Capítulo 39 — Entre o Amor e o Medo

1373 Words
A notícia não trouxe apenas felicidade. Trouxe silêncio. Um silêncio diferente do que vinha após batalhas ou ameaças. Não era o silêncio da morte. Era o silêncio da responsabilidade. Helena permanecia deitada, os olhos abertos no escuro do quarto, sentindo a presença quase imperceptível dentro de si. Não era dor. Não era exatamente conforto. Era consciência. Ela estava gerando algo. Algo que não deveria existir. Gabriel dormia ao seu lado, mas o sono dele não era profundo. Seus dedos repousavam sobre o ventre dela como se, mesmo inconsciente, estivesse tentando proteger. Helena observava o teto. “Que tipo de criatura você será?” A pergunta não vinha com rejeição. Vinha com preocupação. Se fosse humano… como sobreviveria em um mundo onde vampiros ainda existiam? Como ela o criaria, se a própria natureza dela era predatória? Se fosse vampiro… nasceria já sedento? Já condenado à noite? E se fosse híbrido? A palavra ecoava como algo belo e perigoso. Híbrido poderia significar equilíbrio. Ou poderia significar instabilidade. Ela fechou os olhos. Pela primeira vez em séculos, Helena começou a sonhar. Não os sonhos nebulosos de memórias antigas ou ecos de violência. Sonhos vívidos, quentes, quase humanos. Ela se viu segurando um bebê de olhos claros — não vermelhos, não dourados — apenas claros. A criança tocava seu rosto sem medo. O sol iluminava os cabelos pequenos e, surpreendentemente, ela estava sob aquela luz sem dor. No sonho, Gabriel sorria. E não havia guerra. Mas então o cenário mudava. A criança crescia rápido demais. Os olhos ficavam dourados como os de Gabriel quando ele perdia o controle. A pele brilhava sob a lua. Vampiros surgiam nas sombras, sussurrando palavras como “aberração”, “arma”, “ameaça”. Helena acordou com o coração acelerado. O coração. Ela tocou o próprio peito. Ele estava batendo. Devagar. Mas batendo. Gabriel abriu os olhos no mesmo instante. — Outro sonho? Ela assentiu. — Eu vi… coisas boas. E ruins. Ele se sentou na cama. — Eu também tenho sonhado. Gabriel nunca fora de falar sobre vulnerabilidades, mas agora não havia espaço para orgulho. Apenas verdade. — Eu me vejo ensinando alguém a andar de bicicleta — ele disse, a voz quase constrangida pela simplicidade da imagem. — Algo absurdamente comum. E no meio do sonho eu percebo que não sei se ele vai precisar aprender isso. Não sei se vai cair e se machucar como uma criança normal… ou se vai se levantar como se nada pudesse feri-lo. Helena o encarou. — Você imagina um menino. Gabriel deu um meio sorriso. — Às vezes. Outras vezes é uma menina. Com seus olhos. Mas… com meu temperamento. Ela riu, suave. — Então estaremos condenados. O riso morreu devagar. — Você tem medo? — ele perguntou. Helena demorou a responder. — Tenho medo de não saber amar como uma mãe humana. Eu sei lutar. Sei sobreviver. Sei comandar. Mas… cuidar? Ensinar? Ser paciente? Ela engoliu em seco. — Eu não tive isso. Não sei como é ter sido protegida. Gabriel tocou o rosto dela. — Você protegeu a cidade inteira. — Isso é diferente. Cuidar de uma cidade é estratégia. Cuidar de uma criança é… entrega. O silêncio voltou. Mas não pesado. Reflexivo. Nos dias seguintes, os pensamentos deles começaram a tomar forma concreta. Gabriel fez listas mentais: escola, documentos, identidade, como explicar a ausência de envelhecimento dela caso algo mudasse. Ele pensava na parte prática porque a parte emocional o aterrorizava demais. Ele se perguntava se o poder que corria em seu sangue — aquela força antiga, anterior aos vampiros — poderia ser herdada. E se fosse? “E se eu transmitir a ele a mesma fúria que quase me consumiu?” Ele se lembrava do momento em que perdera o controle na guerra. Do brilho violento nos próprios olhos. Do medo nos rostos ao redor. Não queria que seu filho fosse temido. Queria que fosse amado. Certa tarde, sentado sozinho na sala, Gabriel imaginou segurar uma criança pequena nos braços enquanto ela chorava. No sonho, ele não sabia o que fazer. Nenhuma força sobrenatural ajudava. Nenhum poder resolvia. Apenas um choro humano que exigia paciência. E ele tinha medo de falhar. Helena, por sua vez, começou a tocar livros que jamais se interessara antes. Desenvolvimento infantil. Gravidez humana. Alimentação. Ela lia sobre náuseas, mudanças hormonais, crescimento do feto. “Mas eu não tenho hormônios humanos.” Ainda assim, seu corpo reagia. Ela começou a comer pequenas porções de comida humana ao lado do sangue. O corpo aceitava. Às vezes rejeitava. Era imprevisível. E imprevisibilidade era algo que ela detestava. Uma noite, sentados na varanda, observando as luzes de Noctávia ao longe, Gabriel falou o que ambos evitavam. — E se ele não for aceito? Helena sabia que ele não falava apenas da sociedade humana. Falava dos vampiros. Dos sobreviventes. Dos que ainda observavam das sombras. — Então nós o criaremos longe daqui — ela respondeu. Mas a frase não era ainda um plano. Era apenas um instinto. Gabriel apoiou a cabeça no ombro dela. — Eu fico imaginando… se ele terá fome de sangue. Helena respirou fundo. — Se tiver… eu ensinarei controle. — E se não tiver? Ela sorriu. — Então você ensinará a ele tudo o que for humano. Eles começaram a imaginar cenas simples. Aniversários. Primeiros passos. Primeira palavra. Gabriel apostava que a primeira palavra seria “mãe”. Helena dizia que seria “pai”. Eles discutiam sorrindo, como se aquela normalidade fosse uma conquista maior do que qualquer batalha vencida. Mas, à noite, quando o mundo silenciava, o medo voltava. Helena imaginava caçadores descobrindo. Imaginava membros remanescentes do antigo Conselho retornando. Imaginava a criança sendo vista como experimento. Ela acordava suando frio — algo que não acontecia antes. Gabriel, por sua vez, tinha sonhos violentos. Via-se lutando novamente, mas agora segurando um bebê com um braço enquanto combatia com o outro. Via sangue respingando. Via o medo nos olhos pequenos que o observavam. Ele acordava com a mandíbula travada. — Eu não quero que ele cresça vendo violência — ele confessou certa madrugada. Helena se virou para ele. — Então nós vamos garantir que não veja. A convicção dela era firme. Mas, pela primeira vez, havia algo por trás dela que não era guerra. Era p******o maternal. Conforme os dias passavam, o vínculo entre eles se tornava mais suave. Havia mais toques. Mais cuidado. Mais olhares longos. Gabriel conversava com o ventre dela, mesmo sabendo que ainda era cedo demais para qualquer resposta. Helena sorria sempre que ele fazia isso. — Você já está assumindo o papel — ela provocava. — Estou ensaiando — ele respondia. Eles começaram a imaginar nomes. Nomes humanos. Nomes neutros. Nomes que não carregassem peso ancestral. Queriam algo simples. Algo que não denunciasse origem sobrenatural. Porque, no fundo, ambos sabiam: queriam dar a essa criança a chance de ser normal. Mesmo que o mundo deles nunca tivesse sido. Numa tarde chuvosa, Helena ficou longos minutos olhando pela janela enquanto gotas escorriam pelo vidro. Pensava no que significava maternidade para alguém que jamais envelheceria. “E se eu vê-lo envelhecer e eu não?” A ideia a atingiu como lâmina. Se a criança fosse humana… Ela veria cada fase. Cada mudança. Cada ruga. Enquanto ela permaneceria intacta. O amor poderia doer de maneiras que nem a guerra ensinara. Ela levou a mão ao ventre outra vez. — Seja o que você for… nós vamos aprender. Era uma promessa. Não de perfeição. Mas de tentativa. Naquela noite, deitados juntos, Gabriel sussurrou: — Eu não sei se vou ser um bom pai. Helena virou o rosto para ele. — Bons pais não são os que sabem tudo. São os que escolhem ficar. Ele fechou os olhos. E ali, no silêncio do quarto, dois seres que haviam enfrentado monstros, guerras e maldições admitiram o maior de todos os medos: Amar algo que poderia ser tirado deles. Mas também reconheceram algo maior: Nunca haviam desejado tanto proteger o futuro. E, pela primeira vez desde que Noctávia os transformara em símbolos de força e destruição, eles permitiram-se ser apenas isso — Um casal. Esperando. Temendo. Sonhando. E aprendendo que o amor, às vezes, é mais assustador que qualquer guerra.
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