Noctávia ainda sangrava.
As ruas estavam silenciosas demais para uma cidade que semanas antes ardia em guerra. Fachadas reconstruídas às pressas escondiam cicatrizes recentes; prédios restaurados exalavam o cheiro de tinta fresca misturado ao odor metálico que parecia nunca abandonar o ar. À noite, a névoa tornava tudo mais denso, como se a própria cidade tentasse sufocar as memórias do que havia acontecido.
Helena sentia isso.
Sentia na pele.
Sentia no sangue.
Mas, acima de tudo, sentia dentro de si.
Ela estava sentada no parapeito da janela do apartamento temporário onde viviam. O luar tocava sua pele pálida com uma suavidade quase humana. Seus dedos repousavam sobre o próprio abdômen sem que ela percebesse.
Gabriel a observava em silêncio.
Havia algo diferente nela — e não era apenas a exaustão da guerra.
Helena, vampira há décadas, sempre fora controlada, precisa, quase fria quando precisava sobreviver. Mas agora havia hesitação. Uma distração constante. Um leve franzir de testa quando acreditava que ninguém a via.
— Você não se alimentou direito hoje — ele disse, aproximando-se.
Ela desviou o olhar.
— Eu sei.
Mas não era fome de sangue.
Era outra coisa.
Uma fraqueza estranha que a atingia durante o dia. Uma sensibilidade incomum à luz. Um leve enjoo — impossível, biologicamente impossível — mas ainda assim presente.
Helena não adoecia.
Vampiros não adoecem.
E, no entanto, ela sentia o corpo diferente.
A temperatura interna oscilava. O coração — que não deveria bater — às vezes pulsava. Um batimento fraco. Ritmado. Intermitente.
Ela não contou isso a Gabriel.
Ainda não.
Porque medo, para alguém como ela, era algo raro.
Mas aquilo… aquilo era medo.
Naquela noite, quando Gabriel se aproximou e tocou sua cintura, Helena sentiu um arrepio mais profundo do que qualquer desejo. Não era paixão — embora ainda houvesse. Era algo instintivo.
Proteção.
Ela recuou um milímetro.
Ele percebeu.
— Helena…
— Eu estou bem.
Mas não estava.
E, pela primeira vez desde que a guerra terminara, Gabriel sentiu algo pior que a ameaça dos vampiros: o medo de perdê-la por algo que ele não conseguia entender.
Mais tarde, sozinha no banheiro, Helena encarou o espelho.
Seu reflexo estava ali — algo que só acontecia por causa da mutação do poder de Gabriel, que a conectava ao mundo físico de maneiras antes impossíveis. Ela tocou o próprio ventre.
Um leve desconforto.
Um calor interno.
E uma sensação inexplicável de… presença.
Ela fechou os olhos.
“Não pode ser.”
Mas a dúvida estava plantada.
E dúvidas, em Noctávia, sempre cresciam.
Os dias seguintes tornaram-se um exercício de fingimento.
Gabriel voltou ao hospital público onde trabalhava antes da guerra. Tentava se agarrar à rotina humana como se isso pudesse impedir o caos de retornar. O cheiro de desinfetante, o som de monitores cardíacos, os corredores iluminados demais — tudo aquilo o ancorava.
Ele precisava disso.
Porque dentro dele algo ainda era selvagem.
E Helena precisava disso ainda mais.
Ela voltou à galeria.
Reabriu as portas como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse liderado confrontos sangrentos. Como se não tivesse visto membros do Conselho morrerem pelas mãos de Gabriel. Como se não carregasse agora um peso invisível dentro de si.
Ela começou a evitar sangue.
Algo impensável.
O cheiro a enjoava.
Enjoava.
Helena — vampira ancestral — enjoando.
Certa tarde, uma artista cortou o dedo enquanto montava uma escultura. Uma gota de sangue caiu no chão. O cheiro se espalhou.
Helena correu para o banheiro.
Trancou a porta.
Apoiou-se na pia.
O mundo girou.
Ela respirava — respirava — como humana.
O corpo reagia como humano.
E então veio a vertigem.
Uma pressão suave, interna.
Ela levou as mãos ao ventre outra vez.
E sentiu.
Dessa vez não foi imaginação.
Foi um leve pulso.
Não era o coração dela.
Era outro ritmo.
Fraco.
Mas ali.
Helena ficou imóvel por longos minutos.
A lógica gritava que aquilo era impossível.
Mas impossibilidades já haviam sido quebradas quando Gabriel despertara aquele poder antigo, anterior aos próprios vampiros.
Ela pensou na noite em que estiveram juntos após a guerra.
Pensou na intensidade.
Pensou na energia que correra entre eles.
Pensou na transformação do próprio corpo depois.
E o medo começou a se misturar com algo novo.
Esperança.
Naquela noite, deitada ao lado de Gabriel, ela ficou acordada observando-o dormir. O peito dele subia e descia de maneira humana, frágil.
Ela tocou o abdômen.
Se fosse verdade…
Seria metade humano.
Metade vampiro.
Ou algo completamente diferente.
Um híbrido.
Um ser que quebraria todas as regras.
Ela não sabia se o mundo estava pronto.
E não sabia se eles estavam.
Gabriel despertou com o toque dela.
— Você está tremendo.
Helena hesitou.
Pela primeira vez desde que se conheceram, ela não sabia como começar uma frase.
— Gabriel… se algo impossível estivesse acontecendo… você teria medo?
Ele sentou-se.
— Eu já enfrentei um Conselho inteiro. Já destruí clãs. Já morri e voltei diferente. Medo não é mais o problema.
Ela segurou a mão dele.
Colocou-a sobre o próprio ventre.
Ele franziu o cenho.
— O que…?Isso é impossível não é?
Silêncio.
Ele fechou os olhos.
Sentiu.
Um calor leve.
Um pulso.
Outro ritmo.
Gabriel abriu os olhos devagar.
O mundo mudou ali.
— Helena…Vampiras não ficam grávidas, como ? ....
Ela não respondeu.
Mas lágrimas — raríssimas — surgiram nos olhos dela.
— Ainda não sabemos o que é — ela sussurrou.
Ele respirou fundo.
Medo.
Alegria.
Incredulidade.
— Se for o que estou pensando…
Ela assentiu lentamente.
— Eu não sei como é possível. Mas algo está crescendo dentro de mim.
O silêncio que seguiu não foi de pânico.
Foi de entendimento.
A guerra externa havia terminado.
Mas algo muito maior começava.
Eles não correram para testes.
Não buscaram respostas imediatas.
Passaram dias em um estado suspenso.
Observando.
Sentindo.
Helena começou a perceber mudanças claras: sensibilidade extrema à luz do sol — mais do que o normal. Uma necessidade crescente de alimentos humanos além de sangue. Fadiga ao entardecer. Sonhos vívidos — impossíveis para vampiros — onde via uma criança de olhos dourados correndo por campos iluminados.
Gabriel tornou-se hipervigilante.
Qualquer ruído na rua o fazia tensionar.
Qualquer vampiro que cruzasse seu caminho era avaliado como ameaça.
Mas, ao mesmo tempo, algo nele suavizou.
Ele passou a tocar Helena com mais cuidado.
A abraçá-la como se ela pudesse quebrar.
A conversar com o ventre dela quando acreditava que ela dormia.
— Seja lá o que você for… eu vou proteger você.
Helena fingia dormir.
Mas ouvia.
E sorria.
O medo era real.
Se o Conselho descobrisse…
Se algum clã percebesse…
A criança seria alvo.
Estudo.
Experimento.
Arma.
Ou ameaça a ser eliminada.
Na terceira semana de sintomas, Helena acordou com uma certeza que já não podia ignorar.
Ela estava diferente demais.
E precisava de confirmação.
Sentada à mesa da cozinha, ela olhou para Gabriel, que preparava café.
— Nós precisamos saber.
Ele parou.
Sabia exatamente do que ela falava.
Horas depois, em uma farmácia afastada do centro de Noctávia, Gabriel comprou o teste com mãos firmes demais para alguém que dizia não ter medo.
Voltaram em silêncio.
O tempo parecia viscoso.
No banheiro, Helena segurou o pequeno dispositivo com dedos que já haviam segurado espadas, corpos mortos, taças de sangue.
Nunca estivera tão nervosa.
Gabriel esperava do lado de fora.
O mundo inteiro parecia suspenso.
Minutos.
Eternos minutos.
Quando ela saiu, os olhos estavam diferentes.
Não havia dúvida.
Ela estendeu o teste.
Positivo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
O ar mudou.
Gabriel olhou para ela como se estivesse vendo um milagre.
— Isso… isso é real?
Helena assentiu, lágrimas silenciosas escorrendo.
— Eu estou grávida.
A palavra ecoou.
Grávida.
Vampira.
Humano.
Impossível.
Mas real.
Gabriel se aproximou devagar.
Como se estivesse diante de algo sagrado.
Ajoelhou-se.
Colocou a testa contra o ventre dela.
E riu — uma risada entrecortada, nervosa, emocionada.
— Nós vamos ser pais.
Helena nunca imaginou desejar algo tão profundamente.
Mas ali, naquele instante, entre medo e alegria, ela sentiu algo que nunca havia sentido em séculos de existência.
Futuro.
Não guerra.
Não sobrevivência.
Não poder.
Futuro.
Eles se abraçaram por muito tempo.
E, pela primeira vez desde que Noctávia se tornara um campo de batalha, sentiram que talvez fosse possível algo além da violência.
Mas a alegria vinha acompanhada de consciência.
A cidade ainda era perigosa.
Os vampiros sobreviventes ainda observavam.
Gabriel ainda era temido.
Helena ainda era lembrada como guerreira.
Eles precisariam pensar.
Planejar.
Decidir.
Mas naquela noite…
Eles permitiram-se apenas sentir.
Gabriel deitou ao lado dela, a mão sobre o ventre.
Helena encostou a cabeça no peito dele.
— Nós vamos proteger você — ela sussurrou.
E, pela primeira vez em toda a história de Noctávia, algo nasceu não do sangue…
Mas do amor.