Capítulo 15_Entre o amor e o abismo

1229 Words
Helena ainda mantinha a mão no rosto de Gabriel quando percebeu que ele tremia. Não de frio. De conflito. Ele afastou-se devagar, como se o toque dela queimasse. — Adaptando? — repetiu ele, a voz carregada. — Pessoas não “se adaptam” a vampiros, Helena. Ela respirou fundo, tentando manter a calma. — Você não é como as outras pessoas. Você ficou exposto por muito tempo. Emoção intensa cria conexões que nem sempre entendemos. Ele riu, mas não havia humor algum. — Então é isso? Amor causa mutação? — Não simplifique. — Eu estou tentando entender o que está acontecendo comigo!_ diz desesperado e visivelmente irritado A tensão voltou com força. A discussão que havia sido interrompida dias antes agora retornava com mais intensidade. Gabriel começou a andar pelo apartamento de um lado para o outro, como se fosse cavar um buraco ali, passando as mãos pelo cabelo. — Eu ouço coisas que não deveria ouvir. Sinto cheiros que não fazem sentido. Vejo… coisas que não deveria. Helena permaneceu firme. — Visões? Ele hesitou. — Às vezes. — De quê? — De você. O silêncio caiu entre os dois. — Não como eu te vejo normalmente — ele continuou. — Mas como você realmente é. Os olhos dela escureceram levemente. — Isso é perigoso. — Para quem? Ela não respondeu de imediato. — Para você. Gabriel aproximou-se. — Não minta para mim. Pela primeira vez, não minta, já estou farto disso. Ela sustentou o olhar. — Para ambos. A verdade pesava. Ele respirou fundo. — Eu não pedi por isso. — Eu sei. — Você entrou na minha vida sabendo o que era. — E você entrou na minha sabendo o que eu não podia ser. A frase foi como lâmina. Ele ficou imóvel. — Então é culpa minha agora? — Não é sobre culpa. — Não é o que parece._ rebate A frustração explodiu. — Eu estou perdendo o controle do meu próprio corpo, Helena! E você fala como se fosse um fenômeno interessante! Os olhos dela brilharam — não de raiva, mas de dor. — Você acha que eu não estou apavorada? — Você não parece. Isso foi injusto. Mas ele estava assustado demais para medir palavras. Helena virou-se, caminhando até a janela ainda parcialmente quebrada. A cidade de Noctávia brilhava sob a névoa noturna. — Eu passei séculos evitando vínculos — disse ela, a voz mais baixa._ Justamente para não colocar ninguém em risco, até tu aparec... Ele se aproximou lentamente. — E mesmo assim me escolheu. Ela virou o rosto. — Sim. A admissão foi crua. Verdadeira. — Por quê? — ele perguntou. Ela demorou a responder. — Porque você me fez lembrar do que eu era antes. Gabriel sentiu o peso da resposta. — Humana? — Viva. Silêncio. A palavra ecoou entre eles. Ele se aproximou mais. — Então por que está me afastando? Helena fechou os olhos por um instante. — Porque se algo estiver despertando em você… outros perceberão. — Já perceberam. — Ainda não oficialmente. — E o que acontece quando perceberem? Ela virou-se para ele, finalmente deixando transparecer o medo que tentava esconder. — Você deixa de ser irrelevante. Gabriel engoliu em seco. — E isso significa? — Significa que você passa a ser variável. E variáveis são eliminadas. O ar pareceu desaparecer do ambiente. Ele encarou-a por longos segundos. — Então é isso? Ou eu me afasto de você… ou eles me matam? Ela não respondeu. E essa ausência dizia tudo. **** Gabriel recuou alguns passos. Sua mente girava. Ele sempre fora racional. Sempre acreditara que escolhas tinham lógica. Mas agora, agora tudo era diferente, coisas inexplicáveis estavam acontecendo… Amar significava risco. Afastar-se significava perda. Ele passou a mão pelo peito, sentindo novamente aquela pulsação estranha. — E se eu quiser continuar? — perguntou ele. Helena o encarou. — Continuar… sabendo disso? — Sim. — Isso não é romantismo. É sobrevivência. — Eu não estou sendo romântico. Ele aproximou-se mais uma vez. — Eu estou escolhendo. A firmeza na voz dele a surpreendeu. — Escolhendo o quê? — É a ti que eu escolho. A palavra caiu como uma promessa. E como uma sentença. Helena deu um passo para trás. — Gabriel… É interrompida — Não. Você me disse para decidir. Estou decidindo. Ele segurou o rosto dela agora. A temperatura da pele dela era fria. Mas o toque dele estava quente demais. Quente de forma anormal. Helena percebeu. O coração dele batia mais forte do que deveria. — Seu corpo não está estável — ela sussurrou. — Então me transforma, Helena. O silêncio foi absoluto. Ela ficou imóvel. — Não. — Por quê? — Porque transformação não é solução emocional. — Eu prefiro arriscar eternidade com você do que viver normalidade sem você. A declaração foi intensa. Mas Helena endureceu. — Você fala isso porque ainda é humano. — E você fala como se eternidade fosse maldição. Ela aproximou o rosto do dele. — E é. Os olhos dela estavam profundos. Antigos. Carregados de memórias que ele não poderia compreender. — Você não sabe o que é ver todos que ama morrerem repetidamente — ela continuou. — Não sabe o que é carregar séculos de perda — Então não me ame — ele respondeu. A frase saiu antes que ele pudesse impedir. Ela recuou como se tivesse sido atingida. O silêncio tornou-se insuportável. Ele fechou os olhos imediatamente. — Não foi isso que, eu quis dizer. — Mas disse. A voz dela estava diferente agora. Mais distante. — Talvez você esteja certo — ela continuou, fria. — Talvez eu não devesse ter amado. — Helena… — Você quer escolha? Aqui está. Ela afastou-se. — Se continuar comigo, continuará como humano. — E se isso me m***r? — Então será sua decisão. Ele sentiu a raiva subir novamente. — Você está me punindo. — Não. — Está me deixando sozinho nisso. — Porque isso é seu. A discussão explodiu novamente. — Eu não pedi para meu corpo reagir assim! — E eu não pedi para sentir o que sinto por você! A tensão vibrava no ar. Por um segundo — apenas um segundo — a fome dela se misturou com emoção. Ela sentiu o sangue dele pulsar forte demais. E quase perdeu o controle. Os olhos dela escureceram. As presas surgiram parcialmente. Gabriel viu. E não recuou. Mas a respiração dele acelerou. Helena virou o rosto abruptamente. — Vá embora. Ele ficou parado. — Agora. O tom não era pedido. Era necessidade. Ele pegou o casaco lentamente. A dor era visível no olhar. — Você vai se arrepender de me afastar, denovo. Ela não respondeu. A porta se fechou mais uma vez. E dessa vez, não foi apenas orgulho. Foi medo real. Helena ficou sozinha no apartamento silencioso. As presas retraíram lentamente. Ela pressionou as mãos contra a parede. Estivera a segundos de ceder ao instinto. A separação agora não era apenas emocional. Era necessária. Do lado de fora, Gabriel caminhava pela noite de Noctávia com algo novo dentro do peito. Não apenas dor. Mas decisão. Se ela não o transformaria… Ele encontraria outra maneira de entender o que estava acontecendo. E talvez… De se tornar forte o suficiente para não ser eliminado. A névoa envolvia a cidade. E, nas sombras, olhos observavam. Porque agora… Gabriel não era mais invisível e não mais estava sob protecção de Helena.
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