para você.
Para mim é.
Continuei encarando aquela garota.
Mesmo tremendo, ela ainda encontrava coragem para responder.
Pouca gente fazia isso.
— Você perdeu o emprego.
Seu pai afundou a própria família em dívidas.
Tem uma criança para criar.
Mesmo assim ainda insiste em discutir comigo.
Ela ergueu o queixo.
— Porque eu não estou errada.
Sorri de canto.
— Gosto de gente que enfrenta.
Ela não respondeu.
Apenas manteve os olhos fixos nos meus.
— Escuta bem o que eu vou falar.
A partir de hoje você só sai do morro quando eu autorizar.
Se precisar de alguma coisa, pede ao PH ou ao Sorriso.
Eles resolvem.
Ela balançou a cabeça negativamente.
— Eu não vou viver presa.
— Vai enquanto eu quiser.
Ela deu um passo à frente.
— Você não pode controlar a minha vida.
Aproximei-me devagar.
Fiquei a poucos centímetros dela.
— Posso controlar tudo que acontece dentro deste morro.
Inclusive a sua vida.
Ela engoliu em seco.
Mesmo assustada, não abaixou a cabeça.
— Eu vou pagar a dívida.
— Vai.
— Então me deixa trabalhar.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Como eu vou conseguir dinheiro?
— Esse problema é seu.
Respirei fundo antes de continuar.
— O que me interessa é que você cumpra as minhas regras.
Ela apertou as mãos.
— Quais regras?
Levantei um dedo.
— Primeira.
Sem sair do morro sem minha autorização.
Levantei outro.
— Segunda.
Quando eu mandar chamar, você vem.
Terceiro.
— Nada de ficar de conversa com homem nenhum.
Vi o incômodo estampado em seu rosto.
— Você não manda em mim.
— Mando.
— Não manda.
Aproximei ainda mais.
— Experimenta me desafiar para descobrir.
O rádio preso à minha cintura chiou.
Atendi rapidamente.
Era apenas uma atualização sobre a movimentação na entrada da comunidade.
Desliguei e voltei a olhar para ela.
— Pode ir.
Ela pareceu surpresa.
— Só isso?
— Por enquanto.
Ela caminhou até a porta.
Quando colocou a mão na maçaneta, falei sem aumentar o tom de voz.
— Maju.
Ela parou.
— Não testa a minha paciência tentando se crescer para cima de mim.
Porque da próxima vez...
As consequências não serão só para você.
Ela fechou os olhos por um instante.
Sabia exatamente de quem eu estava falando.
A menorzinha.
Sem dizer mais nada, abriu a porta e saiu.
Esperei alguns segundos.
— PH.
Ele entrou imediatamente.
— Ela foi embora.
Assenti.
— Quero dois vapores de olho nela vinte e quatro horas por dia.
— Tem certeza?
— Absoluta.
PH permaneceu em silêncio.
— E outra coisa.
Descobre tudo sobre o sorveteiro amigo dela.
Diego.
Quero saber quem ele é, onde mora e com quem anda.
Ele apenas assentiu.
Quando fiquei sozinho novamente, abri a gaveta e peguei a fotografia da Esther.
Olhei para aquele sorriso pela última vez antes de guardá-la outra vez.
O passado tinha morrido junto com ela.
Agora...
Só existia o Terror.