Capitulo-6 A Sombra Que Não Dorme

1019 Words
Noctávia nunca parecia realmente dormir. Mesmo quando as luzes dos apartamentos se apagavam e o comércio fechava as portas, havia algo pulsando sob a superfície da cidade. Uma vibração silenciosa, quase orgânica, como se as próprias ruas respirassem na escuridão. Gabriel começou a perceber isso porque começou a perceber Helena. Era curioso como a atenção funciona. Antes dela, a cidade era apenas cenário. Depois dela, tornou-se palco. Eles estavam juntos havia semanas. O suficiente para que os encontros deixassem de ser ocasionais e passassem a ser esperados. O suficiente para que o nome dela aparecesse na mente dele nos momentos mais triviais do dia ao acordar, ao tomar banho, entre um paciente e outro. Mas ainda não era amor declarado. Era algo mais perigoso. Era fascínio. Naquela noite, Gabriel a esperava na escadaria da Biblioteca Antiga de Noctávia. A construção imponente de pedra clara contrastava com o céu profundamente azul que precedia a noite completa. O relógio marcava 18h12. Ela nunca se atrasava. E nunca chegava antes do pôr do sol. Ele só percebeu isso naquela semana. Não foi uma conclusão racional. Foi um detalhe que se acumulou silenciosamente. Todos os encontros, absolutamente todos, começavam depois que o sol desaparecia por completo no horizonte. Coincidência, disse a si mesmo. Ela surgiu como sempre surgia: sem ruído. Vestia um sobretudo vinho escuro naquela noite, que contrastava com a pele quase luminosa. O cabelo solto caía perfeitamente alinhado, como se o vento tivesse medo de tocá-lo. — Você parece pensativo — ela comentou ao se aproximar. A voz dela sempre tinha aquele timbre baixo, macio, que parecia atravessar o ar ao invés de simplesmente vibrar nele. Gabriel sorriu. — Médico, pensa demais. É um defeito profissional.- explicou Ela inclinou a cabeça, analisando-o com aquele olhar que às vezes parecia profundo demais. Ou talvez você esteja começando a observar mais. A frase não era acusatória. Era quase… curiosa. Ele riu, mas algo naquela resposta ficou ecoando. Observar mais. Eles entraram na biblioteca, que naquela hora estava quase vazia. O cheiro de papel antigo e madeira encerada preenchia o ambiente. Helena parecia confortável al, mais do que confortável. Ela se movia entre as estantes como alguém que conhecia o espaço há muito tempo. Muito tempo mesmo. Gabriel a observava de longe enquanto ela passava os dedos delicadamente pelas lombadas dos livros, como se reconhecesse títulos sem precisar lê-los. — Você já veio muito aqui? — ele perguntou casualmente. Ela não hesitou. — Algumas vezes. Mas o “algumas” tinha peso. Ele não sabia por quê, mas teve a impressão de que aquela resposta escondia séculos. Ridículo, pensou. Séculos.Muito ridículo. Helena puxou um livro antigo da prateleira. Um volume sobre arquitetura medieval europeia. Quando abriu, o movimento foi tão natural que parecia ensaiado. — Eu gosto de lugares que sobrevivem ao tempo — ela disse, folheando páginas amareladas. — Há algo reconfortante em coisas que resistem. Gabriel apoiou-se na estante ao lado dela. — Resistir ao tempo é raro. Ela ergueu os olhos lentamente. — Nem sempre. O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Mas era denso. Ele começou a notar outra coisa. Helena não piscava muito. Era um detalhe quase imperceptível, mas quando notado, impossível de ignorar. Enquanto conversavam, ela mantinha o olhar fixo, estável, profundo demais. A maioria das pessoas desviaria o olhar, piscaria, quebraria o contato. Mas, ela não. Era como se estivesse completamente focada em cada microexpressão dele. Aquilo o deixou levemente desconcertado. — Está tudo bem? — ela perguntou suavemente. Ele piscou. — Sim… claro. Ela fechou o livro. — Vamos sair? Está ficando mais vazio aqui. Do lado de fora, a noite já dominava completamente a cidade. A névoa começava a descer pelas ruas estreitas, envolvendo os postes de luz em halos suaves. Eles caminharam sem rumo definido, apenas seguindo o fluxo das ruas antigas. E foi ali, no meio de uma conversa trivial sobre um paciente idoso que insistia em não seguir recomendações médicas, que aconteceu a primeira coisa realmente estranha. Um homem atravessou a rua correndo. Tropeçou. Caiu violentamente a poucos metros deles. Gabriel reagiu por instinto. Correu imediatamente até o homem. — Senhor? Consegue me ouvir? Helena ficou parada por um segundo. Observando. O homem estava com um corte na testa. Sangrava moderadamente. Gabriel pressionou o ferimento com o próprio lenço. — Helena, me ajuda aqui — ele pediu sem olhar para trás. Ela se aproximou. E então aconteceu. O cheiro. O sangue fresco atingiu o ar. Para Gabriel, era apenas ferro e urgência. Para Helena… Era um chamado. Os olhos dela escureceram por uma fração de segundo. A respiração, desnecessária tornou-se mais profunda. O pulso do homem estava acelerado. O coração batendo forte demais. E ela podia ouvir. Cada batida. Cada fluxo. O sangue escorrendo quente. Ela deu um passo para trás. Gabriel não percebeu. Estava concentrado demais. — Está tudo bem — ele disse ao homem, que começava a se recuperar. — Foi só um tropeço. Helena manteve distância. As mãos dela estavam cerradas com força. Não era fome. Ela havia se alimentado recentemente. Mas sangue fresco tão próximo sempre despertava algo instintivo. Ela controlou. Fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, o vermelho havia desaparecido completamente. Gabriel finalmente olhou para ela. — Você ficou pálida. Ela sorriu. — Eu não sou muito boa com sangue. Ele soltou uma risada curta. — Isso explica você nunca querer ouvir minhas histórias do hospital. Era uma explicação perfeita. Simples. Humana. Mas, enquanto o homem agradecia e se afastava, Gabriel teve uma sensação estranha. Helena estava distante demais. Imóvel demais. Controlada demais. Estranha demais . Como alguém segurando algo muito maior sob a superfície. Ele ignorou. Mas não completamente. E pela primeira vez desde que a conhecera, a ideia surgiu — ainda frágil, ainda quase absurda: Quem é você, Helena? Ela percebeu. Não porque pudesse ler pensamentos. Mas porque, por séculos, aprendera a reconhecer micro expressões humanas. E o olhar dele mudara. Apenas um milímetro. Mas mudara. E isso significava que o tempo de permanecer invisível estava começando a diminuir. A noite continuou. Mas algo havia sido plantado. Uma semente. Pequena. Silenciosa. Perigosa.
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