O silêncio após a partida do invasor não era apenas tenso — era fraturado.
O vidro quebrado da janela deixava o vento entrar, espalhando fragmentos pelo chão da sala. Gabriel permanecia de pé, a respiração irregular, o olhar fixo no espaço vazio por onde a criatura desaparecera.
Helena, por outro lado, parecia diferente.
Não assustada.
Não surpresa.
Mas furiosa. Muito furiosa.
— Eu disse que isso aconteceria — ela murmurou, mais para si mesma do que para ele.
Gabriel virou-se lentamente.
— Disse o quê?
— Que o momento em que você descobrisse… eles interviriam.
— Então você sabia que eu corria esse risco desde o início? Você sabia?
A frase cortou o ar.
Helena o encarou.
— Eu esperava ter mais tempo.
— Tempo para quê? Para eu me apaixonar o suficiente a ponto de aceitar morrer por você?
A acusação saiu mais dura do que ele pretendia.
Ela enrijeceu.
— Não ouse transformar isso em manipulação.
— Então o que é, Helena? Porque do meu ponto de vista, eu fui arrastado para um jogo onde minha vida é debatida em reuniões noturna.
Ela deu um passo à frente, fixando os seus olhos nos dele.
— Você acha que eu quis isso? Acha que eu planejei que eles viessem até aqui?
— Você sabia que era possível!
O tom de voz dele subiu pela primeira vez.
O apartamento, pequeno demais para a intensidade da discussão, parecia encolher.
Helena aproximou-se ainda mais.
— Eu sabia que era um risco. Não uma sentença.
— Para mim parece sentença.
A respiração dela ficou mais pesada — não por necessidade biológica, mas por emoção contida.
— Você acha que eu não estou com medo?
Gabriel riu sem humor.
— Medo? Você atravessou dois séculos. Eu sou o único que pode morrer aqui.
A frase foi c***l.
E ele percebeu assim que disse.
Mas não retirou. O medo e a raiva falavam mais alto
Os olhos dela escureceram levemente.
— Você está com raiva!
— Estou tentando sobreviver.
— Então sobreviva longe de mim._ grita
A frase caiu como pedra.
O silêncio que se seguiu foi brutal.
Gabriel piscou.
— O quê?
Helena manteve o olhar firme, mesmo que algo dentro dela estivesse se rompendo.
— Se estar comigo coloca você sob vigilância… então não esteja comigo.
— E a sua solução é essa ?
— É a única forma de removê-lo do centro disso.
Ele aproximou-se, com a voz agora mais baixa, porém carregada.
— Você acha mesmo que eles vão simplesmente esquecer que eu sei?
Ela não respondeu imediatamente.
Porque ele tinha razão.
— Eu posso negociar — disse ela finalmente.
— Negociar minha ignorância?
— Negociar sua segurança.
— Ao custo de quê Helena?
Ela não respondeu.
E a ausência de resposta foi mais reveladora do que qualquer palavra.
Gabriel passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da realidade esmagar qualquer romantização restante.
— Você decidiu por mim desde o começo.
— Não.
— Decidiu quando escolheu se aproximar.
O golpe foi direto.
Helena ficou imóvel por um instante.
— Eu não sou uma ameaça para você.
— Não?
Ele deu um passo para trás.
— Você quase perdeu o controle naquela noite.
A lembrança atravessou os dois.
O sangue.
O olhar escurecendo.
O recuo forçado.
— Eu me controlei — ela respondeu.
— Mas pode não controlar sempre.
O silêncio voltou, agora denso de medo verdadeiro.
Gabriel não estava apenas assustado com os outros vampiros.
Estava começando a encarar a possibilidade de que Helena, por mais que o amasse, ainda era uma criatura movida por instintos que ele jamais compreenderia completamente.
— Talvez você esteja certa — ele disse, a voz mais fria. — Talvez eu deva sair disso antes que seja tarde.
O olhar dela mudou.
Não para fúria.
Para dor.
— Você quer ir?
A pergunta era simples.
Mas carregava séculos de solidão.
Ele hesitou.
E essa hesitação já era resposta.
— Eu preciso pensar — disse finalmente.
Ela assentiu lentamente.
— Então pense.
O vento atravessava a janela quebrada, espalhando a névoa pela sala.
Gabriel pegou o casaco.
Cada movimento parecia mais pesado do que deveria.
— Não me siga.
Helena não se moveu.
— Eu não seguiria.
Ele parou na porta por um segundo.
Esperou que ela o chamasse.
Ela não chamou.
A porta se fechou.
E o silêncio que ficou era mais c***l do que qualquer ameaça externa.
Helena permaneceu imóvel no centro da sala por longos minutos.
A máscara de controle caiu lentamente.
A solidão, velha companheira, voltou a ocupar espaço.
Sozinha, é assim que ela sentia se.
Ela caminhou até a janela quebrada, olhando a cidade.
Por dois séculos evitara se apegar.
E agora…
Agora estava novamente prestes a perder-lô
Do lado de fora, Gabriel caminhava sem direção clara pelas ruas de Noctávia.
A mente girava em círculos.
Amor.
Medo.
Sobrevivência.
Traição.
Ele não sabia o que doía mais, se era a possibilidade de morrer… ou a possibilidade de viver longe dela.
Mas algo estava diferente.
Algo que não era apenas emocional.
Ele sentia o corpo estranho.
A respiração mais profunda.
A audição mais aguçada.
O coração batendo de forma irregular.
Ele parou abruptamente numa esquina.
O cheiro.
Havia um cheiro no ar que ele nunca notara antes.
Ferro.
Sangue.
Vindo de algum lugar próximo.
Ele engoliu em seco.
A sensação foi súbita.
Intensa.
Quase instintiva.
Ele sabia que não deveria seguir.
Mas seguiu.
Um gato ferido estava sob um carro, sangrando levemente.
Gabriel ajoelhou-se automaticamente, o médico agindo por reflexo.
Mas, quando o cheiro ficou mais forte…
Algo dentro dele respondeu.
Um impulso.
Cru.
Primitivo.
Ele recuou rapidamente, assustado consigo mesmo.
— Não — murmurou.
O coração acelerou violentamente.
Por um segundo — apenas um segundo — a ideia de aproximar-se do sangue
não foi repulsiva.
Foi atraente.
Gabriel levantou-se bruscamente.
Isso era psicológico.
Estresse.
Adrenalina.
Só isso.
Mas, enquanto caminhava de volta para longe dali, não percebeu que seus olhos, por uma fração de segundo sob a luz fraca do poste, reflectiram um tom mais escuro do que o normal.
Muito mais escuro.
E, à distância, Helena sentiu.
Algo havia mudado.
E talvez… não fosse apenas escolha.
A vida de alguém se transformando.