Capitulo 11_A Escolha Entre Luz e Eternidade

1312 Words
A ausência de Adrian deixou um silêncio diferente no ar — não mais ameaçador, mas pesado. Como se a noite estivesse aguardando uma decisão. Gabriel permanecia parado no meio da rua quase vazia, sentindo o mundo reorganizar-se ao redor de uma nova verdade irreversível. Helena estava diante dele, imóvel, sem tentar esconder nada. Não havia mais disfarce. Não havia mais versão editada de si mesma. Ela era exatamente o que ele acabara de ver. E ainda assim… era a mesma mulher por quem ele se apaixonara. A mente dele trabalhava em velocidade quase dolorosa. A lógica médica tentava encontrar brechas: mutação genética rara, doença desconhecida, fenômeno neurológico coletivo. Mas tudo ruía diante da evidência empírica. Ele tinha visto. Não imaginado. Não interpretado m*l. Visto. — Diga alguma coisa — Helena pediu, e pela primeira vez desde que a conhecera, havia vulnerabilidade real em sua voz. Gabriel respirou fundo. — Se eu fugir agora… você me deixaria ir? A pergunta não era apenas física. Ela compreendeu. — Sim. A resposta foi imediata. Ele sustentou o olhar dela, procurando qualquer traço de mentira. Não encontrou. — E você não me machucaria? — Nunca. — Nem deixaria que outros machucassem? Essa foi mais difícil. Ela hesitou apenas um segundo. — Eu faria tudo ao meu alcance para impedir. O coração dele bateu mais forte diante da escolha implícita naquela frase. Havia limites. Ela não era onipotente. Existiam outros como Adrian. Existia uma estrutura que ele m*l começava a compreender. — Então não estou seguro — concluiu ele. Helena aproximou-se lentamente. — Você nunca esteve completamente seguro. Humanos não estão. Vocês apenas acreditam que estão. A verdade crua da frase não tinha crueldade — apenas constatação. Gabriel passou a mão pelo rosto. — Isso é loucura. — É realidade. Ele começou a andar, afastando-se alguns passos, tentando organizar a avalanche de pensamentos. O frio da noite parecia menos intenso agora comparado ao choque interno. — Você me ama? — perguntou de repente, sem olhar para ela. O silêncio que se seguiu foi carregado. — Sim. Uma palavra. Mas dita com uma profundidade que parecia atravessar séculos. Ele virou-se. — Você sabe o que isso significa para mim? — Significa perigo. — Significa perder tudo o que eu achava que sabia sobre o mundo. — Eu sei. — Significa considerar a possibilidade de deixar de ser humano. As palavras pairaram entre os dois como algo sagrado e proibido. Helena não se moveu. — Eu nunca exigiria isso de você. — Mas você pensou. Ela não negou. — Pensei. Gabriel sentiu uma mistura estranha de medo e… fascínio. A ideia de eternidade era absurda, mas também intoxicante. Nunca mais envelhecer. Nunca mais temer a morte. Nunca mais assistir às pessoas partirem enquanto ele ficava. Mas a que custo? — Como é? — ele perguntou, a voz agora mais baixa. — O quê? — Ser você. Helena olhou para o céu encoberto de névoa antes de responder. — É viver sempre à margem. É ver gerações nascerem e morrerem como estações. É carregar memórias que ninguém mais compartilha. É sentir fome como algo constante, mesmo quando está controlada. É nunca mais pertencer totalmente a lugar algum. Ela voltou os olhos para ele. — E é solidão. A palavra caiu pesada. Gabriel absorveu aquilo lentamente. — Então por que não acabou com isso? — perguntou, sem julgamento. — Porque, apesar de tudo… ainda há beleza. Ainda há momentos que valem séculos. Ele percebeu. Ele era um desses momentos. O pensamento o atravessou com força. — Adrian quer que você me transforme? — perguntou. Helena endureceu levemente. — Adrian quer controle. Humanos que sabem demais são variáveis imprevisíveis. — Então a solução mais simples é me m***r. Ela aproximou-se num movimento rápido demais para olhos humanos, segurando o rosto dele com firmeza. — Não diga isso. O toque frio contrastava com a intensidade do gesto. — Eu jamais permitiria. Ele segurou os pulsos dela, sentindo a força contida sob a pele aparentemente delicada. — Você pode impedir todos? A pergunta não tinha acusação. Tinha realidade. Helena não respondeu imediatamente. E essa ausência foi resposta suficiente. Gabriel fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia algo diferente ali. Não apenas medo. Decisão em formação. — Se eu escolher ficar — disse ele lentamente —, não quero ficar como vítima. Helena o observou atentamente. — O que está dizendo? — Estou dizendo que não quero viver esperando que alguém decida se eu mereço continuar respirando. O vento atravessou a rua, levantando levemente a névoa ao redor deles. — Você está considerando — ela começou. — Estou considerando entender completamente minhas opções. Ela afastou as mãos do rosto dele, mas permaneceu próxima. — Tornar-se como eu não é uma fantasia romântica, Gabriel. Não é apenas força e imortalidade. É perda. É abandonar tudo o que te ancora no mundo humano. — E ficar humano agora significa viver com um alvo invisível nas costas. A lucidez na análise dele a surpreendeu. Ele estava processando rápido. Rápido demais. — Você teria que morrer — ela disse finalmente, com voz baixa. — Eu sei. — Não simbolicamente. — Eu sei. A palavra ecoou entre eles com peso absoluto. A transformação não era metáfora. Era morte real. Gabriel sentiu o coração bater forte no peito. Um coração que poderia parar. Que poderia nunca mais bater. A ideia era aterrorizante. Mas também havia uma estranha calma na possibilidade de escolha. — Eu preciso de tempo — disse ele. Helena assentiu. — Você terá. — E até lá? — Eu vou protegê-lo. — De você mesma também? A pergunta foi suave, mas carregava verdade. Os olhos dela escureceram levemente. — Especialmente de mim mesma. O silêncio voltou, mas agora não era de choque. Era de compreensão. Gabriel aproximou-se um pouco mais. — Eu ainda sinto o que sentia antes de saber. A confissão saiu quase involuntária. Os olhos dela suavizaram. — Eu também. — Isso me assusta mais do que os olhos vermelhos. Ela quase sorriu. Quase. — Amar algo que pode te destruir sempre foi a definição de risco. Ele soltou uma respiração trêmula. — Você quase perdeu o controle naquela noite do sangue, não foi? Ela não mentiu. — Sim. — E hoje? — Hoje eu não perderia. — Porque eu sei? — Porque eu escolheria morrer antes de machucar você. A intensidade da afirmação fez o ar parecer mais denso. Gabriel acreditou. Não por ingenuidade. Mas porque via verdade nos olhos dela — humanos ou não. A decisão final ainda não estava tomada. Mas algo havia mudado irrevogavelmente. Ele não estava mais apenas reagindo. Estava escolhendo permanecer. — Leve-me para casa — disse finalmente. Helena hesitou. — Não é seguro. — Então fique comigo. A frase carregava múltiplos significados. Ela assentiu. E, pela primeira vez, não se despediram na rua. Caminharam juntos até o prédio. Subiram as escadas em silêncio. No apartamento, Gabriel acendeu apenas uma luz baixa. O ambiente parecia menor agora, frágil diante da dimensão do que havia sido revelado. Helena ficou parada no centro da sala. — Você não precisa ficar se não quiser — ele disse. Ela aproximou-se. — Eu quero. Ele sentou-se no sofá, ainda tentando aceitar que a criatura diante dele atravessara séculos. — Se eu decidir… — começou ele. Ela aguardou. — Você me transformaria? A pergunta ficou suspensa entre eles como uma lâmina delicada. Helena respondeu com honestidade absoluta: — Só se fosse sua última escolha. E só se você tivesse certeza de que consegue viver com o que isso significa. Gabriel encostou a cabeça no encosto do sofá. A eternidade agora não era mito. Era possibilidade. E o mais surpreendente de tudo não era o medo. Era o fato de que, apesar dele, o amor permanecia. E talvez fosse isso que realmente tornava tudo perigoso. Porque amar a escuridão é o primeiro passo para atravessá-la.
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