Capítulo 26_ Ecos do Abismo

1315 Words
Ecos do Abismo A primeira coisa que Lívia Arantes percebeu foi o silêncio. Não o silêncio comum da madrugada em Noctávia. Mas um silêncio deslocado, como se os sons habituais da rua tivessem sido abafados por algo invisível. Ela fechou a porta do prédio atrás de si e caminhou até o carro com a sensação incômoda de estar sendo observada. Não era paranoia. Era instinto. Desde que confrontara Gabriel Monteiro no estacionamento do hospital, desde que admitira em voz alta que sabia que ele e Helena não eram normais, a atmosfera ao seu redor mudara. As ligações anônimas começaram. Respirações do outro lado da linha. O som de desligamento súbito. Agora, havia passos. Ela acelerou o caminhar. Os passos aceleraram também. O coração disparou, mas ela não gritou. Procurou as chaves dentro da bolsa com mãos firmes, mesmo que o sangue pulsasse nos ouvidos. — Senhorita Arantes. A voz veio da sombra entre dois prédios. Ela parou. Não reconheceu o homem imediatamente. Alto, terno escuro, rosto impassível. Mas os olhos… os olhos eram vazios demais. — Não sei do que está falando — ela respondeu, mesmo antes da pergunta. Ele sorriu levemente. — Curioso. Porque a senhora tem feito muitas perguntas. Ela recuou um passo. — Jornalistas fazem isso. — Alguns fazem perguntas demais. Outro vulto surgiu atrás dela. O pânico finalmente tocou sua espinha. — Se quer entrevista, pode marcar horário — ela disse, tentando manter o controle. O primeiro homem aproximou-se lentamente. — A senhora viu coisas que não compreende. O ar ficou frio. Frio demais. E então ela entendeu. Não eram apenas homens. Havia algo errado na maneira como se moviam. Rápidos demais. Silenciosos demais. Um deles avançou. Ela tentou correr. Foi inútil. Em segundos estava contra a parede, o braço preso com força que não era humana. — Escute com atenção — disse o homem ao seu ouvido. — Pare de investigar o que não pertence ao seu mundo. Ela lutou. — Vocês são loucos! Ele inclinou a cabeça. — Somos pacientes. E foi quando algo aconteceu. O ar mudou. Não gradualmente. Instantaneamente. Como se uma pressão invisível tivesse sido liberada. O homem que a segurava congelou. Literalmente. Os olhos dele se arregalaram. O outro virou-se abruptamente. Gabriel Monteiro estava parado no fim da rua. Não correra. Não ofegava. Apenas estava ali. Os olhos dele não eram castanhos comuns naquela noite. Havia algo diferente. Algo dourado. Não luminoso como fogo. Mas profundo como metal incandescente sob a superfície. — Solte-a. A voz não foi alta. Mas reverberou. O vampiro que segurava Lívia tentou se mover. Não conseguiu. Era como se o próprio corpo estivesse sendo pressionado por uma força invisível. — Você… — ele tentou falar, mas a palavra morreu na garganta. Gabriel não avançou. Apenas ergueu levemente a mão. O asfalto sob os pés dos vampiros rachou em linhas finas. O ar vibrou. Lívia sentiu como se o mundo tivesse sido comprimido ao redor dela. O segundo vampiro atacou. Rápido. Letal. Gabriel moveu-se — mas não como vampiro. Não como humano. Ele não se deslocou no espaço. O espaço pareceu dobrar ao redor dele. Num instante estava longe. No seguinte, estava diante do agressor. O impacto não foi físico. Foi energético. Uma onda invisível lançou o vampiro contra o muro com força brutal. O concreto estilhaçou. Silêncio. O primeiro finalmente conseguiu se libertar parcialmente da pressão invisível. — Ele não é um de nós! — sibilou. Gabriel olhou para ele. E foi ali que o novo poder se manifestou por completo. Os sons da rua desapareceram. O vento parou. Os batimentos cardíacos de Lívia ficaram ensurdecedores para ela mesma. Gabriel abriu levemente a mão. E o vampiro caiu de joelhos. Não por golpe. Por submissão involuntária. Como se a própria essência dele estivesse sendo puxada para baixo. — Diga ao Conselho — Gabriel falou calmamente — que eu não sou ameaça. A pressão aumentou. — Mas posso me tornar uma. Ele fechou a mão. E a força cessou. Os vampiros desapareceram na escuridão, feridos, humilhados, assustados. Lívia deslizou pela parede até sentar no chão. As mãos tremiam. Gabriel aproximou-se lentamente. Agora os olhos estavam voltando ao normal. — Você está ferida? Ela o encarou. Não havia mais dúvida. — O que… você é? Ele hesitou. Não porque não soubesse. Mas porque a resposta mudaria tudo. — Eu ainda estou descobrindo. Ela riu nervosamente, quase histérica. — Eles não eram humanos. — Não. — E você? Silêncio. Gabriel estendeu a mão para ajudá-la a levantar. Ela segurou. — Eu não sou seu inimigo, Lívia. Ela o estudou por longos segundos. — Eles disseram que eu estava vendo coisas que não pertencem ao meu mundo. Gabriel respondeu, firme: — Talvez o mundo seja maior do que disseram a você. Ela respirou fundo. — Eu quase morri por causa de uma matéria. — Não foi por causa da matéria. Foi por causa da verdade. Naquela mesma noite, no salão subterrâneo do Conselho, o ambiente estava diferente. Os dois vampiros retornaram feridos. Humilhados. Adrian ouviu o relato com expressão cada vez mais rígida. — Ele não nos tocou — disse um deles. — Não fisicamente. O líder do Conselho manteve o olhar fixo. — Explique. — Foi… pressão. Como se o próprio ar obedecesse a ele. Silêncio absoluto. A conselheira feminina falou primeiro: — Isso não é vampírico. — Não — respondeu Adrian lentamente. — Não é. O líder levantou-se. — Então estamos diante de algo novo. Ele olhou para Helena, que permanecia imóvel no fundo da sala. — Seu humano evoluiu. Helena não corrigiu. Mas os olhos dela brilhavam com mistura de medo e orgulho. — Ele salvou uma humana — Adrian acrescentou. O líder ergueu a sobrancelha. — A jornalista. Agora a equação estava completa. — Dois problemas em crescimento — murmurou a conselheira. Helena finalmente falou: — Ele a salvou porque ela estava sendo atacada. — Ele interveio contra membros do Conselho — retrucou o líder. — Ele defendeu uma inocente. O silêncio que se seguiu era o tipo que antecede decisões drásticas. — Isso confirma o risco — declarou o líder. — Ele influencia humanos. Desafia vampiros. Não pertence a nenhuma categoria. Adrian falou com cuidado: — Eliminá-lo agora pode ser erro estratégico. Os olhos do líder voltaram-se para ele. — Por quê? — Porque se ele cresce por vínculo… atacar pode fortalecê-lo. Essa possibilidade pairou no ar como ameaça maior que qualquer guerra. Helena sentiu a mudança. Pela primeira vez, o Conselho não falava apenas de punição. Falava de medo. No apartamento, Gabriel limpava o pequeno corte no braço de Lívia. Ela ainda tremia levemente. — Eu vi você dobrar o espaço — murmurou. Ele não respondeu. Porque não sabia explicar. — Eles tinham medo de você. Ele ergueu os olhos. — Eu também tenho. Ela respirou fundo. — Então agora eu faço parte disso? Gabriel hesitou. — Agora você sabe demais para sair completamente. Ela fechou os olhos por um instante. — Ótimo. Sempre quis uma história que mudasse o mundo. Helena entrou no apartamento poucos minutos depois. O olhar dela foi direto para Gabriel. Ela sentiu. O poder dele tinha mudado. Estava mais denso. Mais profundo. — O que você fez? — ela perguntou, não acusando, mas avaliando. — Protegi. Ela aproximou-se, tocando o peito dele. O coração batia normal. Mas a energia sob a pele era diferente. — Eles vão reagir — ela murmurou. Gabriel segurou a mão dela. — Que reajam. Havia algo novo em sua postura. Não arrogância. Mas certeza. E naquela noite, enquanto Noctávia dormia ignorando o que crescia sob suas ruas, o equilíbrio antigo começava a ruir de forma irreversível. O Conselho não lidava com amor. Não lidava com humanidade. E definitivamente não sabia lidar com algo que podia dobrar o próprio tecido do espaço. Gabriel Monteiro não era mais apenas homem. Não era vampiro. Era outra coisa. E agora todos sabiam.
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