O PREÇO DA DIGNIDADE

1685 Words
O elevador da Black Industries não subia; ele disparava. O visor digital marcava os andares com uma velocidade que fazia o estômago de Maya Solano dar voltas, ou talvez fosse apenas a fome de doze horas e o café barato do hospital. Quando as portas de aço escovado se abriram silenciosamente no 60º andar, o ar mudou. Não era mais o oxigênio viciado das ruas de Nova York; era um ar filtrado, frio e que cheirava a notas de cem dólares e poder absoluto. Maya caminhou sobre o tapete de seda persa que abafava seus passos. Ela se sentia uma intrusa, uma mancha de pobreza em um templo de mármore. O currículo em suas mãos parecia um pedaço de lixo diante da opulência das obras de arte abstratas nas paredes. — Ele a receberá agora. — A secretária, uma mulher cuja pele parecia ter sido polida por diamantes, nem sequer olhou para ela. — Não o faça perder tempo. Tempo é a única coisa que Zion Black não pode comprar de volta. Maya respirou fundo e empurrou as portas de ébano. O escritório era vasto, uma catedral de vidro e aço voltada para o horizonte. Zion Black estava parado diante da janela, de costas. Ele não usava o paletó do terno de três peças, apenas o colete e uma camisa de seda preta que delineava os ombros largos e a postura de um predador que nunca precisou fugir de nada. — Você está trinta segundos atrasada, Srta. Solano — a voz dele cortou o silêncio. Era profunda, vibrante, com uma cadência que denotava alguém acostumado a dar ordens que o mundo obedecia. — O metrô... houve um problema na linha azul — Maya tentou justificar, odiando como sua voz soou pequena naquele espaço. Zion finalmente se virou. O impacto foi físico. Ele tinha um rosto esculpido com ângulos letais e olhos tão escuros quanto o abismo que ele chamava de império. Ele não olhou para o currículo na mesa. Ele olhou para ela. Foi uma análise lenta, despida de qualquer cortesia, que fez Maya sentir como se ele pudesse ver as faturas vencidas em sua bolsa e o desespero gritando em suas células. — Eu não me importo com o metrô. Eu não me importo com as desculpas dos medíocres — ele disse, caminhando lentamente em direção à mesa, cada passo exalando uma autoridade sufocante. — Eu sei por que você está aqui. Eu sei sobre a sua mãe no Hospital St. Jude. Sei que a conta dela ultrapassou os seis dígitos e que os médicos estão prontos para desligar os aparelhos amanhã ao meio-dia. Maya sentiu o sangue fugir de seu rosto. As unhas cravaram-se na palma das mãos. — Como você... quem te deu o direito de investigar minha vida privada? Zion soltou um riso curto e seco, sem qualquer humor. Ele sentou-se na poltrona de couro e inclinou-se para frente, entrelaçando os dedos longos. — O meu dinheiro me dá o direito. Eu não contrato funcionários, Srta. Solano. Eu compro ativos. E agora, você é um ativo em queda livre no mercado. Você precisa de meio milhão para a cirurgia e o pós-operatório. Eu posso transferir esse valor agora. Antes de você sair desta sala. A esperança brilhou nos olhos de Maya, uma luz perigosa e c***l. — O que eu preciso fazer? Qual a vaga? Zion a observou em silêncio por um momento que pareceu uma eternidade. O olhar dele desceu pelo pescoço dela, parando no decote modesto do vestido de brechó. Um sorriso de canto de boca, puramente malicioso, surgiu em seus lábios. — Eu não preciso de uma secretária. Eu tenho máquinas para isso. Eu preciso de diversão. — Ele apontou para o centro do escritório. — Tire a roupa. Fique ali, no centro da minha visão, e talvez eu decida que a vida da sua mãe vale o meu entretenimento desta tarde. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Maya sentiu como se tivesse sido esbofeteada. O ar fugiu de seus pulmões enquanto a fúria começava a borbulhar, substituindo o medo. — Você é um doente — ela sussurrou, a voz trêmula de indignação. — Sou um realista — Zion rebateu, a voz mantendo a calma gélida. — Você veio aqui vender seu tempo, suas habilidades, sua dignidade. Eu apenas mudei a mercadoria. O valor é o mesmo. A vida da sua mãe por um pouco da sua pele. É um preço justo para quem não tem nada a oferecer além de desespero. Maya deu um passo à frente. Seus olhos brilhavam com lágrimas que se recusavam a cair. Ela viu o copo de cristal sobre a mesa de Zion, cheio de água mineral das geleiras. Sem pensar, sua mão voou. A água atingiu Zion em cheio. O impacto molhou seu rosto, seu cabelo perfeitamente penteado e a camisa de seda caríssima. O tempo pareceu parar. O silêncio que se seguiu ao impacto da água foi absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico das gotas atingindo o carpete de seda. Maya estava parada, o peito subindo e descendo com uma respiração errática, a mão ainda estendida no ar, sentindo o formigamento da adrenalina. Ela esperava que ele gritasse, que chamasse os seguranças, que a humilhasse com palavras baixas. Mas Zion Black não era um homem de reações comuns. Ele permaneceu sentado, a coluna ereta contra o couro da poltrona. Lentamente, ele fechou os olhos por um segundo, sentindo a frieza da água escorrer por seu rosto e infiltrar-se no colarinho da sua camisa de mil dólares. Quando ele os abriu, não havia fúria descontrolada; havia uma curiosidade sombria, algo muito mais perigoso. Zion ergueu a mão direita. De uma forma lenta e deliberada, ele passou os dedos pelo rosto, recolhendo o excesso de água. Com um movimento fluido e quase elegante, ele empurrou os fios de cabelo escuro para trás, arrumando-os no lugar com uma precisão gélida. Ele limpou o lábio inferior com o polegar, observando Maya como se ela fosse um espécime fascinante em um microscópio. Um sorriso seco e letal surgiu em seus lábios. — Dignidade? — ele repetiu a palavra dela, saboreando-a como se fosse um conceito alienígena. — Você fala de alma e dignidade em uma sala onde se decide o destino de nações, Srta. Solano? Ele se levantou. Cada centímetro dos seus quase um metro e noventa de altura parecia preencher o oxigênio do lugar. Ele caminhou contornando a mesa de ébano, sem pressa, a camisa úmida colada ao peito largo, revelando a silhueta de um homem que tratava seu corpo com a mesma disciplina impiedosa com que tratava seus negócios. Ele parou a poucos centímetros dela. Maya podia sentir o calor que emanava dele, contrastando com a água fria que ele ainda carregava na pele. — Se você veio aqui esperando compaixão, justiça ou um prêmio pela sua integridade... — Ele se inclinou, o hálito de menta e bourbon roçando a orelha dela, a voz caindo para um sussurro que fez os pelos do braço de Maya se arrepiarem. — Então você está no lugar errado. Ele deu um passo para trás, os olhos brilhando com um divertimento c***l. — O mundo lá fora não é movido por quem tem o coração limpo, Maya. É movido por quem pode pagar o preço. E, pelo que vejo, o seu preço é alto demais para o seu bolso vazio. Vá embora. Saia daqui antes que eu decida cobrar pelo custo desta camisa e pelo tempo que você acabou de desperdiçar. Maya sentiu a garganta secar. A frase dele foi como uma sentença. Ela queria dizer algo, queria feri-lo com palavras tanto quanto o feriu com a água, mas a imagem da mãe no leito de hospital, pálida e lutando para respirar, inundou sua mente. A percepção de que ele tinha razão de que ela estava no lugar errado para pedir ajuda, mas no único lugar possível para obter dinheiro, foi a maior humilhação de todas. Ela girou nos calcanhares, a cabeça erguida, mas o coração em frangalhos. — Você vai se lembrar de mim, Zion Black — ela disse, sem olhar para trás. — E não vai ser pela água. Vai ser pelo fato de que você não conseguiu me quebrar. — Veremos — ele murmurou para as costas dela, a voz carregada de uma promessa que ela ainda não compreendia. Maya atravessou o lobby da Black Industries como um borrão. Ela ignorou os olhares curiosos dos funcionários e o cartão dourado que Isabella tentou lhe entregar na calçada. Ela só tinha um destino: o Hospital St. Jude. Ao chegar lá, o cenário era o seu pior pesadelo. O corredor da UTI estava mergulhado em uma luz fluorescente e fria. A Dra. Helena estava ao telefone, a expressão tensa. — Eu não posso autorizar o centro cirúrgico sem a garantia de pagamento, administrativo! É uma vida! — a médica gritava. — Doutora! — Maya correu até ela, a voz embargada. — Por favor, me dê mais algumas horas. Eu vou conseguir o dinheiro. Eu juro. A Dra. Helena olhou para ela com uma piedade que doeu mais do que a arrogância de Zion. — Maya... o quadro dela se estabilizou por enquanto, mas é uma bomba-relógio. Temos, no máximo, quatro horas. Depois disso, não haverá cirurgia no mundo que a traga de volta. Maya caiu no banco de espera, o rosto escondido nas mãos. Foi então que seu telefone vibrou. Não era uma mensagem de banco. Era um vídeo de um número desconhecido. Ao dar o play, seu sangue gelou. Era uma gravação de segurança. Ela e Zion no escritório. O momento em que ela jogava a água. O vídeo cortava para uma imagem do monitor do hospital onde sua mãe estava internada, mostrando os sinais vitais dela em tempo real. Abaixo, uma única mensagem de texto de Zion Black: O relógio está correndo, Maya. Eu decidi que quero uma revanche. Meu motorista está na porta do hospital. Entre no carro, ou assista ao monitor parar de bater. O desespero de Maya se transformou em algo gélido. Ele não estava apenas jogando; ele estava caçando.
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