Foi ideia de Gabriel.
Talvez por impulso. Talvez por necessidade.
Talvez porque, depois de enfrentar olhares milenares e forças que dobravam o ar, ele quisesse algo absurdamente simples mas que faria muito diferença
— Vamos sair — ele disse numa tarde em que a névoa de Noctávia parecia menos densa.
Helena estava encostada na bancada da cozinha, observando-o com aquele olhar que misturava curiosidade e cautela.
— Sair… como?
— Como pessoas normais. Shopping. Cinema. Pipoca super faturada. Talvez sorvete depois.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você quer me levar para um shopping, é isso?
— Quero te levar para um encontro.
A palavra pairou entre eles.
Encontro.
Não confronto.
Não julgamento.
Encontro.
Como namorados e são namorados!
Helena sentiu algo quase esquecido aquecer dentro dela. Séculos haviam passado desde que fizera algo simplesmente porque parecia leve.
— E se encontrarmos alguém do Conselho? — ela provocou.
Ele deu de ombros.
— Então eles vão ter que esperar a sessão acabar.
Ela riu. Um riso verdadeiro, solto.
E aceitou.
O Shopping Aurora era o mais movimentado de Noctávia. Luzes artificiais brilhavam onde o sol raramente era visto, vitrines exibiam versões idealizadas de felicidade, e pessoas caminhavam com sacolas e preocupações comuns.
Helena caminhava ao lado de Gabriel, de mãos dadas.
A sensação era estranha.
Não pelo toque — aquele já era natural.
Mas pelo cenário.
Pela naturalidade das coisas.
Ela usava roupas simples, discretas. Nada que denunciasse sua natureza atemporal, na verdade estava linda como uma humana esbelta.
Gabriel estava ainda mais atento do que o normal, não por paranoia, mas porque seus sentidos captavam tudo, tudo mesmo
Corações.
Perfumes.
Passos.
Emoções.
Era quase ensurdecedor.
Ele parou por um segundo perto da entrada.
Helena percebeu.
— Está demais?
Ele respirou fundo.
— É como estar dentro de uma orquestra onde todos tocam ao mesmo tempo.
Ela apertou a mão dele.
— Foca em mim._ sorriu
Ele olhou para ela.
Instantaneamente, o ruído diminuiu.
Não porque os sons cessaram.
Mas porque ele escolheu um centro.
Ela.
— Melhor? — ela perguntou suavemente.
— Muito.
E seguiram.
Na livraria, Helena tocava os livros como se fossem relíquias raras. Gabriel observava-a com um sorriso discreto.
— Você já leu metade disso tudo, não é?
— ele perguntou.
Ela inclinou a cabeça.
— Algumas dessas histórias eu vi acontecerem.
Ele riu baixo.
— Isso é extremamente injusto.
Ela aproximou-se dele com um livro nas mãos.
— Quer saber o que é justo?
— O quê?
Ela ficou na ponta dos pés e beijou-o ali mesmo, entre prateleiras e olhares curiosos.
Um beijo leve.
Cotidiano.
Mas carregado de significado.
Algumas pessoas olharam.
Gabriel não se importou.
Helena também não.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não estava se escondendo.
No cinema, sentaram-se no fundo.
Escolheram uma comédia romântica qualquer, ironia que nenhum dos dois comentou em voz alta.
As luzes se apagaram.
A tela iluminou-se.
Helena encostou a cabeça no ombro dele.
— Isso é estranho — ela murmurou.
— O filme?
— Não. Estar aqui… assim.
Ele entrelaçou os dedos nos dela.
— Estranho r**m?
— Estranho bonito.
Ele sorriu.
Durante o filme, Gabriel percebeu algo diferente.
Os sentidos dele continuavam aguçados, mas não estavam caóticos.
Eles se adaptavam.
Aprendiam.
Ele conseguia ouvir cada respiração na sala, cada batimento cardíaco… mas conseguia ignorá-los.
Focar.
E então algo chamou sua atenção.
Um choro contido.
Três fileiras abaixo.
Não de tristeza comum.
Era dor física.
Sangue.
Helena sentiu a mudança sutil na postura dele.
— Gabriel?
Ele fechou os olhos por um segundo.
Controlou a respiração.
O cheiro metálico era claro.
Mas não o puxava como antes.
Não havia fome.
Havia consciência.
Ele inclinou-se para ela e sussurrou:
— Alguém se cortou.
Ela avaliou-o com cuidado.
— Você quer sair?
Ele balançou a cabeça.
— Não. Eu estou bem.
E estava.
O poder dentro dele não reagiu com violência.
Permaneceu estável.
Ela sorriu discretamente.
Orgulhosa dele
Depois do filme, caminharam pelo corredor iluminado.
Pararam para dividir um milkshake ele bebendo, ela fingindo provar.
— Isso é terrível — ela comentou após experimentar uma gota.
— Você não tem direito a opinião. Seu paladar é do século XIX.
Ela fingiu indignação.
Ele limpou um leve traço do canto dos lábios dela com o polegar.
O gesto foi lento.
Íntimo.
O mundo ao redor continuava se movendo, pessoas passando, crianças correndo, anúncios ecoando.
Mas naquele pequeno espaço entre eles, havia silêncio.
Gabriel inclinou-se.
— Eu queria poder te dar mais disso.
— Mais o quê?
— Normalidade.
Ela o olhou com profundidade.
— Gabriel… isso já é mais do que eu tive em cem anos.
Ele ficou sério.
— Você sente falta de ser humana?
Ela pensou por um momento.
— Às vezes sinto falta da simplicidade. Não da fragilidade._confessou
Ele segurou o rosto dela com cuidado.
— Eu não vejo fragilidade em você.
Ela sorriu.
— Porque você olha diferente, você olha com olhos de apaixonado.
E então aconteceu.
Um leve tremor percorreu o chão.
Não físico.
Energético.
Gabriel sentiu primeiro.
Depois Helena.
Não era ataque.
Era reconhecimento.
Mesmo ali, entre lojas e música ambiente, o mundo sobrenatural os observava.
Gabriel fechou os olhos por um segundo.
E algo dentro dele se expandiu suavemente.
Não como explosão.
Mas como campo.
A vibração cessou.
Como se tivesse sido neutralizada.
Helena arregalou levemente os olhos.
— Você… bloqueou.
Ele abriu os olhos.
— Eu só… não quis que estragassem nosso dia.
Ela o encarou em silêncio por alguns segundos.
O poder dele não era apenas força bruta.
Era controle.
Intenção.
Equilíbrio.
Ela aproximou-se e o abraçou ali mesmo, no meio do corredor movimentado.
Ele envolveu-a de volta, firme.
— Obrigada — ela sussurrou.
— Por quê?
— Por me dar um dia humano.
Ele beijou o topo da cabeça dela.
— Ainda não acabou.
Saíram do shopping quando a noite já havia tomado completamente o céu.
Caminharam pelas ruas de Noctávia de mãos dadas, como qualquer casal.
Mas não eram qualquer casal.
A cidade sentia.
As sombras sabiam.
E ainda assim, ali estavam eles, rindo de algo trivial, discutindo qual filme era melhor, planejando repetir o passeio.
Quando chegaram ao apartamento, Helena encostou-se à porta antes de entrar.
— Hoje… eu me senti viva.
Ele aproximou-se devagar.
— Você é viva.
Ela tocou o peito dele.
— Não como você.
Ele segurou a mão dela sobre o próprio coração.
— Então fica comigo. E sente junto.
Ela o beijou novamente, mais profundo desta vez, mas ainda suave. Sem urgência, sem fogo destrutivo.
Apenas presença.
Quando entraram, o apartamento parecia diferente.
Não mais campo de batalha.
Mas refúgio, o ninho deles.
Gabriel fechou a porta e encostou-se nela por um segundo, observando-a.
— Sabe o que é engraçado? — ele disse, depois de sorrir bobo
— O quê?
— Eu enfrentei vampiros milenares. Primordiais. Energia que poderia destruir quarteirões.
Ela aproximou-se.
— E?
Ele sorriu.
— Nada disso me assustou tanto quanto a ideia de você não aceitar sair comigo hoje.
Ela riu.
Um som leve.
Humano.
_ Como fazes para ser tão fofo? Ele apenas sorri e a puxa para um abraço e de seguida beija sua testa.
E pela primeira vez desde que o poder começara a crescer dentro dele, Gabriel percebeu algo com absoluta clareza:
Ele podia ser mais forte que os vampiros.
Podia dobrar energia.
Podia neutralizar forças antigas.
Mas o que realmente o ancorava…
Era simples.
Era cotidiano.
Era ela segurando sua mão em um shopping qualquer, fingindo ser apenas uma garota apaixonada.
E talvez fosse exatamente isso que tornava seu poder diferente.
Ele não nascia da noite.
Nascia da escolha.
E naquela noite, escolheram algo raro no meio do caos:
Ser apenas um casal.
Mesmo que o mundo jamais os deixasse ser apenas isso.
_ Preciso deixar meu humano descansar
_ Ah não, longe de ti não há descanso. Fique comigo está noite
_Sou tão irresistível assim?_ provoca
_Mais do que possas imaginar, agora és parte de mim e tu deixar nem sequer é uma opção.
Ela sorri.
Encantada com as suas palavras.
Apaixonada e
Amada .