Capítulo 1

1060 Words
Capítulo 1 Maria Júlia (Maju) narrando Nunca gostei da madrugada. Existe um silêncio estranho quando o morro adormece. As luzes das vielas ficam mais fracas, os cachorros latem para qualquer sombra e o vento parece atravessar as paredes finas da nossa casa. Nessas horas, os problemas fazem mais barulho do que qualquer pessoa. Eu estava exausta. Tinha chegado do trabalho fazia poucas horas, mas bastou fechar os olhos para sentir uma mãozinha pequena balançando meu braço. — Maju... Abri os olhos devagar. — O que foi, meu amor? Luiza fazia um biquinho, esfregando os olhos ainda cheios de sono. — Tô com fome... Quero leite. Meu coração apertou. Olhei para o relógio velho ao lado da cama. Faltavam poucos minutos para meia-noite. — Fica deitadinha. Eu já volto. Ela assentiu, abraçando o ursinho de pelúcia que já estava mais remendado do que inteiro. Passei a mão em seus cabelos e desci as escadas de madeira, que rangiam a cada passo. A casa era simples, pequena e m*l acabada. Tudo ali mostrava que a vida nunca tinha sido fácil para nós. Assim que cheguei à sala, encontrei meu pai largado no sofá. O cheiro de bebida misturado ao de droga tomou conta do ambiente. Fechei os olhos por um segundo. Mais uma vez. Mais uma noite igual. — Pai... Ele abriu um olho com dificuldade. — Chegou tarde... — Cadê o leite? Ele me encarou sem entender. — Que leite? Respirei fundo, tentando manter a calma. — O dinheiro da pensão entrou ontem. O senhor disse que ia comprar as coisas de casa. Ele riu de um jeito que me deu vontade de chorar. — O dinheiro acabou. — Acabou como? — Acabou. Olhei ao redor procurando alguma sacola de mercado. Não havia nada. Nem arroz. Nem pão. Nem uma caixa de leite. Só garrafas vazias espalhadas pelo chão. — O senhor gastou tudo? Ele levantou devagar. — Não começa. — A Luiza está com fome! — Eu falei pra não começar! A voz dele ecoou pela casa. Lá de cima ouvi o choro baixinho da minha irmã. Meu peito queimou de raiva. — Ela só quer uma mamadeira. Ele virou o rosto, como se aquilo não fosse problema dele. Naquele momento, percebi que discutir não colocaria comida na mesa. Peguei minha bolsa. Subi novamente. Luiza me esperava sentada na cama. — Vai demorar? Sorri, mesmo sentindo vontade de desabar. — Não. A gente vai resolver isso. Ela estendeu os braços. Peguei-a no colo e saí de casa. A madrugada estava fria. As vielas quase vazias. Algumas pessoas ainda conversavam nas portas das casas, enquanto outras fingiam não ver quem passava. Segui até a pequena venda da comunidade. Era o único lugar que ainda podia estar aberto. Assim que entrei, seu Valdemir levantou os olhos do caixa. — Boa noite, Maju. — Boa noite. Ele percebeu que eu estava com Luiza no colo. Também percebeu minha expressão. — Veio pagar a conta? Engoli em seco. — Ainda não. Recebo daqui a três dias. Ele suspirou. — Então fica difícil. — Eu só preciso de uma caixa de leite. — Você já está devendo faz tempo. — Eu sei. Mas nunca deixei de pagar. — Pagou uma parte. — E vou pagar o restante. Ele cruzou os braços. — Não posso continuar vendendo fiado. Antes que eu respondesse, Luiza encostou a cabeça no meu ombro. — Maju... eu tô com fome... Aquela frase acabou comigo. Voltei a olhar para seu Valdemir. — É só uma caixa de leite. Ele balançou a cabeça negativamente. — Se eu abrir exceção para você, amanhã faço para todo mundo. Senti meu rosto esquentar. Não era raiva dele. Era vergonha. Vergonha de não conseguir comprar quatro litros de leite para a minha irmã. Naquele instante, a porta da venda abriu. Dois homens entraram conversando baixo. Um deles caminhou até o balcão para pegar algumas mercadorias. O outro permaneceu perto da porta, observando tudo em silêncio. Nem precisei olhar muito para perceber quem era. Paulo Henrique. Todo mundo no morro o conhecia apenas como PH. Ele era um dos homens de confiança do Terror. Enquanto seu Valdemir. registrava as compras, PH olhou discretamente para mim e depois para Luiza. Não disse uma palavra. Seu Valdemir terminou de passar as mercadorias. — Deu cinquenta reais. PH colocou algumas notas sobre o balcão. Antes que o troco fosse entregue, sua voz firme interrompeu o silêncio. — Acrescenta uma caixa de leite. Seu Valdemir franziu a testa. — Ela está devendo. — Eu ouvi. — Então... — Eu disse para acrescentar. O dono da venda ficou alguns segundos em silêncio antes de pegar a caixa fechada. PH empurrou o dinheiro para frente. — Pode colocar na minha conta de hoje. Olhei para ele completamente sem jeito. — Não precisa... Ele finalmente me encarou. — Precisa, sim. Balancei a cabeça. — Eu devolvo esse dinheiro. — Quando puder. Não havia deboche na voz dele. Nem pena. Só uma tranquilidade que me deixou ainda mais constrangida. Um rapaz que estava do lado de fora entrou na venda. PH fez um gesto discreto. — Ajuda ela a levar. O rapaz pegou a caixa sem reclamar. Abaixei a cabeça. — Obrigada. PH apenas fez um leve movimento com a cabeça antes de voltar a conversar com seu Valdemir, como se aquilo não tivesse importância. Saí da venda segurando a mão da Luiza. Ela olhava para a caixa de leite como se fosse o maior presente do mundo. — Agora vai ter mamadeira? Sorri pela primeira vez naquela noite. — Vai, meu amor. Ela apertou minha mão. — Eu sabia que você ia conseguir. As palavras dela aqueceram meu coração, mas também aumentaram o peso que eu carregava. Porque eu não tinha conseguido sozinha. Quando cheguei em casa, o rapaz deixou a caixa na cozinha e foi embora sem dizer nada. Meu pai continuava desacordado no sofá. Passei por ele como se fosse um estranho. Esquentei o leite. Preparei a mamadeira. Subi para o quarto. Luiza bebeu tudo em silêncio e, poucos minutos depois, adormeceu abraçada em mim. Esperei sua respiração ficar tranquila. Então deixei que as lágrimas, que segurei a noite inteira, finalmente escorressem pelo meu rosto. Naquela madrugada, eu fiz uma promessa para mim mesma. Um dia, eu daria uma vida digna para a Luiza. E nunca mais permitiria que ela dormisse com fome.
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