Capítulo 14

839 Words
Capítulo 14 Maria Júlia (Maju) narrando Assim que o vapor foi embora, subi correndo para o quarto da Luiza. Ela dormia profundamente, abraçada ao coelhinho de pelúcia que meu pai havia dado no último aniversário. Acariciei seus cabelos devagar. — Dorme, meu amor... por favor, continua dormindo. Fechei bem a janela, conferi se a porta do quarto estava trancada e liguei o ventilador na velocidade mais alta. O barulho constante talvez abafasse qualquer conversa que acontecesse lá embaixo. Ou qualquer grito. Meu peito apertou só de pensar nisso. Respirei fundo e desci as escadas. Quando coloquei os pés na sala, a porta já estava aberta. O Terror entrou sem pedir licença, como se aquela casa também pertencesse a ele. Vestia uma bermuda escura, uma corrente grossa no pescoço e carregava um baseado entre os dedos. Seu olhar percorreu toda a sala. Depois parou em mim. — Tá olhando o quê? Não respondi. — Tô com fome. Arruma alguma coisa pra eu comer. Engoli seco. — Eu... eu só tenho arroz, para fazer um carreteiro. — Então faz. — É a comida da minha irmã. Ele arqueou uma sobrancelha. — Você não foi fazer as compras que eu mandei? Balancei a cabeça negativamente. — Não. — Por quê? — Porque eu não vou usar o seu dinheiro. O silêncio tomou conta da sala. Ele caminhou devagar até ficar na minha frente. — Repete. Respirei fundo. — Eu não quero nada que venha de você. Por alguns segundos achei que ele fosse me bater. Mas, em vez disso, ele abriu um sorriso pequeno. Um sorriso frio. Enfiou a mão no bolso e tirou duas notas de cem reais. Jogou o dinheiro sobre a mesa. — Agora vai. — Meu pai pegou o dinheiro que eu tinha. Levou até meu último salário. Ele olhou para o dinheiro espalhado sobre a mesa. Depois voltou a me encarar. — Então usa o meu. — Não. Seu maxilar travou. — Você tá confundindo as coisas. Isso aqui não é um favor. É uma ordem. Pegou as notas novamente e enfiou no bolso da minha blusa. — Sobe no mercado. Compra comida. E traz cerveja. Cinco latas. Da mais cara. Olhei para a escada. — A Luiza... — Tá dormindo. — Ela pode acordar. — Eu fico aqui. Meu coração acelerou. — Ela tem medo de estranhos. Ele deu um passo à frente. — Você acha mesmo que eu faria alguma coisa com uma criança? Não respondi. Porque eu já não sabia do que aquele homem era capaz. — Vai. Antes que eu perca a paciência. Peguei uma sacola reutilizável e saí praticamente correndo. Durante todo o caminho até o mercadinho, minha cabeça permaneceu dentro daquela casa. A única coisa que eu queria era voltar o mais rápido possível. Peguei arroz, óleo, macarrão, leite, alguns legumes, um pacote de bolacha que a Luiza gostava e as cinco latas de cerveja. Quando coloquei tudo sobre o balcão, seu Valdemir levantou os olhos lentamente. Sorriu de lado. — Veio comprar à vista hoje? Não respondi. Ele começou a registrar as compras. — Parece que a vida melhorou. Continuei em silêncio. — Agora tá andando com o homem mais poderoso do morro... ...dinheiro não deve faltar. Respirei fundo. — Quanto deu? — 110 reais. Entreguei a nota. Enquanto separava o troco, ele deu outra risada. — Se eu soubesse que você gostava desse tipo de acordo... ...tinha resolvido sua dívida do leite faz tempo. Senti meu rosto queimar de vergonha. Peguei o troco sem olhar para ele. — Boa noite. Saí dali antes que as lágrimas aparecessem. Quando entrei novamente em casa, encontrei o Terror completamente à vontade. Estava sentado no sofá. Os pés apoiados sobre a mesa de centro. Meu olhar ficou preso nele. Passei direto. Guardei as compras e comecei a preparar a comida. O silêncio era sufocante. O único som vinha da televisão ligada em um jogo qualquer. Depois ouvi o clique do isqueiro. Em seguida, o cheiro forte de maconha invadiu a casa inteira. Olhei imediatamente para a escada. Sem fazer barulho, abri um pouco a janela da cozinha para a fumaça sair. Não queria que a Luiza respirasse aquilo. Enquanto o arroz terminava de cozinhar, preparei um frango ensopado com o pouco tempero que ainda havia. Arrumei tudo em um prato. Respirei fundo. — A comida está pronta. Ele nem desviou os olhos da televisão. — Ainda não tá na minha mão. Levei o prato até ele. Sem agradecer. Sem sequer olhar para mim. Começou a comer como se estivesse na própria casa. De vez em quando estendia a mão para a cerveja. Eu apenas abria outra lata. Quando terminou, entregou o prato vazio. Levei para a pia. Lavei tudo imediatamente. Sequei as mãos no pano de prato. Quando me virei... ...ele estava me observando. Em silêncio. Sem desviar os olhos. Meu coração começou a bater cada vez mais rápido. Aquele olhar... Nunca significava coisa boa. — O que você quer? — Você tira a roupa. — Ele fala e eu arregalo os olhos.
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