Capítulo 13_ O Que Nos Afasta

1033 Words
O silêncio após a partida do invasor não era apenas tenso — era fraturado. O vidro quebrado da janela deixava o vento entrar, espalhando fragmentos pelo chão da sala. Gabriel permanecia de pé, a respiração irregular, o olhar fixo no espaço vazio por onde a criatura desaparecera. Helena, por outro lado, parecia diferente. Não assustada. Não surpresa. Mas furiosa. Muito furiosa. — Eu disse que isso aconteceria — ela murmurou, mais para si mesma do que para ele. Gabriel virou-se lentamente. — Disse o quê? — Que o momento em que você descobrisse… eles interviriam. — Então você sabia que eu corria esse risco desde o início? Você sabia? A frase cortou o ar. Helena o encarou. — Eu esperava ter mais tempo. — Tempo para quê? Para eu me apaixonar o suficiente a ponto de aceitar morrer por você? A acusação saiu mais dura do que ele pretendia. Ela enrijeceu. — Não ouse transformar isso em manipulação. — Então o que é, Helena? Porque do meu ponto de vista, eu fui arrastado para um jogo onde minha vida é debatida em reuniões noturna. Ela deu um passo à frente, fixando os seus olhos nos dele. — Você acha que eu quis isso? Acha que eu planejei que eles viessem até aqui? — Você sabia que era possível! O tom de voz dele subiu pela primeira vez. O apartamento, pequeno demais para a intensidade da discussão, parecia encolher. Helena aproximou-se ainda mais. — Eu sabia que era um risco. Não uma sentença. — Para mim parece sentença. A respiração dela ficou mais pesada — não por necessidade biológica, mas por emoção contida. — Você acha que eu não estou com medo? Gabriel riu sem humor. — Medo? Você atravessou dois séculos. Eu sou o único que pode morrer aqui. A frase foi c***l. E ele percebeu assim que disse. Mas não retirou. O medo e a raiva falavam mais alto Os olhos dela escureceram levemente. — Você está com raiva! — Estou tentando sobreviver. — Então sobreviva longe de mim._ grita A frase caiu como pedra. O silêncio que se seguiu foi brutal. Gabriel piscou. — O quê? Helena manteve o olhar firme, mesmo que algo dentro dela estivesse se rompendo. — Se estar comigo coloca você sob vigilância… então não esteja comigo. — E a sua solução é essa ? — É a única forma de removê-lo do centro disso. Ele aproximou-se, com a voz agora mais baixa, porém carregada. — Você acha mesmo que eles vão simplesmente esquecer que eu sei? Ela não respondeu imediatamente. Porque ele tinha razão. — Eu posso negociar — disse ela finalmente. — Negociar minha ignorância? — Negociar sua segurança. — Ao custo de quê Helena? Ela não respondeu. E a ausência de resposta foi mais reveladora do que qualquer palavra. Gabriel passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da realidade esmagar qualquer romantização restante. — Você decidiu por mim desde o começo. — Não. — Decidiu quando escolheu se aproximar. O golpe foi direto. Helena ficou imóvel por um instante. — Eu não sou uma ameaça para você. — Não? Ele deu um passo para trás. — Você quase perdeu o controle naquela noite. A lembrança atravessou os dois. O sangue. O olhar escurecendo. O recuo forçado. — Eu me controlei — ela respondeu. — Mas pode não controlar sempre. O silêncio voltou, agora denso de medo verdadeiro. Gabriel não estava apenas assustado com os outros vampiros. Estava começando a encarar a possibilidade de que Helena, por mais que o amasse, ainda era uma criatura movida por instintos que ele jamais compreenderia completamente. — Talvez você esteja certa — ele disse, a voz mais fria. — Talvez eu deva sair disso antes que seja tarde. O olhar dela mudou. Não para fúria. Para dor. — Você quer ir? A pergunta era simples. Mas carregava séculos de solidão. Ele hesitou. E essa hesitação já era resposta. — Eu preciso pensar — disse finalmente. Ela assentiu lentamente. — Então pense. O vento atravessava a janela quebrada, espalhando a névoa pela sala. Gabriel pegou o casaco. Cada movimento parecia mais pesado do que deveria. — Não me siga. Helena não se moveu. — Eu não seguiria. Ele parou na porta por um segundo. Esperou que ela o chamasse. Ela não chamou. A porta se fechou. E o silêncio que ficou era mais c***l do que qualquer ameaça externa. Helena permaneceu imóvel no centro da sala por longos minutos. A máscara de controle caiu lentamente. A solidão, velha companheira, voltou a ocupar espaço. Sozinha, é assim que ela sentia se. Ela caminhou até a janela quebrada, olhando a cidade. Por dois séculos evitara se apegar. E agora… Agora estava novamente prestes a perder-lô Do lado de fora, Gabriel caminhava sem direção clara pelas ruas de Noctávia. A mente girava em círculos. Amor. Medo. Sobrevivência. Traição. Ele não sabia o que doía mais, se era a possibilidade de morrer… ou a possibilidade de viver longe dela. Mas algo estava diferente. Algo que não era apenas emocional. Ele sentia o corpo estranho. A respiração mais profunda. A audição mais aguçada. O coração batendo de forma irregular. Ele parou abruptamente numa esquina. O cheiro. Havia um cheiro no ar que ele nunca notara antes. Ferro. Sangue. Vindo de algum lugar próximo. Ele engoliu em seco. A sensação foi súbita. Intensa. Quase instintiva. Ele sabia que não deveria seguir. Mas seguiu. Um gato ferido estava sob um carro, sangrando levemente. Gabriel ajoelhou-se automaticamente, o médico agindo por reflexo. Mas, quando o cheiro ficou mais forte… Algo dentro dele respondeu. Um impulso. Cru. Primitivo. Ele recuou rapidamente, assustado consigo mesmo. — Não — murmurou. O coração acelerou violentamente. Por um segundo — apenas um segundo — a ideia de aproximar-se do sangue não foi repulsiva. Foi atraente. Gabriel levantou-se bruscamente. Isso era psicológico. Estresse. Adrenalina. Só isso. Mas, enquanto caminhava de volta para longe dali, não percebeu que seus olhos, por uma fração de segundo sob a luz fraca do poste, reflectiram um tom mais escuro do que o normal. Muito mais escuro. E, à distância, Helena sentiu. Algo havia mudado. E talvez… não fosse apenas escolha. A vida de alguém se transformando.
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