Capítulo 18_ Fome que Não é de Sangue

1494 Words
A segunda noite começou silenciosa demais para uma cidade que escondia tanto sob a névoa. Noctávia parecia suspensa entre respiração e a espera, como se até as ruas soubessem que algo irreversível estava prestes a acontecer. Gabriel sentia isso no próprio corpo. Desde que Helena saíra após a decisão do Conselho, o apartamento parecia maior, mais frio, mais vazio, mas o ar não estava vazio. Havia uma tensão quase elétrica sob sua pele, uma vibração constante que não era medo, nem ansiedade, mas expectativa. Ele caminhava descalço pelo chão da sala, os pensamentos misturando-se à lembrança da forma como ela o olhara antes de partir, como se estivesse lutando contra algo que não ousava nomear. Ele não era mais apenas um homem apaixonado por uma mulher impossível; ele era agora um homem se transformando e que é observado, avaliado, medido por criaturas que existiam além da lógica e ainda assim, nada disso ocupava sua mente tanto quanto o desejo que vinha sendo contido há semanas. Ele sentia falta dela de uma forma quase física. Não apenas do toque, mas da proximidade que fazia o mundo parecer mais intenso. Desde que sua percepção se ampliara, tudo era mais vívido: os sons, os cheiros, as cores… e os sentimentos e desejos que tinha por ela. Quando Helena estava perto, o ar mudava. Ficava mais denso, mais leve. O coração dele reagia antes mesmo que os olhos a encontrassem. E naquela noite, enquanto a chuva começava a cair fina contra o vidro, ele sentiu primeiro a mudança na atmosfera. Como se o espaço tivesse se contraído. Como se o silêncio tivesse sido preenchido por algo invisível. A porta abriu-se devagar. Helena entrou sem fazer ruído, mas Gabriel já estava voltado para ela antes mesmo que seus olhos se encontrassem. Ela parecia diferente sob a luz fraca do apartamento — o cabelo levemente úmido, a expressão contida, os olhos profundos como se guardassem mais do que palavras. Havia tensão nela. E havia desejo. — Você não deveria estar aqui — ele disse, mas sua voz não carregava repreensão. Carregava outra coisa. Uma espécie de rendição antecipada. — Eu sei — ela respondeu, fechando a porta atrás de si. O silêncio entre eles não era constrangedor. Era carregado. Ele podia ouvir o próprio coração acelerar. Ela podia ouvir cada batimento com precisão absurda. A chuva intensificava do lado de fora, criando uma trilha sonora quase íntima para o que nenhum dos dois ousava dizer primeiro. Helena deu um passo. Depois outro. A distância entre eles diminuía como se estivesse sendo puxada por uma força invisível. Gabriel sentia o cheiro dela, não como perfume, mas como essência. Algo frio, limpo, perigoso. Ele não sentia medo. Sentia necessidade.Sentia vontade. — Eles estão observando — ela murmurou. — Deixe que observem — ele respondeu. Havia algo novo na postura dele. Não era desafio imprudente. Era escolha consciente. Helena percebeu. E isso mexeu com ela de forma mais profunda do que qualquer ameaça do Conselho. Ele não estava sendo arrastado. Ele estava ficando. Ela parou a poucos centímetros dele. Podia sentir o calor da pele dele irradiando. A diferença de temperatura sempre fora um lembrete c***l de que pertenciam a mundos distintos. Mas naquela noite, a diferença parecia criar atração, não distância. — Você está diferente — ela disse, quase em um sussurro. — Eu me sinto diferente — ele respondeu. A mão dele subiu lentamente, como se desse a ela tempo para recuar. Ela não recuou. Quando os dedos dele tocaram sua face, o contraste entre calor e frio enviou uma corrente elétrica pelos dois. Helena fechou os olhos por um instante. Era perigoso. Não por causa do desejo em si, mas porque desejo e fome compartilhavam fronteiras próximas demais. — Eu consigo sentir você — ele disse, a voz baixa, rouca. Os olhos dela se abriram lentamente. — Não diga isso. Apenas manda-me embora e eu irei — É verdade. Seu desejo tem ritmo. Eu sinto quando ele muda._ Gabriel apenas responde a parte que lhe convém e a outra finge não ter escutado Sua confissão não era acusação. Era i********e. O controle que ela mantinha há tanto tempo começou a se fragmentar. Séculos de disciplina não a prepararam para aquilo. Porque aquilo não era fome predatória. Era fome de toque. De proximidade. De entrega. Gabriel não esperou mais. Inclinou-se e tocou seus lábios nos dela com uma lentidão quase reverente. O primeiro contato foi suave, mas não inocente. Era carregado de tudo o que fora reprimido. Helena respondeu com a mesma intensidade contida, os dedos subindo pelos ombros dele, sentindo os músculos tensos sob a pele quente. O beijo aprofundou-se naturalmente, como se seus corpos já soubessem o caminho antes mesmo que suas mentes permitissem. A boca dele explorava com cuidado no início, mas a contenção acumulada transformava cada segundo em algo mais urgente. Ela deslizou as mãos pelo peito dele, sentindo o coração bater forte demais, rápido demais e ainda assim controlado. Ele a puxou pela cintura, eliminando qualquer espaço restante entre os corpos. A diferença de temperatura criou uma sensação quase embriagante. Ele era fogo. Ela era noite fria. Quando os lábios dele desceram pelo maxilar dela, pelo pescoço, Helena sentiu o instinto despertar perigosamente. O pulso dele estava ali, forte, vivo, pulsando sob a pele. Por um segundo, o mundo pareceu se reduzir àquele ponto exato. Mas ele não demonstrou medo. Ao contrário. Inclinou levemente a cabeça, expondo-se não como vítima, mas como escolha. Aquilo a desarmou completamente. Ela afastou o rosto do pescoço dele antes que a linha entre desejo e fome se confundisse. Voltou aos lábios dele com intensidade renovada. O beijo agora era profundo, urgente, carregado de algo que já não podia mais ser contido. As mãos dele exploravam as curvas dela com reverência e necessidade. Não havia pressa vulgar. Havia descoberta. Cada reação dela — cada leve contração, cada suspiro quase imperceptível — era absorvida por ele com atenção ampliada. Ele aprendia o corpo dela como se fosse linguagem. É como tocasse e o corpo de Helena dançasse conforme a sua música Helena sentia algo novo crescer dentro dela. Não apenas desejo. Mas vulnerabilidade. Porque permitir aquilo significava admitir que ele não era apenas humano para ela. Ele era escolha. O sofá foi alcançado quase sem consciência do movimento. A chuva agora caía com mais força, o som misturando-se à respiração deles. Os corpos encontraram ritmo. Não descontrolado, mas inevitável. A pele quente dele contra a frieza dela criava um contraste que parecia alimentar ambos. Gabriel segurou o rosto dela com as duas mãos, interrompendo o beijo por um instante. Os olhos dele estavam mais escuros. Mais profundos. — Eu não quero mais fugir disso — ele disse. Ela o encarou por um segundo que pareceu durar mais do que deveria. Depois deslizou os dedos pelos cabelos dele e aproximou os lábios do ouvido dele. — Então não fuja._ revelou entre gemidos A entrega aconteceu como consequência natural. Não houve ruptura abrupta. Houve continuidade. Os toques tornaram-se mais lentos e mais intensos ao mesmo tempo. Cada movimento carregava significado. Era a primeira vez dele — e ela sabia. Havia hesitação leve, misturada com determinação. Havia descoberta genuína. Ela o guiou com paciência silenciosa, não como predadora, mas como alguém que desejava que aquela memória fosse dele tanto quanto dela. Gabriel não era inexperiente por ingenuidade — era inexperiente por escolha. E escolher que fosse com ela carregava peso. O momento em que finalmente se tornaram um , foi explosão caótica. Foi fogo controlado que se espalha devagar até consumir tudo ao redor. A respiração dele tornou-se irregular. O corpo dela respondeu com intensidade crescente. Não havia espaço para Conselho. Para julgamento. Para sete noites. Havia apenas dois corpos que há muito se desejavam e finalmente deixavam de negar. Quando o ritmo desacelerou e o silêncio retornou ao apartamento, o som dominante era o coração dele — firme, forte, estável. Helena permaneceu deitada ao lado dele, os dedos desenhando padrões invisíveis sobre o peito dele. O olhar dela não era distante. Era profundo. — Você está bem? — ela perguntou suavemente. Ele sorriu, ainda recuperando o fôlego. — Eu nunca estive tão vivo. A resposta fez algo dentro dela apertar. Porque era verdade. Ele estava mais vivo do que nunca. E talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão perigoso. Ela apoiou a testa na dele. O contraste de temperatura já não parecia tão extremo. Talvez porque o calor dele estivesse se espalhando. Ou porque o frio dela estivesse cedendo. Lá fora, a chuva começou a diminuir. Mas dentro do apartamento, algo havia sido despertado que não poderia ser ignorado. O vínculo entre eles não era mais apenas emocional. Era físico. Era profundo. Era irrevogável. E nas sombras de Noctávia, onde olhos antigos observavam cada alteração na energia da cidade, a segunda noite do julgamento acabara de produzir algo que o Conselho não previra: Não instabilidade. Mas ligação. E ligações verdadeiras… Mudam o destino.
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