A fotografia continuava aberta na tela do terminal externo da biblioteca.
1898
O número parecia absurdo demais para ser real. Não podia ser real.
Gabriel ampliou a imagem novamente, ignorando o frio que começava a subir pela espinha. O rosto era o mesmo.
Não apenas parecido.
Não apenas semelhante.
Era Helena.
A inclinação exata da cabeça.
O formato dos olhos. A linha da boca, até é a expressão... Aquela serenidade distante, quase intocável, estava ali.
O tempo não a tocara, ou ela não pertencia ao tempo.
Ele afastou-se da tela como se a imagem pudesse alcançá-lo. O ar da noite parecia mais pesado agora, como se Noctávia tivesse mudado de densidade em poucos segundos.
Isso não era possível.
Havia explicações.
Sempre há.
Talvez uma descendente idêntica. Talvez uma coincidência genética improvável. Talvez a qualidade da imagem estivesse influenciando sua percepção.
Mas, no fundo, ele sabia.
Ele sentira antes de ver.
O corpo frio.
A ausência de passado.
Os encontros exclusivamente noturnos.
O reflexo ligeiramente desalinhado.
A velocidade impossível.
E agora… isso.
Gabriel fechou o terminal abruptamente, como se encerrar a tela pudesse encerrar a revelação. O coração batia forte demais para alguém que se orgulhava do próprio autocontrole.
Ele começou a caminhar.
Rápido.
As ruas estavam quase vazias, mas a sensação de estar sozinho era ilusória.
Havia algo na atmosfera, uma presença invisível, silenciosa.
E ele não sabia que essa sensação não era paranoia.
Do outro lado da praça, oculto entre a névoa e a sombra das árvores antigas, alguém o observava.
Não era humano.
Os olhos eram antigos, mais antigos do que qualquer construção daquela cidade. Não havia curiosidade neles.
Apenas cálculo.
Gabriel não percebeu.
Mas seus passos estavam sendo medidos.
Helena sentiu.
Não com sentidos humanos.
Mas com algo mais profundo.
Enquanto caminhava pelas ruas paralelas, ela captou a mudança na energia da cidade. Vampiros não viam apenas com os olhos. Percebiam variações sutis, alterações no ritmo da noite, na pulsação invisível que ligava os predadores à escuridão.
E havia outro ali.
Não um novato.
Não um errante.
Mas alguém antigo.
Ela parou abruptamente.
Fechou os olhos.
Sentiu a direção.
Biblioteca.
Gabriel.
O instinto protetor foi imediato e feroz.
Ela moveu-se.
Rápida.
Rápida demais para ser vista.
Gabriel já estava quase na esquina quando a sensação de estar sendo observado tornou-se inegável. Ele parou.
Olhou ao redor.
Nada.
Apenas a névoa espessa e a luz fraca dos postes.
Mas o silêncio estava errado.
Muito errado.
Noctávia nunca era completamente silenciosa. Sempre havia um carro distante, um cachorro latindo, algum ruído urbano mínimo.
Agora, nada.
Ele deu mais um passo.
E ouviu.
Um som atrás de si.
Não passos.
Mas algo mais suave.
Como tecido roçando o ar.
Ele virou-se bruscamente.
Vazio.
O coração acelerou.
— Está imaginando coisas — murmurou para si mesmo.
Mas não estava.
Do alto de um prédio antigo, a figura observava com paciência predatória.
Gabriel era interessante.
E, mais importante, estava próximo demais de algo que não lhe pertencia.
A fotografia.
A busca.
O nome digitado.
Vampiros não usavam tecnologia.
Mas conheciam os riscos do mundo moderno.
E aquele humano estava curioso demais.
Helena surgiu na rua lateral como uma sombra ganhando forma. O olhar percorreu o ambiente em frações de segundo.
Ela sentiu a presença.
E reconheceu.
Adrian.
O nome atravessou sua mente como lâmina.
Ele não deveria estar ali.
Não naquela cidade.
Não perto de Gabriel.
Do alto do prédio, os olhos antigos encontraram os dela.
Um leve sorriso surgiu.
Ele saltou.
O movimento foi silencioso e impossível. Tocou o chão a metros de Gabriel, mas numa área ainda encoberta pela névoa.
Gabriel apenas sentiu uma mudança súbita na pressão do ar.
E então Helena apareceu diante dele.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, surpreso.
Ela segurou os ombros dele.
— Você saiu sozinho à noite.
— Isso não é ilegal.
Ela ignorou a ironia.
— Você mexeu onde não devia.
O tom era diferente.
Sem suavidade.
Sem poesia.
Ele a encarou.
— Então é verdade?
O silêncio que se formou entre os dois foi rasgado por um passo atrás deles.
Lento.
Calculado.
Gabriel virou-se.
E viu.
Um homem alto, elegante, com traços aristocráticos e olhar penetrante.
Vestia-se de forma atemporal, nem moderno, nem antigo.
A presença dele era… esmagadora.
— Helena — a voz dele era grave e controlada. — Você sempre teve dificuldade em seguir regras.
Gabriel sentiu o corpo reagir antes da mente compreender.
O ar parecia rarefeito perto daquele estranho.
— Quem é ele? — perguntou, a voz traida pela tensão.
Helena não desviou o olhar do recém-chegado.
— Vá para casa, Gabriel.
— Eu não vou sair no meio disso sem entender o que está acontecendo.
O estranho sorriu.
— Ele é mais corajoso do que parece.
Helena moveu-se ligeiramente à frente de Gabriel.
Proteção.
Instintiva.
— Não o envolva.
Adrian inclinou a cabeça.
— Ele já está envolvido.
Gabriel sentia o coração quase explodir no peito. Algo dentro dele gritava perigo. Não um perigo comum. Um perigo primitivo.
— Helena… — ele começou.
Ela não respondeu.
Os olhos dela estavam diferentes agora.
Mais escuros.
Mais profundos.
Adrian deu mais um passo.
— Ele sabe? — perguntou calmamente.
— Não completamente.
— Então permita-me mostrar.
O movimento foi tão rápido que Gabriel não viu.
Sentiu.
Adrian apareceu diante dele numa fração impossível de segundo.
Os olhos — vermelhos.
Não reflexo.
Não luz.
Vermelhos.
Gabriel congelou.
O cérebro entrou em choque silencioso.
Helena atacou.
O impacto entre os dois foi brutal e rápido demais para compreensão humana. Eles desapareceram numa explosão de movimento e reapareceram metros adiante.
Gabriel caiu de joelhos.
Respirava com dificuldade.
A mente tentava negar o que vira.
Não era possível.
Não era real.
Mas era.
Helena surgiu novamente diante dele.
Os olhos dela também estavam vermelhos agora.
Sem disfarce.
Sem humanidade simulada.
A verdade nua.
— Gabriel — a voz dela estava diferente. Mais profunda. Mais antiga. — Eu queria te contar de outra forma.
O mundo dele reorganizou-se violentamente.
Vampiros. São vampiros!!
A palavra deixou de ser lenda.
Tornou-se realidade.
Adrian observava com interesse clínico.
— Agora ele sabe — disse.
Gabriel olhou para Helena.
Não viu apenas a criatura.
Viu a mulher que o fizera sentir algo que não sentia há anos.
E isso era o mais perturbador.
— Você… é real? — ele sussurrou.
Ela se aproximou lentamente.
— Mais do que você imagina.
O medo estava ali.
Mas misturado com algo que ele não conseguia apagar.
Amor?
E, naquela noite, sob a névoa densa de Noctávia, Gabriel compreendeu que a linha entre mito e realidade era muito mais frágil do que sempre acreditara.
E que ele já estava dentro demais para simplesmente sair.