A caminhada prosseguiu, mas o ritmo havia mudado, ainda que nenhum dos dois mencionasse isso em voz alta. O silêncio que antes era confortável agora parecia carregado de pequenas perguntas não formuladas. Gabriel falava, mas parte dele observava. Não era desconfiança concreta, era apenas uma sensação sutil de desalinhamento, como quando algo numa sala está ligeiramente fora do lugar e você não sabe exatamente o que é, mas sabe que está ali.
Helena, por sua vez, mantinha a postura serena. Os passos eram elegantes, medidos, quase silenciosos demais para alguém caminhando sobre calçada irregular.
A névoa de Noctávia envolvia-lhe os ombros como se a reconhecesse. Ela estava habituada a séculos de controle, mas o episódio do sangue a deixara alerta. Gabriel havia observado algo. Não sabia o quê exatamente, mas havia observado.
— Você nunca me contou sobre sua família — ele disse de repente, num tom aparentemente casual.
A pergunta foi leve.
Mas o momento não foi.
Helena virou o rosto lentamente para ele, os olhos refletindo a luz amarelada dos postes.
— Não há muito para contar.
— Isso é impossível — ele sorriu. — Todo mundo tem alguma história.
Ela manteve o sorriso, mas não era exatamente um sorriso humano. Era contido, elegante demais.
— Algumas histórias são melhores quando permanecem no passado.
Gabriel sentiu um arrepio breve, mas atribuiu ao frio da noite. Ele não pressionou. Sempre respeitara os limites dela. Desde o início, Helena era um território que se revelava apenas quando queria.
Ainda assim, havia inconsistências.
Ela nunca falava da infância.
Nunca mencionava amigos antigos.
Nunca fazia referência a datas, eventos históricos, nada que pudesse situá-la claramente no tempo.
Era como se tivesse surgido em Noctávia já adulta, já formada, já completa.
Eles chegaram à ponte de ferro que cruzava o rio estreito da cidade. A água reflectia as luzes distorcidas, criando uma paisagem quase onírica. Gabriel apoiou os cotovelos na grade fria, olhando para o reflexo trêmulo da própria imagem.
— Às vezes tenho a sensação de que já te conhecia antes — ele disse, mais baixo. — Como se tivesse sonhado com você.
Helena ficou imóvel.
O primeiro encontro.
O sonho.
Ela lembrava.
Porque para ela não havia sido um sonho.
Ela o observava há mais tempo do que ele imaginava.
Não por obsessão.
Mas por curiosidade.
Gabriel fora escolhido por acaso numa noite comum — mas permanecera por escolha. Havia algo nele que a intrigava. Algo que resistia à superficialidade do mundo moderno. Ele pensava profundamente. Sentia profundamente.
E isso era raro.
— Talvez algumas pessoas simplesmente… se reconheçam — ela respondeu.
Ele virou o rosto para encará-la.
— Reconheçam de onde?
Ela sustentou o olhar por longos segundos.
— De outras versões de si mesmas.
A resposta era enigmática o suficiente para parecer poética.
E ele aceitou assim.
Mas dentro dele, algo começava a organizar padrões.
Outro detalhe surgiu naquela mesma noite.
Ao atravessarem a rua principal, um carro surgiu inesperadamente numa curva fechada. O motorista não reduziu a velocidade. A distância era curta demais.
Gabriel viu primeiro.
Helena reagiu antes.
O movimento dela foi rápido demais.
Rápido a ponto de não ser normal.
Ela segurou o braço dele e o puxou para trás com força. Não uma força desesperada — uma força precisa.
O carro passou onde ele estaria.
O vento deslocado bagunçou o cabelo dele.
O coração disparou.
Mas o que o deixou realmente sem fôlego não foi o quase acidente.
Foi a percepção.
Ela o puxara com uma velocidade impossível.
— Você… — ele começou.
Ela já havia soltado o braço dele.
— Você estava distraído — disse suavemente.
Ele respirava rápido.
— Como você viu o carro tão cedo?
— Eu ouvi.
Simples assim.
Ouvi.
Gabriel franziu levemente o cenho.
— Eu não ouvi nada até estar praticamente em cima da gente.
Ela deu de ombros com naturalidade ensaiada.
— Talvez eu seja mais atenta do que você imagina.
O tom era leve.
Mas o olhar não.
Ele tentou racionalizar. Reflexos rápidos existem. Pessoas treinadas reagem assim. Talvez ela tivesse praticado algum esporte. Artes marciais. Dança.
Mas havia algo diferente.
A precisão.
A ausência de pânico.
Ela não parecia alguém que reagira por instinto.
Parecia alguém que calculava.
Continuaram andando.
Mas agora Gabriel estava consciente de cada pequeno detalhe.
A temperatura da pele dela quando segurou seu braço — fria.
Não fria como mãos geladas.
Fria como mármore.
Ele lembrava perfeitamente.
E a força.
Ela era magra.
Elegante.
Mas o puxão deslocara seu corpo com facilidade.
Horas depois, já perto do apartamento dele, pararam.
Helena não gostava de subir.
Sempre se despedia na rua.
Mais um detalhe que, até então, ele nunca questionara.
— Você nunca vem até minha casa — ele comentou, sem acusação.
Ela inclinou a cabeça.
— Prefiro despedidas sob o céu aberto.
— Por quê?
— Porque o céu é honesto.
Ele riu.
— Isso não faz o menor sentido.
Ela aproximou-se um pouco mais.
O cheiro dela era discreto, mas envolvente. Algo entre madeira úmida e flor noturna.
— Nem tudo precisa fazer sentido, Gabriel.
Ela tocou o rosto dele com delicadeza.
O toque era leve.
Mas novamente.
Frio.
Ele não se afastou.
Mas registrou.
— Boa noite — ela sussurrou.
E então se afastou.
Ele ficou parado observando-a caminhar pela rua iluminada, a silhueta dissolvendo-se gradualmente na névoa.
Ela nunca olhava para trás.
Nunca.
Gabriel entrou no prédio com o coração acelerado — não de paixão apenas, mas de inquietação.
No apartamento, deixou as luzes apagadas e foi direto até a janela.
A rua estava vazia.
Vazia demais.
Como se ela tivesse simplesmente desaparecido.
Ele passou a mão pelo próprio braço, sentindo o local onde ela o segurara.
Ainda parecia frio.
Sentou-se no sofá.
Respirou fundo.
Estava exagerando.
Estava criando mistérios onde não havia.
Helena era apenas diferente.
Intensa.
Reservada.
Nada mais.
Mas, quando fechou os olhos naquela noite, a mente dele não trouxe imagens românticas.
Trouxe fragmentos.
Os olhos escurecendo perto do sangue.
A velocidade do movimento.
A ausência total de medo diante do carro.
O corpo frio.
E, acima de tudo, a sensação persistente de que ele não sabia absolutamente nada sobre a mulher por quem estava começando a se apaixonar.
E essa percepção, diferente de qualquer outra coisa, não o afastou.
Aproximou.
Porque Gabriel sempre fora movido pela necessidade de compreender.
E agora, sem perceber, ele havia dado o primeiro passo rumo à investigação.
Não por desconfiança.
Mas por necessidade.
E Helena, caminhando sozinha pelas ruas silenciosas de Noctávia, sabia.
Ela sentia quando a curiosidade humana começava a crescer.
E sabia também que, quando crescesse demais, não haveria como voltar atrás.