A cidade ainda carregava as cicatrizes da batalha contra Caelum.
Vidros substituídos às pressas. Ruas interditadas sob desculpas frágeis. Noticiários falando em explosões de gás e falhas estruturais.
Mas nas sombras, a narrativa era outra.
O Conselho estava reunido.
O salão subterrâneo, parcialmente reconstruído, parecia mais frio do que nunca. As paredes antigas ainda guardavam marcas da explosão causada por Gabriel. Cinzas haviam sido limpas, mas o cheiro da derrota permanecia.
O líder caminhava lentamente diante da mesa circular de pedra.
Adrian permanecia à direita, silencioso, o rosto fechado.
Caelum observava, imóvel, como se o tempo não o tocasse.
— Ele não pode continuar vivo — declarou uma das conselheiras, Selene, a mais estrategista entre eles. — Cada confronto o torna mais forte.
— Ele é instável — completou outro m****o. — Cresce com emoção.
Caelum finalmente falou.
— Ele cresce com vínculo.
Os olhos antigos percorreram o salão.
— Retirem o vínculo… e o poder se fragmentará.
Silêncio.
Adrian ergueu o olhar lentamente.
— Helena.
O nome ecoou como uma sentença.
Caelum assentiu.
— E a jornalista.
O plano foi desenhado com precisão c***l.
Não seria ataque direto.
Seria isolamento.
Separação.
Quebra emocional.
No apartamento de Helena, a tensão era constante.
Lívia havia voltado a escrever. Não sobre vampiros — ainda não — mas sobre corrupção, sobre desaparecimentos inexplicáveis, sobre movimentações financeiras ligadas a instituições antigas. Ela sabia que estava provocando algo maior, mesmo sem publicar tudo.
Gabriel observava de longe.
Ele sentia movimentação diferente naquela noite.
Organizada demais.
Helena percebeu o silêncio dele.
— O que é?
Ele virou o rosto para ela.
— Eles não estão nos cercando.
— Então?
— Estão se preparando.
Antes que pudesse explicar melhor, as luzes do apartamento se apagaram.
Não piscaram.
Apagaram.
Lívia levantou-se bruscamente.
O vidro da janela não se quebrou dessa vez.
A porta.
Ela simplesmente se abriu.
E três figuras entraram.
Não eram soldados comuns.
Eram membros do Conselho.
Selene estava à frente.
— Boa noite — disse ela com serenidade venenosa.
Gabriel posicionou-se imediatamente diante de Helena e Lívia.
— Último erro de vocês — ele murmurou.
Selene sorriu levemente.
— Não viemos lutar.
E naquele mesmo instante, tudo aconteceu rápido demais.
Outro grupo emergiu da escada de incêndio.
Mais dois bloquearam a saída.
Mas não avançaram contra Gabriel.
Avançaram contra Lívia.
Helena tentou alcançá-la.
Um campo de contenção foi ativado — um artefato antigo, runas gravadas em metal escuro, pulsando energia ancestral.
Gabriel sentiu.
A mesma energia que anciões usavam séculos atrás para conter híbridos.
Ele tentou expandir o próprio poder.
Mas a frequência do artefato interferiu.
Diminuiu.
Instabilidade.
Lívia foi segurada pelo braço.
— Gabriel! — ela gritou.
Helena avançou.
Foi contida.
Selene observava tudo com frieza estratégica.
— Você cresce com vínculo — disse ela, encarando Gabriel. — Vamos testar o quanto cresce com perda.
Algo dentro dele partiu.
A contenção começou a vibrar.
As runas brilharam intensamente.
Caelum surgiu atrás de Gabriel, pressionando a energia contra ele.
— Controle-se — murmurou o ancião.
Gabriel tentou.
Por Helena.
Mas quando viu Lívia sendo arrastada…
Não conseguiu.
A explosão de energia foi diferente das anteriores.
Não foi expansão.
Foi implosão concentrada.
O artefato estilhaçou-se em centenas de fragmentos incandescentes.
Caelum foi lançado para trás.
Selene perdeu o equilíbrio por um segundo.
Erro suficiente.
Gabriel apareceu diante do vampiro que segurava Lívia.
Não houve luta.
Ele segurou o rosto do conselheiro com uma única mão.
E apertou.
O crânio cedeu sob pressão invisível.
O corpo se desfez em cinzas antes mesmo de tocar o chão.
Silêncio absoluto.
Um m****o do Conselho.
Morto.
Não soldado.
Não guarda.
Conselheiro.
Selene recuou instintivamente.
Adrian, que surgira na retaguarda, congelou.
Ninguém se movia.
Gabriel estava no centro da sala.
Respiração pesada.
Olhos dourados agora quase brancos de intensidade.
Lívia caiu de joelhos, livre.
Helena aproximou-se devagar.
— Gabriel…
Ele ainda segurava o punho fechado, onde segundos antes existia um ser imortal de séculos.
Cinza escorria entre seus dedos.
Selene falou, mas sua voz já não carregava segurança.
— Você acaba de declarar guerra absoluta.
Ele ergueu o olhar para ela.
— Não.
A pressão no ar aumentou novamente.
As paredes começaram a rachar.
O chão tremeu.
— Eu acabei de encerrá-la.
Selene tentou escapar.
Mas o espaço ao redor dela distorceu-se.
Como se o próprio ar a estivesse comprimindo.
Ela tentou expandir sua energia.
Invocou velocidade.
Mas Gabriel estava além disso agora.
Ele não correu.
Não saltou.
Apenas fechou a mão lentamente.
Selene foi puxada para o centro da sala como se correntes invisíveis a arrastassem.
Caelum avançou para intervir.
Mas algo o bloqueou.
Não fisicamente.
Energeticamente.
Gabriel estava criando uma zona de exclusão ao redor de si.
Helena percebeu.
Ele estava isolando a própria batalha.
— Gabriel, não — ela sussurrou.
Mas já era tarde.
Selene tentou falar.
Tentou negociar.
Tentou usar o medo.
— Se me m***r, o Conselho—
O som foi interrompido.
A compressão aumentou.
E, diferente do primeiro conselheiro, não houve esmagamento imediato.
Houve resistência.
Selene gritou.
O som ecoou como vidro arranhando pedra.
E então…
Silêncio.
O corpo dela desintegrou-se em uma nuvem de cinzas que pairou por um segundo antes de cair no chão devastado.
Dois membros do Conselho mortos na mesma noite.
Imortais.
Extintos.
Caelum ficou imóvel.
Pela primeira vez, não havia frieza em seus olhos.
Havia cálculo.
Gabriel permanecia parado no centro da destruição.
Helena aproximou-se com cuidado.
Tocou o peito dele.
O coração ainda batia.
Mas diferente.
Mais forte.
Mais denso.
— Olhe para mim — ela pediu.
Ele demorou um segundo.
Mas olhou.
E por trás da fúria…
Ainda havia ele.
Ainda havia amor.
Ainda havia humanidade lutando.
Lívia levantou-se lentamente, tremendo.
— Eles vão voltar com tudo agora.
Caelum falou da entrada destruída:
— Sim.
Ele encarou Gabriel com respeito sombrio.
— Você matou dois pilares do Conselho em uma única noite.
Gabriel não respondeu.
Caelum inclinou levemente a cabeça.
— Agora você não é mais um problema a ser resolvido.
É uma ameaça a ser eliminada a qualquer custo.
Ele desapareceu na noite.
E o silêncio que ficou não era paz.
Era prelúdio.
Helena envolveu Gabriel com os braços.
Ele hesitou por um segundo.
Depois a abraçou de volta.
Forte.
Quase desesperado.
— Eu não queria isso — ele murmurou contra o cabelo dela.
Ela fechou os olhos.
— Eu sei.
Mas ambos sabiam.
Não havia retorno possível.
Dois imortais haviam caído.
E a balança do poder fora quebrada para sempre.
A guerra deixara de ser defensiva.
Agora tinha vítimas irreversíveis.
E na próxima investida…
O Conselho não viria negociar.
Viria para exterminar.
E talvez…
Pela primeira vez…
Eles realmente conseguissem ferir Gabriel onde dói.