Capítulo 12

644 Words
Capítulo 12 Cecília narrando Eu estava no salão terminando de fazer as unhas quando a porta abriu com força. Carla entrou como um furacão, jogando a bolsa em uma cadeira. — Judite, me atende logo porque hoje eu tô sem paciência. — O que aconteceu? — Judite perguntou, sem parar o que fazia. Carla soltou uma risada debochada. — Pergunta pra Cecília. Ela deve gostar mais da fofoca do que eu. Revirei os olhos. — Fala logo o que você quer. Ela cruzou os braços. — Sua amiguinha. Meu cenho franziu. — Que amiguinha? — A Maria Júlia. Meu coração acelerou. — O que tem a Maju? Carla abriu um sorriso venenoso. — Tá dando pro Terror. O salão inteiro ficou em silêncio. Por alguns segundos, achei que tivesse escutado errado. Depois comecei a rir. — Você enlouqueceu. — Ri agora. O morro inteiro tá comentando. — Mentira. — Ele foi visto entrando na casa dela ontem. Hoje ela saiu da boca. Os vapores já receberam ordem pra nenhum homem chegar perto dela. Meu sorriso desapareceu. — Cala a boca. — O Terror disse que ela é mulher dele. Judite levantou os olhos. — O povo realmente só fala disso desde cedo. Senti um frio percorrer minha espinha. Não. Aquilo não fazia sentido. A Maju jamais faria isso. Ela sempre fugiu de qualquer homem. Nunca deixou ninguém sequer encostar nela. — Você tá inventando essa história. Carla deu de ombros. — Acredita no que você quiser. Saí do salão sem esperar ouvir mais nada. Atravessei as vielas praticamente correndo. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca. Quando cheguei à casa da Maju, a porta estava aberta. Entrei sem bater. — Maju! Nenhuma resposta. Subi as escadas correndo. Encontrei minha amiga sentada na cama, olhando para o nada. Ela nem percebeu minha chegada. — Maju... Ela levantou os olhos lentamente. Sorriu. Mas aquele sorriso... Não era o sorriso dela. — Oi... Aproximei-me da cama. — O que tá acontecendo? — Nada. — Não mente pra mim. Ela desviou o olhar. Sentei ao seu lado. — O morro inteiro tá falando de você. Ela ficou imóvel. Nem surpresa demonstrou. Aquilo me assustou ainda mais. — Estão dizendo que você tá com o Terror. O silêncio tomou conta do quarto. Ela respirou fundo. Demorou vários segundos antes de responder. — Deixa falarem. Meu coração apertou. — Maju... Ela continuava olhando para o chão. — É verdade? Ela fechou os olhos por um instante. Quando voltou a me olhar, parecia estar escolhendo cada palavra. — É melhor que todo mundo pense isso. Franzi a testa. — Como assim? — Só... deixa pra lá. Segurei suas mãos. Estavam geladas. — Você tá me assustando. Ela forçou um sorriso. — Eu tô bem. — Não tá. — Tô, sim. — Você nunca mentiu pra mim. Ela abaixou a cabeça. — Algumas mentiras protegem as pessoas. Senti um nó na garganta. — Me protege de quê? Ela ficou em silêncio. Então mudou completamente de assunto. — A Luiza já deve estar saindo da escola. Olhei para ela sem acreditar. — Você tá fugindo da conversa. — Eu preciso buscar minha irmã. Levantei da cama. — O Terror fez alguma coisa? Ela congelou por um segundo. Depois respirou fundo. — Não. Foi rápida demais. Automática demais. Uma resposta pronta. Eu conhecia a Maju desde criança. Ela estava mentindo. Mas também percebi outra coisa. Ela estava com medo. Muito medo. Aquele medo que faz uma pessoa esconder a verdade para proteger quem ama. Aproximei-me outra vez. Abraçando-a com força. Ela demorou alguns segundos... Mas acabou retribuindo. E foi nesse momento que senti. Seu corpo inteiro tremia. Não perguntei mais nada. Só a abracei. Porque, pela primeira vez desde que a conhecia... Eu tive a sensação de que minha melhor amiga estava pedindo socorro. Mesmo sem dizer uma única palavra.
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