Capítulo 21 — Mikhail

1016 Words
Mikhail Eu saí do quarto do hospital sem olhar para trás, porque já não havia mais nada a ser discutido ali. Dmitry tinha entendido a gravidade da situação e eu não precisava repetir o óbvio. A criança estava segura, mas aquilo não resolvia o problema principal, apenas adiava o que viria em seguida. Lorenzo não era o tipo de homem que desaparecia depois de perder algo importante, muito menos alguém que aceitava uma derrota sem reagir. Ele tinha perdido a única vantagem que possuía, e isso o tornava mais perigoso do que antes, porque agora não existia mais limite, não existia mais contenção, apenas objetivo. Caminhei pelo corredor do hospital mantendo o ritmo constante, ignorando completamente o movimento ao redor. Médicos, seguranças, funcionários, nada daquilo tinha importância naquele momento. Eu não precisava olhar para ninguém, não precisava interagir com ninguém. Tudo o que precisava já estava definido, e o próximo passo dependia de execução precisa, sem margem para erro. Peguei o telefone enquanto ainda atravessava o corredor e fiz a ligação sem hesitar, aguardando apenas o tempo necessário para que fosse atendida. — Fala. A voz veio tranquila, estável, sem qualquer sinal de urgência, como se aquela fosse apenas mais uma ligação comum. Aquilo nunca mudava, independentemente da situação. — Você vai trabalhar agora — falei direto, sem introdução. — Eu sempre trabalho — ele respondeu, com um leve tom de ironia controlada. — Então começa a tratar isso como prioridade. Houve uma pausa curta do outro lado, não de dúvida, mas de ajuste. — Estou ouvindo. Parei de andar por um instante, encostando levemente no vidro que dava vista para a área externa do hospital. Não porque precisava pensar mais, mas porque queria organizar as informações da forma mais direta possível, sem espaço para interpretação errada. — O pai da criança fugiu. O silêncio que veio em seguida foi breve, mas suficiente. — Isso complica — ele disse. — Complica se você errar — respondi na mesma hora. — Se fizer certo, a gente resolve antes de virar problema. — Ele está indo atrás dela? — Ele não tem mais nada — falei, mantendo o tom estável. — A única coisa que sobrou foi a mulher. Outra pausa, menor dessa vez, mais focada. — Então você quer que eu vá até ela. — Não — corrigi, sem alterar a voz. — Eu quero que você tire ela de lá. O silêncio mudou. Não era mais avaliação superficial, era cálculo. — Ela sabe de nós? — Sabe o suficiente para entender o risco. — E isso ajuda ou atrapalha? Respirei fundo antes de responder, não por dúvida, mas porque a resposta dependia mais da execução dele do que da situação em si. — Depende de como você vai entrar. Ele soltou uma leve risada, controlada. — Então você quer que eu seja cuidadoso. — Eu quero que você seja eficiente. Deixei um pequeno espaço antes de continuar, não para criar efeito, mas para garantir que ele estivesse alinhado com cada detalhe. — Você vai até o condomínio dela, entra sem chamar atenção e tira ela de lá antes que ele chegue. — E se ele já estiver lá? — Então você resolve. A resposta foi direta, sem qualquer necessidade de ajuste. — Posso eliminar? — Se for necessário. Minha voz saiu seca. — Mas ele não é a prioridade. — É ela — ele completou. — Exatamente. Voltei a caminhar pelo corredor, mantendo o ritmo constante. — Eu não quero barulho, não quero exposição e não quero erro. — Você está pedindo precisão em tempo curto — ele respondeu. — Eu estou exigindo o mínimo. O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era entendimento. — Para onde eu levo ela? — Para a mansão. — Direto? — Direto. Não havia alternativa segura fora disso. — E a segurança? — Total. Fiz questão de reforçar. — Você não vai limitar recurso. Ele permaneceu em silêncio, absorvendo. — Se precisar trocar de carro, troca. Se precisar mudar rota, muda. Se precisar isolar o perímetro, isola. Eu não quero variável fora do controle. — Entendi. — Eu quero ela dentro da mansão antes do amanhecer. — Você está com pressa. — Eu estou antecipando o movimento dele. Houve uma pequena pausa. — Ele vai atrás dela. — E você não quer que ele encontre. — Não. Sem espaço para dúvida. — E se ela resistir? — Ela vai resistir — respondi sem hesitar. — E isso não muda nada. — Então eu posso forçar? Parei de andar. — Você faz o que for necessário. Minha voz desceu um tom. — Mas não machuca ela. O silêncio que veio depois foi mais longo, mas não era incerteza. — Entendi. Eu sabia que ele tinha entendido. Não havia necessidade de repetir. — Quando você chegar lá, você deixa claro que é a única chance dela sair viva dessa situação. — E se ela não acreditar? — Então você faz ela acreditar. Simples. Direto. Funcional. — Você está confiando muito em mim — ele disse. — Eu não confio em ninguém. Respondi sem pausa. — Eu só sei escolher quem resolve. Ele soltou um riso baixo. — Justo. Continuei andando até alcançar a saída do hospital, parando por um instante diante da porta de vidro antes de continuar. — Quanto tempo você precisa? — O suficiente. — Você não tem esse tempo. Minha resposta veio firme. — Então eu vou ser rápido. — É o mínimo que eu espero. Houve uma pausa curta. — Mais alguma coisa? — Tem. Falei antes que ele encerrasse. — Se ele aparecer lá… O silêncio veio imediato. — Não deixa ele sair. A resposta não demorou. — Pode deixar. A linha ficou muda. Guardei o telefone no bolso, mantendo o olhar fixo à frente por alguns segundos antes de atravessar a saída do hospital. O ar da noite estava mais frio do que antes, mas aquilo não alterava nada. A operação já estava em andamento, e, a partir daquele ponto, não dependia mais de planejamento. Dependia de execução. E eu sabia exatamente quem estava executando.
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