Gelo e Chumbo

1122 Words
O frio de Saint-Laurent não era cortante; era paralisante. A neve caía fina sobre as docas do setor industrial, cobrindo o asfalto rachado com uma camada branca que logo seria manchada. Um SUV blindado, preto como a noite sem lua, deslizou silenciosamente até parar diante de um armazém abandonado. Quando a porta se abriu, o contraste foi imediato. Scarlett Montserrat saltou do veículo, o coturno esmagando o gelo acumulado. Ela não usava um uniforme comum; vestia uma jaqueta tática de policarbonato ajustada ao corpo, que deixava seus movimentos livres, e calças de combate reforçadas. O vento soprou, bagunçando os fios rosa pink de seu cabelo curto. Seus olhos castanhos-claros mapearam o perímetro em segundos, brilhando com a adrenalina que começava a bombear. Ela ajustou a luva de couro, cobrindo parcialmente a rosa n***a tatuada em seu antebraço. — Posições — comandou Scarlett pelo rádio. Sua voz era um sussurro letal que cortava a estática. Seis vultos, os mercenários contratados pela Loba, surgiram das sombras, armados até os dentes. Eles hesitaram por um segundo, intimidados pela aura de comando que a Guardiã exalava. Eles sabiam que, se falhassem com a Loba, era Scarlett quem aplicaria a sentença. — A Loba quer o carregamento intacto e o traidor vivo — continuou ela, sacando a pistola com uma fluidez assustadora. — Eu vou entrar por cima. Vocês abrem a porta da frente. Se um único tiro for disparado sem a minha ordem... Bom, vocês sabem o que acontece. A subida pela escada de incêndio foi silenciosa, uma dança coreografada contra o metal congelado. No topo, Scarlett deslizou por uma claraboia entreaberta, caindo sobre as vigas de sustentação do armazém com a leveza de um felino. Lá embaixo, o cenário era tenso: caixotes de madeira com o selo da Medeiros Imperium estavam empilhados de forma desordenada, cercados por homens armados que não pertenciam à folha de pagamento da Loba. O plano de invasão por cima foi executado com a precisão de um bisturi, mas o submundo de Saint-Laurent nunca joga limpo. Assim que Scarlett saltou da viga, o som de um motor a diesel rugiu nos fundos do armazém. O traidor não estava rendido; ele estava tentando subir na cabine de uma carreta carregada com os contêineres da Medeiros. — Agora! — Scarlett rugiu pelo comunicador, mas o grupo de mercenários na porta da frente foi recebido por uma saraivada de fuzis. O caos explodiu. Scarlett não esperou. Ela correu por cima das pilhas de caixas, mas um dos seguranças do traidor, um ex-militar de quase dois metros, surgiu do ponto cego. O impacto do soco dele a pegou de raspão na têmpora, jogando-a contra uma estrutura de ferro. Scarlett sentiu o gosto metálico do sangue inundar a boca. Um corte abriu-se acima de sua sobrancelha esquerda, e o sangue quente começou a escorrer, nublando sua visão. Ela balançou a cabeça, o cabelo rosa pink agora grudado na testa pelo suor e pelo rubro que manchava sua pele bronzeada. — É só isso? — sibilou ela, cuspindo sangue no concreto. O brutamontes avançou com uma faca tática. Scarlett desviou, mas a lâmina rasgou o tecido de sua jaqueta e abriu um sulco profundo em seu ombro direito. A dor foi aguda, uma queimação que faria qualquer um recuar, mas para a Guardiã, era apenas combustível. Ela travou o braço do homem, usou o impulso dele e desferiu uma joelhada brutal nas costelas, seguida de um disparo seco na perna do agressor. Enquanto ele urrava no chão, Scarlett ignorou a queimação no ombro e avançou em direção ao caminhão. O traidor tentou acelerar, mas ela saltou no estribo da porta, quebrando o vidro com a coronha da pistola. — Desliga essa droga! — ordenou ela, cravando o cano da arma na bochecha do homem. — A Loba não gosta de esperar pelos relatórios, e você já está muito atrasado com os seus. Com o braço sangrando e a visão parcialmente obstruída, Scarlett forçou o traidor para fora da cabine, jogando-o de joelhos no gelo que invadia o galpão. Ela pressionou o ferimento no ombro com uma das mãos, sentindo a fênix em suas costas latejar sob a adrenalina. Ela pegou o rádio, a respiração pesada e irregular: — Aqui é a Guardiã. Alvo capturado e carga recuperada. Avise à Loba que o lixo está pronto para a coleta. E... peça para separarem o kit de primeiros socorros. A noite foi mais longa do que eu planejei. O silêncio que se seguiu ao cessar-fogo no armazém era quase ensurdecedor, interrompido apenas pelo estalar do motor quente da carreta. Scarlett mantinha o cano da pistola pressionado contra a nuca do traidor, que soluçava. O sangue de sua sobrancelha agora manchava o colarinho, mas ela não vacilou. Com um movimento bruto, ela o algemou a uma estrutura de ferro. Virando-se para os mercenários, ela deu a ordem com uma ameaça sombria: — Levem ele para a caverna. A Loba quer ter uma conversinha com esse traidor mais tarde. Não deixem ele escapar; se deixarem, acabou com a vida de vocês. Não quero nada de errado. Fica quieto — rosnou ela para o alvo. — Ou eu te dou um motivo real para chorar antes da Loba chegar. Ela se afastou, cambaleando levemente quando a tensão baixou e a dor no ombro explodiu. Scarlett encostou-se no SUV preto, deslizando até se sentar no estribo. Puxou o rádio uma última vez, a voz mais suave: — Limpeza iniciada. Carga segura, já estão levando para a caverna. Vou retornar para a base... preciso de um reparo antes que os pequenos acordem. Não quero que eles me vejam assim. Do outro lado da linha, no escritório luxuoso, Alexandra Medeiros apertou o bocal do copo de uísque até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela ouviu a respiração pesada de Scarlett e o cansaço em sua voz. A máscara de "Loba" vacilou por um segundo, substituída por uma angústia que ela jamais admitiria em voz alta. — Como sempre você foi excelente, nunca decepcionou. Tenho orgulho de ter treinado você. Venha para casa, Scarlett — a voz de Alexandra saiu baixa, quase um comando e uma prece ao mesmo tempo. — Agora. Scarlett fechou os olhos, sentindo o frio do Canadá contra a pele bronzeada. Ela pensou na fênix em suas costas e na frase "Esperança & Amor" gravada perto de seu coração. Cada cicatriz valia a pena se significasse que Alexandra e os lobinhos estavam seguros. Com dificuldade, ela subiu no banco do motorista, ignorando o rastro de sangue que deixava no couro. O sol começava a ameaçar surgir no horizonte de Saint-Laurent, pintando o céu de um cinza pálido. A missão estava cumprida, mas a guerra pela vingança de Alexandra estava apenas começando.
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